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Entrevistas de música brasileira

Jards Macalé

Jards Macalé no Bar Cu do Padre (SP). Foto: Flávio Serafini/Gafieiras

Jards Macalé

parte 18/19

Fui copista da Orquestra Sinfônica Brasileira

Tacioli – Quando você estava começando no instrumento, o João Gilberto não havia como violonista. Quais eram as suas referências?
Jards – Baden Powell, Garoto, Luís Bonfá, Bola Sete, Dilermando Reis, os violonistas daquela época. Descobri que o melhor estudo é o ensaio. Eu batia na porta dos Cariocas. Abriam a porta e “Entra aí que estamos ensaiando”. Sentava num cantinho e via construírem o barato. Aí no dia seguinte ia ver o Luizinho Eça, do Tamba Trio. “Que bom que você está aqui. Estamos ensaiando”. Digo: “Porra, legal!”. Tom Jobim tinha um piano enorme na casa dele. Um dia ele fez um concerto de pijama azul. Sabe aquele pijama azul louco, maluco, aquele pijaminha azul? “Você conhece aquele veado que fez as nuvens, maravilhoso, aquela coisa? Vou lhe mostrar algumas músicas dele.” Ele tocou todo o Johnny Alf, com harmonia do Johnny Alf e com harmonia dele. Depois dessa aí, fui morar com o Turíbio Santos. Esse violão meu, pessoal, não é esse aí, o outro, eu comprei da mão dele numa bagatela. Ele: “Pode me vender o violão de volta”. “Na, na, na, não! Ah, nem por um trilhão!” E por aí eu fui ouvindo ensaios. Fui copista na Banda Tabajara [n.e. Orquestra Tabajara]. Agora o copista é bobagem. Tem computador que faz esse serviço. Fui copista da Orquestra Sinfônica Brasileira. Havia dias em que eu queria… “Agora quero metade ritmo. Agora eu quero cordas e sopro.” Aí escrevia todas as orquestrações de Mozart, Beethoven, Bach, o cacete. Sentava na plateia pra ver os músicos tocando aquelas partituras que eu escrevia. E eu, com a grade na mão, ia acompanhando e sacando o timbre de cada instrumento. Até o dia em que eu disse: “Agora quero aprender harmonia. Quero aprender orquestração direito. Quero aprender a segurar aquele violão direito”. Mas nunca deixei de assistir ensaio.
Tacioli – Até hoje vai atrás de ensaio?
Jards – Pra tocar junto tem que, no mínimo, dar uma ensaiadinha. O resto é firula.
Almeida – Jards, o que você acha quando se fala de artistas que estão hoje ainda fazendo músicas, mas “disco bom mesmo foram aqueles dois primeiros da carreira”?
Jards – Quem fala isso?
Almeida – A mídia…
Jards – A mídia é uma merda. A mídia mente descaradamente. A mídia não levo nem conta.
Almeida – Mas em mesa de bar se fala.
Jards – Pois é, insuflados pela mídia e por falta de conhecimento do que é um processo criativo. Eles não sabem como esse processo se dá. Nas minhas músicas geralmente há algumas citações, citações de várias músicas de vários coleguinhas. Eu cito propositalmente para incluí-lo na minha música. Pode ser uma música desses dois discos primeiros que ele gravou ou pode ser uma música do último disco do cara. Música é uma coisa atemporal. “Vapor barato” é aquilo que aconteceu ali, ninguém sabia que o cara havia sido preso no Carandiru, torturado, eletrocutado, porém a música vira um sucesso danado, mais por força de Waly, porque o Waly sabia vender. Eu nunca soube vender nada, eu dou. Me enche muito o saco e “Toma!”. Quero me livrar daquilo. O Waly, não, ia lá e fazia. A Gal cantou “Vapor barato” e o “Mal secreto”. Foi um sucesso danado em 70. Aí acabou. De repente, aparece Terra estrangeira, filme do Waltinho Salles, com Gal cantando “Vapor barato” no final. Aí começou de novo. A Gal voltou a cantar o “Vapor barato”. Depois, o Rappa grava da forma deles, em reggae, a mesma música. Aí já estoura de novo. E, no entanto, a música… “O meu casaco de general / Cheio de anéis / Eu vou descendo por todas as ruas / Eu vou tomar aquele velho navio!”. Isso é coisa de hippie daquela época, como é que ela cabe hoje? Todo mundo sabe essa música, a garotada toda, todo mundo canta. Então, qualé, como essa coisa se realiza? Eu não sei.

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