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Entrevistas de música brasileira

Jards Macalé

Jards Macalé no Bar Cu do Padre (SP). Foto: Flávio Serafini/Gafieiras

Jards Macalé

parte 17/19

O violoncelo é uma mulher completa

Tacioli – Então, vamos fechar a conversa. E o violão brasileiro, Jards?
Jards – Não me fale desta mulher perto de mim. [risos] Isso aí é sagrado! Não vamos botar mulher no meio.
Dafne – Olha o que você vai falar, hein? Ele já escondeu a mão. [referência ao Renato Nery, dono das unhas admiradas por Jards ]
Jards – Está cortando as unhas. Ontem eu estava tocando aquele violão, mas pensava no violoncelo. O violoncelo é muito mais gostoso, muito mais, sabe? É uma mulher completa.
Dafne – Você encaixa.
Jards – O violão é uma extensão de mim e eu sou uma extensão do violão. Quando vi João Gilberto atracado naquele violão, dando um acorde numa nota só, um acorde só, tanto descobri o que era bossa nova, o que era aquela batida, como descobri que ele era o violão. E o som que ele estava produzindo, era tudo aquilo junto, fechado. Tem hora que, uma semana sem tocar, passo pelo violão e começo a conversar com ele. “Não estou com muita vontade agora. Me aguarde, espere aí um instantinho. Vou voltar, mas, poxa, me dá essa colher de chá. Eu estou sem saco!” Aí tem dia que me dá na telha e “Vem cá!”, e passo noites tocando, tocando sozinho.
Tacioli – Quem trata bem o violão hoje, Jards?
Jards – A maioria dos violonistas que escolheram esse instrumento o tratam bem. Nunca vi um cara chutar um violão. Eu só quebrei o violão na cabeça de Bethânia aqui em São Paulo porque ela encheu muito o meu saco, senão não quebrava, não.
Tacioli – E o Sérgio Ricardo? [n.e. Compositor e cantor paulista que integrou a primeira geração da bossa nova, autor de “Zelão” e de músicas que integraram filmes como Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha]
Jards – Bom, o Sérgio Ricardo violou a plateia todinha. “Violada na plateia.” Manchete desse tamanho num jornal. E todo mundo: “Oh, violada na plateia!”. Foram ver e estava o Sérgio Ricardo jogando o violão na cabeça das pessoas. [n.e. Uma das cenas que marcou o II Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, em 1967, motivada pela vaia que a música “Beto bom de bola” levou ]

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