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Entrevistas de música brasileira

Jards Macalé

Jards Macalé no Bar Cu do Padre (SP). Foto: Flávio Serafini/Gafieiras

Jards Macalé

parte 16/19

Não vou ao meu próprio enterro

Tacioli – Jards, e como é a sua relação com a finitude, com o fim das coisas?
Jards – Depende. Até algum tempo atrás eu vivia com muita tristeza e com muita apreensão esse negócio de finalizar, mas a Lygia Clark [n.e. Pintora e escultora mineira (1920-1988) ], minha amiga pessoal, me deu a chave do cofre. “Quando termina tudo e você se sente vazio, esvaziado, não lute contra o vazio. Vá fazer outra coisa. Passear, flanar.” Eu sou um flaneur, sou como o João do Rio no Rio de Janeiro. Eu passeando pelo Rio. Não tenho destino no Rio de Janeiro. De repente vou à cidade ver um negócio, acabo na casa do Moacyr Luz ou acabo no Corcovado ou, de repente, ando pela praia. Eu não fico rolando “like a rolling stone”. Enfim, não se fica ao léu. Você não fica pensando obsessivamente, “Que pena perdi aquela pessoa, aquela coisa. Acabou aquilo que era tão bom!”. Não!
Tacioli – Mas isso mudou…
Jards – Não, mudou…
Tacioli – Como era antes?
Jards – Ela [Lygia Clark] me disse: “Fique na sua, em algum momento vem”. Agora vivo com essa consciência: não estou perdendo nada, nada acabou, não existe fim!
Max Eluard – Na lógica oriental, o fim é o começo de uma outra coisa.
Jards – É princípio de uma outra coisa. Então, não tenho esse desespero mais.
Almeida – E quando acaba a vida, Jards?
Jards – Começa outra vida. Me ouça que sou versado em vida. [risos] Eu já vivi muitas vidas. Eu já morri muitas vezes.
Almeida – E essa é a melhor?
Jards – Ah, toda morte é igual. [risos] Ele ri. [sobre o Zé Luiz]
Tacioli – Jards, e o Torquato Neto?
Jards – Torquato era um gênio, mas muito angustiado, aflito.
Tacioli – Morreu com menos de trinta anos?
Jards – Não, foi trinta e três, não me lembro. Eu sei que ele se adiantou, podia ter esperado um pouco mais, mas aqui a coisa estava tão dura também que ele não suportou. E eu acho que, no fundo, o Glauber também não suportou… Tem uma hora em que você fica desesperado, fica de saco cheio, parece que não há saída. E naquele momento, principalmente, parecia que não havia saída mesmo. “Vou viver o resto da minha vida assim, monitorado por um bando de militares ignorantes? Será isso então?” Ficou essa coisa de vida e morte. E chegou um momento em que eu não ia ao enterro dos meus amigos. Até o Darcy eu fui ver; aí depois o Leon Hirszmann, um doce de pessoa, uma pessoa que me fez tão bem; o Glauber; o Torquato… Toda hora tinha alguém indo. “Quer saber? Não vou mais no enterro de ninguém. Inclusive não vou no meu próprio enterro!”. Ah, não vou não! [risos]
Dafne – E a perda do Waly?
Jards – Eu não fui ao enterro, não. Onde já se viu morrer assim de repente, cara, deixando uma porção de órfãos, amigos, viúvas?
Dafne – Mas você disse agora que está, não lidando melhor, mas tendo uma compreensão…
Jards – Pois é, por isso que eu não vou mais gastar meu tempo em enterro. Não vai mudar nada.
Dafne – Não é isso que vai mostrar seu sentimento?
Jards – Não, muito pelo contrário. O clima é aquela coisa esquisita. Eu chorei em casa. Se bem que eu fui no velório do Waly lá na Biblioteca Nacional. Mas aí você vê, olha todos aqueles traidores juntos, sabe, chorando o amigo que eles mesmos enterraram de uma certa forma. É muito chato. Prefiro ver o Pica-pau.
Tacioli – Com o Moreira da Silva foi a mesma coisa?
Jards – Com o Moreira eu fui até o último segundo. O Moreira e o Zé Kéti. Tem morto que vale a pena ser velado e tem morto que vale a pena ser enterrado. Tem uns mortos aí bem filhos-da-puta. Não vou dizer o nome, não, mas tem morto bem filho-da-puta. Assim como tem vivo muito escroto. Mas deixa isso pra lá senão ficaremos horas aqui. [risos]

 

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