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Entrevistas de música brasileira

Jards Macalé

Jards Macalé no Bar Cu do Padre (SP). Foto: Flávio Serafini/Gafieiras

Jards Macalé

parte 15/19

A bossa nova não existe. O que existe é samba

Tacioli – Jards, tem surgido convites para trabalho de ator?
Jards – Interessante que não. Mas de vez em quando… Atualmente quem me procura pra trabalhar em cinema e em outras coisas são os filhos dos meus amigos. São os filhos do Glauber, os filhos do Joaquim Pedro, os filhos do Nelson Pereira, o sobrinho do Hélio Oiticica… E eu topo fazer, mas a maioria não tem dinheiro. Aí chegam, “Macalé, mas a gente não tem dinheiro”. “Não tem problema.” “Mas como a gente vai recompensá-lo?” “Ah, tragam umas cinco bagas que tudo bem.” [risos] Aí eles vêm com um papo… “Olha, é a primeira vez, é o primeiro movimento.” “Obrigado! Deixaí que fumamos todos.” Aí acabou o estúdio… “Pô, ficou bom pra caramba!” “Olha, segura o pagamento.” “Muito obrigado!”.
Zé Luiz – Segunda parcela.
Jards – Segunda parcela. Aí lá pelas tantas, não estou esperando mais nada, chega a terceira parcela. Porra, cara, não preciso correr no carnaval, sabe?
Zé Luiz – O tom está salvo.
Jards – O tom está salvíssimo. Eu trabalho pela descriminalização da maconha. Por isso que entrei para o Greenpeace. Se é proibido cortar mato, sei lá, verde, como é que nego vai cortar a cannabis sativa que, inclusive, tem subprodutos fantásticos. Os tecidos são resistentes pra caralho!
Max Eluard – Fazem corda de cânhamo.
Jards – É, cânhamo. Você pega cânhamo e joga assim pela sua casa toda e os mosquitos não entram. Contra a febre amarela é maravilhoso. Olha, catarata, coluna, tenho problema. Minha médica geriatra já arrumou a carteirinha: “Esse é usuário médico!”.
Dafne – No soy traficante.
Jards – Não sou traficante, sou usuário. Por isso que estou explicando. Atestado: “Psiquicamente fica bem, as dores terríveis na coluna que ele tem melhoram, fica relaxado e compõe muito quando está sob a canhação”. Porra, não vamos ser cegos. Cocaína, não, cocaína é droga de drogado. Cada um com a sua cultura. Tem monocultura de maconha, então fuma a porra da maconha em paz, faz chá, exporta a maconha. Agricultura, agricultura, mas, não, quer cheirar a cocaína da Venezuela, da Colômbia. O Brasil não tem gente suficiente pra segurar, além do tráfico barra pesada, formal, a fronteira, cara, não tem como parar a droga, de entrar arma nessa porra. Essa nossa fronteira é continental, barra pesada, é enorme, e não tem gente suficiente. Explode uma pistinha de avião ali, eles estão fazendo mais trinta lá.
Almeida – Biografias de pessoas nascidas no Rio sempre falam “nascido na Tijuca, em Copacabana…”
Jards – Nascido na Muda, Tijuca.
Almeida – É um definidor da personalidade…
Jards – É, porque Ipanema é Ipanema, Leblon é Leblon, Copacabana é Copacabana, Méier é Méier, Tijuca é Tijuca, Centro é Centro, Encantado é Encantado. Cada um, cada quarteirão, tem uma cultura própria.
Almeida – Você conseguiria definir o tijucano?
Dafne – E Muda é Muda ou Muda é Tijuca?
Jards – Não, a Muda é na Tijuca, porque era muda dos cavalos, dos jegues, do bonde, era a troca de cavalo ou de jegue. Então eu saí de onde o bonde faz a curva, da muda, e fui morar em Ipanema, justamente onde o bonde faz a curva, onde era o Bar Vinte, em Ipanema. O Leblon era ainda um areial cheio de casinhas de pescadores. E reza a lenda que o Leblon ganhou esse nome porque ali morava um pescador francês. Aí era o “Le blond”, quer dizer, “o louro”. Aí alguém cortou o “D” e ficou Leblon. Dizem, né?! Cada um conta uma história mais maluca, mas no final ninguém sabe direito o que é. Da Tijuca saíram Antônio Carlos Brasileiro, meu amigo, Jobim; Erasmo Carlos; Tim Maia; Jorge Ben nasceu, mas mais pra Tijuca, no Rio Comprido, mas também nasceu na Tijuca; o Johnny Alf. O Johnny Alf não é paulista, é tijucano! Enfim, lá havia também o clube de fãs…
Zé Luiz – O fã clube do Cyll Farney…
Jards – Dick Farney e o Lúcio Alves, tinha um negócio de jazz. Ali estavam plantando o que iriam chamar de bossa nova, que não existe; é uma marca como Coca-Cola. O João [Gilberto] me disse várias vezes: “Bossa nova não existe. O que existe é samba”. Bossa nova é o nome dado para marca. Aliás, ninguém sabe quem deu esse nome até hoje. Há várias teses.

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