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Entrevistas de música brasileira

Jards Macalé

Jards Macalé no Bar Cu do Padre (SP). Foto: Flávio Serafini/Gafieiras

Jards Macalé

parte 14/19

Tizuka, pelo amor de Deus, me mate!

Max Eluard – E sua relação com o cinema, Jards, como começou?
Jards – Começou com uma Super-8 que comprei em Manaus, na Zona Franca. Eu sempre estive perto do cinema. Minha avó, como eu disse, me levava pequenininho pra ver cinema, Cine Arte. E eu sempre gostei de cinema, muito. Tanto que a minha música, quando trabalhei com Nelson Pereira, eu trabalhava com Leon Hirszmann, com Glauber, Joaquim Pedro… A primeira trilha de cinema que eu fiz foi quando musiquei os oitos poemas do Mário de Andrade para o filme Macunaíma, do Joaquim Pedro. E aí minha relação sempre foi muito próxima. Até a maioria dos processos eu saquei: roteiro, decupagem, mais ainda da Tenda dos milagres, também do Nelson. A decupagem do livro, dos personagens. Acompanhei todas as etapas: da ideia ao lançamento. Então a minha música e a minha interpretação mudaram porque fiquei muito mais perto do cinema que da música. Em termos de montagem, corta daqui, bota dali, letra, monta, desmonta. O mundo inteiro é música, tudo o que eu ouço aqui é música: o avião, o ronco do motor, você falando, enfim, tudo isso é música pra mim. Pra mim tanto faz fazer uma música que chamam de música, como botar ruídos à vontade. Pra mim tudo é música, o mundo inteiro é música.
Dafne – Como é aquele filme do vampiro, que está no Super-8, em que você atuou?
Jards – O Nosferatu. Não sou eu, não. O Torquato quem fez isso com aquele menino, o Ivan Cardoso.
Dafne – Você não trabalhou como ator?
Jards – Não, foi o Torquato.
Dafne – E como foi trabalhar como ator.
Jards – Engraçado, divertido. Cansa pra caralho, tem que esperar pra caralho, mas é divertido. O último papel, quando fui fazer a novela Amazônia, pedi pra morrer porque estava grande demais aquele negócio, não terminava nunca. Eu era um seringueiro no meio da selva. Amazônia linda, cheias de mosquitos, [com sotaque estrangeiro] “vários mosquitos, de vários tamanhos diferentes, nunca vi tanto mosquito na vida. Eu apagava a luz do quarto, aquela telinha na janela e os mosquitos olhando. Comprei até uma lente de aumento dessa bem bacana pra estudar os insetos do meu quarto. Nunca vi tantos insetos diferentes como vi na Amazônia. Muitos mosquitos e outros bichos mais na Amazônia. Muito bonito!” Mas pedi pra morrer porque eu não aguentava mais. Seis meses depois eu queria pular fora da Amazônia e não conseguia. Eu disse pra Tizuka Yamazaki – que foi criada comigo pelo Nelson Pereira dos Santos no Amuleto de Ogum –, que estava escrevendo: “Tizuka, pelo amor de Deus, me mate!” “Mas agora que o seu personagem vai crescer?” “Não! O personagem cresce, mas a grana não cresce. Me mate!” Eu não sou dinheirista, mas a Manchete não botava o dinheiro na hora certa, na data precisa conforme o combinado. Eu esqueci desse detalhe e saí pela Zona Franca comprando o diabo. Jacaré empalhado, madeira, rádios, mil brinquedos… Foi a maior sacanagem. Aí quando cheguei no Rio de Janeiro, simplesmente a minha conta estava no SPC. Não podia ter talão de cheque, cartão, porra nenhuma. Falei, “É até melhor!”. Agora, três anos depois, tinha coisa que só podia ser com cheque. “Vou resolver isso. Mas como vou fazer?” O Pedro Malan é meu amigo de infância e estava no Banco Central. Naquele momento se encontrava em Washington tratando não-sei-do-quê. Um dia me deu na telha e passei um fax pra ele explicando tudo direitinho. Imaginem que tirei xérox do cheques! E uma carta engraçada pra caralho. Aí ele me telefonou: “Olha, o negócio é o seguinte: quem manda aqui é minha mulher”. De onde se conclui que quando foi Ministro da Fazenda ele seguiu fielmente os conselhos dela. “Então, negócio é o seguinte: vou deixar na mão dela e tudo bem. Aguarde!” E eu aguardei. Um dia me telefonaram do Ministério da Fazenda. “Olha, aqui é do Ministério da Fazenda. O motorista pode passar aí pra levar o material?” “O.k.!” Eu, pobre pra caralho, pra variar, lá no Jardim Botânico, o meu apartamento caindo aos pedaços, e aí pára um carro imenso, MF. E os caras de preto… “Porra, será que vou em cana de novo? O que fiz?” Bom, abri a porta. “Ah, o Ministro pediu para trazer o material.” “Ah!” Uma maçaroca de papéis… e, impresso, “Liberado”! Saí dali e fui ao banco.

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