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Entrevistas de música brasileira

Jards Macalé

Jards Macalé no Bar Cu do Padre (SP). Foto: Flávio Serafini/Gafieiras

Jards Macalé

parte 13/19

Como carioca, achei o projeto do JK uma merda!

Zé Luiz – Seria o JK também um canastrão?
Jards – Isso é você que está dizendo.
Zé Luiz – Não seria? Estou perguntando, Macalé.
Jards – Não, mas eu estou respondendo. [risos] O presidente bossa nova. Não, o Juscelino me parece uma pessoa legal, eu não sei. Aí, tudo pronto, começaram a fazer cagada. Eles não aguentam, não, vão fazer merda na televisão. Acham que aquele aparelho ali, toda essa tecnologia, faz parte de uma grande privada onde eles puxam suas válvulas. É horrível! Aí botaram no final um letreiro: [canta] “Bossa nova, amigo, é ser presidente…”, quer dizer, Juca Chaves, que é um gozador de direita… Gastaram burros de dinheiro para no final gozarem o Juscelino com aquela música, uma música pra sacanear a bossa nova, a música pra sacanear o estado brasileiro, a música era pra sacanear tudo. Eles fazem aquilo tudo, gastam uma puta fortuna, para sacanear… Quem foi o filho da puta que inventou aquela música? E aqueles idiotas todos concordaram? Concordaram! Como que fazem um negócio desses? Gastam rios de dinheiro e imprimem isso na cabeça do brasileiro, nas novas gerações que não sabem de porra nenhuma de história, que não viveram isso… Uma informação que vem truncada, com os nomes próprios, e no final os caras dão uma gozada dessa, na própria obra? Eu não sei.
Tacioli – Mas o projeto do JK, depois de tantos anos, foi um bom projeto?
Jards – Olha, eu como carioca, achei uma merda. É um egoísmo meu. Quando a capital da República estava no Rio de Janeiro, o Rio de Janeiro era animadíssimo. Até na ditadura de Getúlio a coisa era animada. Quando chegou o JK, aquele sorriso, aquele otimismo, aquela coisa toda dele, aí o Brasil subiu pras nuvens. E, cá pra mim, não pagando o FMI, criou mais dívida, fez essa cidade maravilhosa do Oscar Niemeyer no meio do deserto. Construíram Brasília no cerrado tentando a integração nacional. Até que é engraçado. Mas, porra, concentrou em um lugar todos os bandidos que roubam a carteira do bolso do Brasil. No Rio de Janeiro, não, era esculhambação. Por exemplo: se o Palocci fosse em um puteiro no Rio de Janeiro, todo mundo estaria cagando para o puteiro. E se o caseiro caguetasse, porra, dariam porrada no caseiro. Mas em Brasília, não, todo mundo vai preso. O paraíso dos dedos-duros! A linha de frente da cagüetagem é a secretária, para variar, o caseiro, para variar, o motorista, para variar… A classe média e a baixa arrumam um empreguinho, aí caguetam o patrão. Aí o patrão cagueta o outro patrão. Aí o outro patrão não quer levar sozinho, cagueta o ministro. O ministro, coitadinho, é a última etapa de um processo, só falta acusar o presidente. Que é isso que eles estão querendo, derrubar o Lula! E eu não sou lulista, não! Caguei pro Lula! Mas acontece que ele virou um ícone dessa história toda. Vai abrir a janela do Brasil para um outro fila da puta? Imaginem o Garotinho e a Rosinha? Esse Alckmin que está cada vez mais com a cara do Maluf. [risos] O cara está falando igual a do Maluf, está falando igual ao Maluf. Outro dia eu senti uma saudade profunda do Brizola. Se o Brizola estivesse vivo… Se umas pessoas fossem vivas, essa merda não estaria acontecendo. Se o Glauber estivesse vivo, talvez ele não agüentasse essa caretice toda, mas, ao mesmo tempo, iria balançar o comportamento da rapaziada cultural. Não ia ter tanta sacanagem, tanta besteira dita por aí. Se o Darcy Ribeiro estivesse vivo, o combate ia ser maravilhoso. Se o Brizola estivesse vivo, atrapalharia todos os governos até morrer de verdade. Eu, por exemplo, sou um grande atrapalhador. O que é isso, cara? Um espião do caralho?! [n.e. Olha para baixo da mesa e assusta-se com o Dafne, que está fotografando-o. Depois, faz pose]
Dafne – Obrigado.
Jards – Claro, fui dirigido por Nelson Pereira dos Santos.

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