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Entrevistas de música brasileira

Jards Macalé

Jards Macalé no Bar Cu do Padre (SP). Foto: Flávio Serafini/Gafieiras

Jards Macalé

parte 12/19

Vou à falência quase todo dia

Max Eluard – Mas voltando para a questão do anarquismo. Você acha que o anarquismo é um sistema viável dentro da nossa sociedade?
Jards – Eu acho que sim, é só pensar. É só refletir, com reflexão, pensar exercício de pensar.
Max Eluard – É uma mudança muito mais interna do ser humano do que de sistema.
Jards – É claro. Você vira um estado, o que chamam de estado, país, você vira um país, um estado com responsabilidade, com limite. Pra mim o meu limite é até aqui, ó, por exemplo. Isso aqui. O meu espaço aéreo que eu determinei é aqui. Quatro dedos de distância pra não esbarrar. Eu faço assim e rodo: se botar um círculo em volta, esse é o meu espaço aéreo.
Zé Luiz – Desculpe-me. Eu invadi.
Dafne – Invadiu seu espaço aéreo. [risos]
Jards – Mas eu considerei um espaço aéreo aqui, assim. O último dedo mais longo. Ele invadiu o meu espaço aéreo, vai ter que conversar. Eu acho que todo mundo tem o seu. Você anda na rua? Sou incapaz de esbarrar em alguém.
Max Eluard – Mas a gente vivendo assim há séculos, dentro de uma lógica de produção, que é o capitalismo, em que você tem que derrubar o outro pra se dar bem. Como a gente recupera isso?
Jards – Bom, isso é problema deles. Eles resolveram jogar desse jeito e nos empurrar pra esse jogo. Eles vão ter que se resolver, porque nesse jogo nada é absolutamente perfeito. É um jogo de azar. O capitalismo é um jogo de azar. É como se estivesse todo mundo num pano verde, uns sabem jogar bem pra caralho, outros não sabem jogar. Os que não sabem jogar, como nós, eu, por exemplo, vou a falência sempre, quase todo o dia. E amo cada minuto dessa falência. Cada segundo.
Dafne – Vi o Big Brother 6 e notei que o povo brasileiro premiou uma pessoa despossuída, uma pessoa humilde, como na novela também quer ver o bonzinho se dar bem, ficar feliz, pobre ficar rico, ter filho, casar. O povo sempre premia o bom na novela, na TV, na ilusão, mas na vida real o negócio é outro. O bonzinho é otário.
Jards – Mas isso é a isca. Eles jogam a isca. Eles não vão economizar com isso.
Max Eluard – Como lidar com isso?
Jards – Não tem como lidar com isso. Não vejo Big Brother, não me interessa. Agora, já vi há muito tempo, 1984.
Dafne – Não, com essa dualidade do povo que premia na ilusão o bonzinho, mas na vida real…
Jards – Na realidade eles estão pisando na merda. O povo é uma figura de retórica que não existe. Dão o nome de povo a um amontoado de pessoas de várias gradações, classes… Agora, eles têm coragem de fazer essas besteiras todas. A televisão é um perigo! Por exemplo: não vi o Juscelino [n.e. A minissérie da TV Globo, JK, exibida no início de 2006], mas somente o último dia. Minha mãe acompanha todas as novelas. “Meu filho, veja!” Minha mãe, 86 anos, vê a novelinha dela. Regra normal pra pobre, rico ou classe média. Então “Veja o último capítulo!”, aí fui ver. Estava até achando interessante porque pelo menos deram os nomes próprios das pessoas. Mas estava muito globalizado também, coisa esquisita. Fiquei entre ter vivido aquele período muito bem, sabendo daquele período e, ao mesmo tempo, ficou um charme global esquisito. O José Wilker canastrão… Ele é bom ator, mas tava um canastrão no JK. Todo mundo esquisito. A Letícia Sabatella é uma linda menina. Gosto mais dela do que de todas aquelas atrizes.

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