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Entrevistas de música brasileira

Jards Macalé

Jards Macalé no Bar Cu do Padre (SP). Foto: Flávio Serafini/Gafieiras

Jards Macalé

parte 11/19

Foi o que o João Gilberto me ensinou

Tacioli – Jards, e o João Gilberto na sua história, como foi?
Jards – Eu sempre amei. O Nelson Motta chegou em 1958 lá em casa. “Tem um cara que vem aí, você precisa ver como toca um violão e canta! E tem uma música que é a primeira que vai sair. Quer ver?” Aí me mostrou rudimentarmente ao violão “O barquinho”, que é outra história maluca. Os caras que fizeram essa música, Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, foram passear lá na Barra da Tijuca, de barquinho. Acabou a porra da gasolina. Entardecendo e eles naquele barco. E o barco não pegava mais. Aí, aquele sol esplendoroso, carioca, entardecendo, aquela coisa, começaram: [canta] “Dia de luz, festa de sol / O barquinho a deslizar…” E quando tentaram rodar o motor,tuc, tuc, tuc. Aí foi no ritmo. Tuc, tuc, tuc [cantando a melodia da música] É assim que se faz música. É que nem a história do Waly, que foi preso, torturado no Carandiru, e voltou com o “Vapor barato”. Dependendo das situações você faz uma música feliz ou uma música infeliz.
Max Eluard – Tem uma história sua com o João Gilberto que vi você contando num show certa vez em Bauru. Dizia que você havia ido à casa dele e ficou uma hora… Como é essa história?
Jards – Ele me chamou. Uma hora? Não, seis horas! [risos] “O que você estará fazendo às seis horas da tarde?” Eu respondi: “Nada”. “Vem pra cá.” Aí eu fui. Fã incondicional, absolutamente fã incondicional dele. Ele sentou no sofá, aquela vista, lá de cima aquela coisa redonda no Leblon ali, lá no último andar, parecia um disco voador. Se via até no Leme lá de cima. Estou exagerando um pouco. Sentamos por uma meia hora, lá do quarto dele. Quando ele tocou o violão, me perguntou: “Você quer saber o que é a bossa nova?”. Todo mundo quer saber. Lá fora eles querem saber o que é a bossa nova mais do que a gente aqui, né? Aqui tem axé, tem… Mas tem frevo, tem tudo. Mas a bossa nova mesmo, caga-se solenemente. Lá eles querem saber da bossa nova como o nosso maior produto musical. Produto de mercado. Todo mundo quer saber da bossa nova. Ensinei bossa nova prum jamaicano, lá em Londres. Botava a introdução da batida básica do disco do Caetano, do Transa, precisava desenvolver o estilo bossa nova, mas ele devolve com a batida do reggae. Ensinei na Alemanha um amigo, violonista clássico. Ele ouvia a batida e “The basic, Macal, the basic!”. Ele queria que eu ensinasse o básico. O básico é tchan, tchan. Foi aquilo que o João Gilberto me ensinou nesse dia. Aí o João Gilberto pegou um acorde só e ficou batendo… Um acorde ré maior no baixo. Na primeira uma hora eu achei a maior canseira. Mas logo depois já estava meio hipnotizado, mas ainda estava acreditando que era só o último detalhe. Na terceira hora comecei a ficar meio distraído, maravilhado. Na quarta hora comecei a ficar meio cansado. Na quinta hora que eu olhei pra ele, ele estava pensando, ele sozinho no violão, ele e o violão era uma coisa só. Na sexta hora eu saí de fininho, pé ante pé, fui pra casa, peguei o meu violão. Eu sou bom aluno, vou ver como que é e tal.
Max Eluard – Esse era o segredo?
Jards – Não, isso não tem o menor segredo. Já fui contando publicamente, virou verdade. Já dizia Goebbels [n.e. Paul Joseph Goebbels, 1897-1945, Ministro da Propaganda da Alemanha Nazista ]: “Você conta uma mentira mil vezes, ela vira verdade”. Só que essa é verdade. Aí todo mundo acha que é mentira, porque é o processo sempre ao contrário.
Tacioli – Tem uma outra verdade do João Gilberto pra contar?
Jards – Não. Nenhuma que nos interessa. [risos]

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