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Entrevistas de música brasileira

Jards Macalé

Jards Macalé no Bar Cu do Padre (SP). Foto: Flávio Serafini/Gafieiras

Jards Macalé

parte 10/19

Qual é o nome da sua manicure?

Renato Nery – Jards, você está vivendo um momento criativamente bom. O que faz você viver este momento bom?
Jards – Por que a sua unha está assim e a minha não consegue ficar desse jeito? [risos]
Renato – Não sei.
Jards – O que você passa?
Renato – Eu não passo nada.
Jards – Mas como não? Você trata. Qual é o nome de sua manicure?
Renato – Eu não tenho manicure. [riso]
Jards – É você sozinho?!
Renato – Eu mesmo quem trato.
Jards – Então, me acompanha. Você vai tratando as minhas unhas até ficar assim. [risos]
Renato – Vou contar o segredo…
Jards – Mas você toca música clássica ou popular?
Renato – Popular.
Jards – Com essas unhas?
Renato – Com essas unhas. Mas me diga uma coisa, Jards, o que te atrai…
Jards – Estou desconfiado de você. [risos]
Renato – [sem graça] Levei uma cantada…
Jards – Vai, cara, vai, pode falar… Mas olhem só… Muito branquinha, muito limpinha. Isso é para ganhar as meninas. Tragam o violão! Cadê o violão?!
Max Eluard – É o Zé do Caixão do violão.
Jards – Vai lá.
Renato – Você disse que o seu processo criativo oscila…
Jards – Como de todo mundo, eu acho.
Renato – Isso. Então, o que te faz hoje estar num bom momento criativo?
Jards – Eu fiz 63 anos agora, 3 de março. Eu olhei para trás e acabei gostando do passado e quero viver o resto agora mais feliz, mais regrado, menos porra-loca, botar a minha criatividade… eu vivo disso. Não sei fazer só isso, mas só faço isso. Agora ganhei um violoncelo de presente. Um violoncelo meio quebradão. Mandei consertá-lo num luthier. Setecentos e cinquenta paus. Arrumei um professor que é o primeiro cello da Sinfônica Brasileira, que me vendeu somente o arco por mil e quinhentos paus. Deu uns dois mil e tantos paus e nem comecei a estudar… Com 22 anos eu já estudava violoncelo na Pró-Arte, com Peter Dauelsberg que, coincidentemente, era o primeiro violoncelo da Orquestra Sinfônica Brasileira. Aí comecei a estudar com Guerra-Peixe, o maestro, o compositor, o nacionalista. Na época todo mundo queria imitar Schoenberg, Stravinski, o caralho, até que lhe caiu a ficha do nacionalismo e fez um belo trabalho de coletar material… As composições dele são geniais. Foi meu professor de composição e de orquestração. De teoria musical tive uma pessoa maravilhosa, uma professora gaúcha genial, sábia, que também deu aulas para o Paulinho da Viola, o Edu Lobo, alguns da música popular, acho que para o Egberto Gismonti. Estudamos com ela rudimentos de música, de ler e de escrever e de saber o que está fazendo. De pegar material técnico e utilizar pra si. E aí se juntou o estudo erudito com a coisa popular, que eu já vinha, e juntou também com o humor. Pô, só a PRK-30 era uma enciclopédia de loucura. O músico que regia aquela loucura ali atrás era Radamés Gnattali e os músicos faziam aquelas coisas com o maior amor. Aí eu entendi, alguns anos depois, porque uma das minhas falências – eu sempre vou à falência… Esse show de agora é para cobrir uma pequena falência de… [risos]
Zé Luiz – Responsa, responsa…
Jards – Um pequeno buraco…
Zé Luiz – Então não pode ser daquele jeito que você falou para eu pagar…
Jards – O importante não é o dinheiro…
Zé Luiz – De outro jeito…
Jards – Como assim?
Zé Luiz – Daquele outro jeito?
Jards – Como?
Zé Luiz – Como você me falou no cafezinho…
Jards – Ah, não! Você é um empresário bem-sucedido, tem dinheiro. Pra você eu peço outra coisa. [risos] Numa das minhas falências fiz um show com o Luiz Melodia e o Itamar lá no Rio, que se chamava Neurologia. Todos os humoristas – Paulo Caruso, Jaguar, Millôr Fernandes, Chico Caruso – iam ao meu show. Eu achava estranho. “O que esse pessoal gosta tanto de vir aos meus shows, ficar rindo… Eles não são humoristas?! Deviam estar chorando.” Eles me deram sustentação, não de dinheiro, mas psicológica, durante um longo período, tanto é que fui agora ver o Salão de Humor do Rio de Janeiro na Sala Laura Alvim, aí cheguei um pouco antes [toca o celular do Jards]… Peraí… Deixa eu atrapalhar aqui… “Alô! Estou dando uma entrevista aqui no Cu do Padre, um botequinho bem cu do padre mesmo. Pode telefonar depois? Um beijo!”. Foi há duas semanas. Tinha um show deles depois. Aí chegou o Paulo – eu nunca sei quem é o Paulo e o Chico, são duas torres gêmeas – e… “Tem feito música?”, me perguntou. “Fiz uma paródia.” [n.e. Paródia de “Twist and shout”] [canta] “No soy traficante, soy maconheiro…” E a plateia: “Maconheiro! Maconheiro!” Muito bem. “Você vai cantar com a gente!”, disse o Paulo. “Você está louco, rapaz!” “Não, você vai lançar isso internacionalmente, mundialmente, o cacete…” “Isso é maluquice!” “Não, vai!” Falou e saiu.

De repente, um sujeito que já havia tomado umas e se dirigia ao sanitário, dispara:

Jards?! Jards Macalé?

Jards – Não! Paulo Silvino ao seu dispor! [risos]

Ô, Jards, boa sorte! Não havia te reconhecido, querido.

Jards – Obrigado, meu amor. É por isso que os humoristas… Bom, aí subimos no palco e “Agora o Jards Macalé lançará mundialmente a sua versão…” E aí, a introdução: [como na abertura de “Twist and shout” eternizada pelos Beatles] “Ah! Ah! Ah! Ah!”. E eu não entrei… E mais uma vez. “Ah! Ah! Ah! Ah!… Yo no soy traficante, soy maconheiro… Usted!” [risos] Uma festa!

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