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Entrevistas de música brasileira

Jards Macalé

Jards Macalé no Bar Cu do Padre (SP). Foto: Flávio Serafini/Gafieiras

Jards Macalé

parte 9/19

Fui expulso do Municipal pelo meu próprio pai

Tacioli – E o que você ouvia de música na infância e na adolescência?
Jards – Essa fase foi maravilhosa, porque meu pai tocava acordeom rudimentar, minha mãe canta maravilhosamente bem e amava a Rádio Nacional. Ela fazia meu pai levá-la à Rádio Nacional. Era fã do Orlando Silva, do Francisco Alves. Eu vi minha mãe chorando, mas aos prantos, terrivelmente aos prantos, quando soube da morte do Chico Alves. Ela foi pra janela, chorou. Eu não entendia direito que história era aquela, gostar de um cantor é uma coisa, mas chorar aos prantos, dias de luto por causa do Francisco Alves… Eu não entendi direito. Agora eu entendo. Estou de luto por todos os meus amigos que morreram até hoje. E minha mãe cantando sempre, bonito. Minha avó com uma voz fininha, linda. Ela foi criada na Inglaterra, mulata. Em Trinidad Tobago, Pará, London London, Pará, Rio de Janeiro, minha avó. E eles me levavam para a Cinelândia onde havia os Concertos para a juventude. Então eu vi o Villa-Lobos regendo, o Guarnieri, o Guerra-Peixe, meu futuro professor. Uma porrada de gente regendo a Orquestra Sinfônica Brasileira. Ou então me levavam para o Cine Arte, que era um cinema, não sei se era 24 horas, na minha cabeça ficou 24 horas, onde passava séries, desenhos animados, atualidades francesas, o jornal da Atlântida e não-sei-o-quê. E, de vez em quando, havia uma coisa interessante, um filme… Em vez de colocarem o Chaplin ou outras comédias, eles botavam as pessoas tocando piano. Eu não vi, mas o Villa-Lobos, o Radamés Gnattali, e uma porrada de músicos maravilhosos tocavam no cinema pra acompanhar o filme. Já havia filme sonoro, mas pra caracterizar aquele negócio das comédias, botavam as pessoas ali, tocando. Antes eles tocavam durante todo o filme, mas no Cine Arte tocavam somente naquela parte. Era maravilhoso! E eu ficava lá vendo tudo. O meu pai gostava de ópera e me levava para o Municipal pra ver ópera. Um dia fui expulso do Municipal pelo meu próprio pai. Isso é grave! Pode rir, mas é grave. Pode rir! Se vai rir no final, começa a rir do início. Havia o corso na avenida Rio Branco. Não eram as escolas de samba, essas coisas. O corso era formado de carros alegóricos que passavam, cada um mais alegórico que o outro, e sempre havia uns índios, que eu amava, que eram índios vestidos de pena, assim, parecia pena de espanador. Eu achava aquilo o máximo! Chegava em casa e arrancava tudo que era pena do espanador. Minha mãe: “Meu filho, quem arrancou as penas do espanador?”. E saía vestido de índio. Minha mãe tem essas fotografias de criança. Aí fui ver O guarani no Municipal. Gente pra caralho! Era baratinho. Aí estou vendo O guarani: gravata borboleta, calça curta, um suspensório, meia e sapatinho novo. Não gosto muito de ópera. De repente, entra um coro de índios vestidos de espanador. Eu caí na gargalhada. E todo mundo “Psiu!”. Quanto mais se pede silêncio num lugar de silêncio, o barulho aumenta. Porque o cara faz “Psiu!”, aí o outro faz “Xi!” e todo mundo “Xi!”, “Xi!”, “Xi!” e vira uma zona. Meu pai me pegou pelo colarinho, me levou e me deu um tapão na cabeça. Eu rolei escada abaixo, lá de cima do Municipal. Pra mim parece que foi lá de cima, mas nem meu analista sabe direito como foi a história, já que, a cada hora, eu conto que foi mais e mais em cima. [risos] Aí, cara, fiquei com horror de ópera e fiquei muito puto com meu pai. Mas a música sempre viria da Rádio Nacional. Minha mãe fazia meu pai levá-la à Rádio Nacional. E eu ouvia a Rádio Nacional e cresci com a Rádio Nacional, que era a TV Globo da época, mas com muito mais qualidade. Primeiro, por ser rádio, você fantasia, não chapa a imagem. “Esse aqui é aquele ali ó, o dedo-duro!” Televisão é uma coisa de dedo-duro. “Ali ó, aquele ali!” Mas é uma grande invenção pra quem sabe usar.

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