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Entrevistas de música brasileira

Itamar Assumpção

Itamar Assumpção por Marcos Penteado em 1990/CEDOC FPA

Itamar Assumpção

parte 4/4

É maldito quem é livre

Max Eluard – Itamar, quem é a Ná Ozzetti pra você?
Itamar Assumpção – É aquela artista, assim, como a Virgínia Rosa também, que começou de uma forma independente da grande mídia. A Ná com seu grupo, que fez belos trabalhos, o Rumo, um pessoal desenvolvido musicalmente. Mas eu acho que a minha geração – Rumo, Arrigo – é a geração que mais pôde desenvolver uma linguagem música no Brasil ultimamente… Ou é isso ou é mercado. Então, como é possível dentro de uma pressão mercadológica desenvolver uma linguagem? Eu desde o Beleléu disse, “Olha, vou ficar fora disso que meu negócio é desenvolver minha linguagem”. Pelo caminho, depois dos trabalhos com o Rumo, a Ná partiu pro seu caminho-solo, tal. Muito tempo depois, num belo dia, ela me mandou uma fita com duas músicas e falou, “Olha, comecei a compor. Que cê acha?”. Porque é diferente você cantar e compor, é uma outra coisa…

Itamar – Aí ela viu esse lado e me perguntou. Minha resposta foi… Vieram uma música e uma melodia, então somente escrevi uma letra. Então, minha resposta foi essa, uma parceria já de cara. Então, a gente é… A gente se uniu mesmo naquele momento. A gente, claro, um admirando o outro o tempo todo, cada um com o seu tabalho. Isso pra mim quer dizer o seguinte: dois artistas que se desenvolveram e com a liberdade suficiente para terem parcerias. Eu posso tanto ter uma parceria com Paulo Leminski, que é um poeta, como como o Macalé, como o Melodia, como com o Hermeto. Essa liberdade de criar com o outro. E a Ná foi desenvolvendo isso. Você tem que ter a sua linguagem como compositor. Você vai ouvir Tim Maia, você vai ouvir Jorge Ben, todos tem a sua característica. No Brasil, ou você imita ou você cria uma linguagem. E como o Brasil é assim, um ninho de talentos… Por exemplo, antes de mim – tenho 51 anos – Clementina, Paulinho da Viola, mesmo Hermeto, Tom Zé; é Lupicínio, é Cartola, é Luiz Gonzaga, Caetano, Gil, Milton Nascimento, Luiz Vieira e Arrigo. A diversidade é muita.

Itamar – Aí chegou o momento que, como compositor, eu teria necessidade de olhar pra esse lado especificamente. E o que me deu um toque foi um show que fiz com a Tetê Espíndola lá no meio da Bahia, Cachoeira de São Félix, onde todos conheciam a Tetê, e eu, um anônimo por excelência, com repertório totalmente inusitado. Aí, bom, o que fazer aqui? Sentei. “Vou abrir seu show, Tetê”. Sentei, peguei o violão, comecei a cantar, “Sei que vou morrer, não sei o dia”, aí todo mundo começou a cantar. Comecei a acompanhar e prestar atenção numa melodia eterna… Alguém criou uma melodia eterna que independe de saber quem. Então, Ataulfo é isso, essa coisa do compositor popular.

Itamar – Tive uma época em que eu era tão vinculado ao Arrigo que o pessoal achava que era é igual, né? Eu tenho que entender o Arrigo como músico, como arranjador, como intérprete, pra cantar aquela música que é atonal. É outro papo. Assim, o meu natural é o batuque. Os pretos trouxeram e deixaram aí com os caras, então isso é o meu natural, o samba. Isso aí é coisa que me é natural. O atonalismo, não! Nem pra nós, brasileiros. Mas eu acho que o Arrigo é isso. Ele traz algo para a música brasileira que não existia antes. Então pra mim é bobagem falar que o Arrigo é complicado, é chato… É burrice! Porque você tem que entender mesmo, não tem conversa. Eu sou outra coisa, você não precisa ler minhas músicas como músico. Mas do Arrigo, você vai ter que ler, e muito bem. Quero dizer, há esses dois… Então, há aqueles músicos tipo Bocato, que tanto faz ler como não ler… Aquele brasileiro, brasileiro, essa escola que os caras malham pra caramba, pra você entender o mínimo da coisa… Então, essa coisa do compositor, eu fiquei, isso em noventa e… Depois que eu fiz o trabalho com as Orquídeas, montei um grupo de mulheres, em 92, gravei dois discos com elas, que é minha banda atual, que pretendo continuar por um bom tempo, as Orquídeas, montada em 92. E hoje uma está com o Chico César, outra com Zeca Baleiro, por aí afora. Eu acho lindo porque estão tocando muito bem…

Itamar – O que entendi quando comecei a compor é que não adianta você pegar o violão e fazer uma musiquinha. No Brasil, pra que vou fazer isso? Pego Lupicinio e canto. Fazer musiquinha? Não vai dar certo, essa coisa que não tem jeito, você é medíocre. E não vem com história “O mercado aceita tudo”, porque a mediocridade não vai se transformar em outra coisa, só porque o mercado aceita tudo. O medíocre continua. Só que acontece que se tem uma opção hoje pelo medíocre. Então, os que querem desenvolver seu trabalho com mais calma, pelo caminho, pelo verdadeiro caminho – que é você quebrando sua cabeça até achar o rumo. Então, saquei o Ataulfo como compositor brasileiro. Eu acho que ele é o mais popular, porque todo mundo canta Ataulfo. É difícil cantar Tom Jobim, mas Ataulfo não é. E todo mundo canta sem entender… Então, essa coisa me deu uma cutucada, no sentido de “Você é um compositor popular? Suas melodias ficarão? (cantando) “Meu coração / Não sei porque…” Eu não estou tocando nada, é a melodia, somente. Depende, se eu quiser harmonizar, harmonizo… Atonalizo. Não importa a harmonia, é a melodia que importa. Então, fui lá no Ataulfo quando falei, “Vou estudar”, “Vou deixar o itamarzinho assumpçãzinho um pouco e vou estudar”. Aí havia um projeto no MIS [n.e. Museu da Imagem e do Som], que é sempre novos, tal, e o Rennó, o Carlos Rennó, o poeta, tradutor e amigo, me convidou pra esse projeto que tinha o Luiz Melodia, Tom Zé, interpretando Geraldo Pereira, Jackson do Pandeiro, Adoniran Barbosa e Ataulfo. Minha primeira opção era gravar Adoniran, mas o Passoca também ia fazer… O Passoca tava mais nessa onda. Aí, falei, “Pô, uma boa oportunidade de conhecer Ataulfo”. Entrei na obra do cara e fiquei três anos da minha vidinha com Ataulfo na minha orelhinha. Daí, gravei 20 músicas de um universo de 50 que peguei. Falei assim, “Os caras que não conhecem isso vão ficar fazendo musiquinha. Eu não vou. Cê não conhece a obra dos caras, cê não sabe o que rola…” Então você vai fazer musiquinha achando que é campeão. Quando você começa a sacar que a cultura brasileira é complicadíssima, ela não está aqui na sua cara. Tem que correr atrás. Então, sei que há um público que está afinadíssimo com o meu trabalho, que caminha de uma outra forma. Mas tem muita gente que não gosta de abobrinhas e não tá a fim e acabou. E existe uma outra música que não é abobrinha. Hoje, como compositor, quero dizer, depois dessas aulas todas, porque cada um é mestre, é uma escola… Você pega Cartola, é uma escola. Você pega Milton Nascimento, é uma escola. Se eu fosse fazer Cartola, Milton, Melodia, são três anos pra cada um, onde vou parar? Não dá. Você vê o Milton cantando hoje, parece um cantor, mas se você pegar a obra dele, é aquela complicação. Então, numa boa, eu fui lá saber como é. Tocar “Milagre dos peixes”, esse negócio das cordas soltas…

Itamar – Então, tem uns negócios que você, que é brasileiro, inventa. Só no Brasil é possível uma música tão diversa… Aí dentro dessa – eu acho que é isso – você tem o intérprete, o compositor, o arranjador, o poeta, né? Porque há compositores que não são poetas, como Milton, que tem parceiros poetas como Fernando Brant, Ronaldo Bastos, e os compositores poetas como Caetano, Gil, Melodia, Chico Buarque, eu. Mas eu foi uma coisa que os poetas falaram, “Você é poeta!”. “Eu sou letrista”. “Não, você é poeta!” O Leminski e a Alice. Daí falavam, “Você é poeta não”. Agora me esclareceu, sou poeta não, mesmo. Não isso, não aquilo. Não assado, não cozido. E assim meus temas são os mais livres possíveis… Tem existencialismo, tem filosofia, tem… Eu não tenho compromisso se a bundinha vai mexer ou se não vai mexer, já tem gente demais pra isso. Tem pouca gente do outro lado. E aí a Ná, eu acho que é bem-vinda nesse sentido de uma compositora que depois de uma experiência muito rica como cantora, porque é afinadíssima – que a coisa é a braba –, partiu pra esse lado porque tem o dom. Não adianta você, só porque você canta, fazer música. Não vai dar certo. Dentro disso que eu estou dizendo, nunca você vai superar um Ataulfo. Vai ser medíocre. Então, dentro disso é melhor cantar somente… Porque que eu vou ficar tentando uma coisa que não vai dar certo? Não vou tentar ser Miles Davis, não vai dar certo. Vou ficar aqui fazendo meu sonzinho, tal. Então para umas coisas que você tem que tomar “semancol”. E aí, nesse caminho, vi a Ná entrar seriamente. Tem o Dante também, que pinta a triceria. Então, de repente eu escrevo, assim, entro como poeta. Mas com experiência de um compositor que cria melodias, harmonias e ritmos. Essa coisa de facilitar a vida. É fácil. Você vai tocar com o Hermeto. É fácil. Não precisa nem ensaiar.

Itamar – E eu tô mais ou menos assim… Ultimamente, não estou querendo ensaiar. As músicas estão querendo me matar, “Olha, eu vou ensaiar uma vez só, hein? Daí não vou ensaiar mais. Vocês ensaiam, né?” Porque chega uma hora, não sei mesmo… Fui para o Rio de Janeiro na semana passada. Não sabia o que eu ia encontrar lá. Não adianta eu me preparar para… Meu trabalho é um trabalho que é assim. De repente, a pessoa ouviu “As próprias custas” só. E foi o que aconteceu. Cheguei lá, uma moçada que estava entrando em contato agora, que ouviu “As próprias custas” e veio me pedir pra tocar aquele repertório, de 10, 20 anos atrás. Eu não vou tocar isso, não. Você chegou atrasado aqui. Eu tô aqui no Pretobrás. Começa lá. Não, tudo bem, vai devagar, porque se não vou ter que atender pedidos e não vai dar certo. Corre atrás aí que é você quem está atrasado. E foi legal porque é isso, havia uma moçada lá que não tem uma divulgação maciça, mas tem um espaço. Brasil sério, vai lá, uma matéria legal, tal, Macalé. Então, essa coisa da minha geração, a Ná como compositora. Porque são poucas compositoras que surgem, em detrimento a tantas cantoras. São poucas compositoras, assim, nesse sentido de criar uma obra e a Ná eu acho que está caminhando pra isso. É aquela interpréte que tem a sua obra, compõe. Então tem aquela coisa, que nem quando ela foi pro festival. Acho bobagem, ela se desenvolveu fora, é óbvio que ela vai cantar pra cacete, qualquer coisa que vier ela vai cantar. Mas eu acho que eu gostaria de ver ela se apresentando, contratada pra se apresentar como Caetano, como Gil, porque ela já tem esse trabalho pra ser apresentado, como eu, como arrigo em qualquer lugar, então bobagem eu ir como intérprete no festival ou qualquer coisa do tipo. Não vou deixar meu negócio aqui por nada. Nesse sentido eu acho que você gasta muita energia com uma coisa que você já tá com seu trabalho. Mas ela tá acima de qualquer coisa, como a virginia rosa, que começou com a banda isca de polícia, primeiro trabalho dela, que teve que prestar muita atenção e hoje eu vejo com muito orgulho isso. De pertencer a essa geração. De ser amigos desses talentos, quer dizer, mas é uma coisa verdadeira, sincera.

Itamar – Quando eu tava entubado lá na UTI, que ia a Zélia Duncan, a Rita Lee, a Ná, aquilo pra mim era o verdadeiro, o sincero, independentemente do bagulho, o lado humano. Isso também vou desenvolver, longe das panelas, das obrigações, dos castelos, do status de ídolo e tal, fazer gênero. São coisas que eu aboli da minha vida, são penduricalhos. Isso atrapalha. O artista é um artista, acabou, não existe isso. Agora o “quero ficar milionário” não é artista. Você pode ganhar muito dinheiro, tudo bem. O Ataulfo ganhou, tinha um Cadillac. A Clementina tinha 60 anos, parou e foi cantar. Essa onda, essa coisa africana. Eu me dedico a isso, por isso que fui ver com seriedade se não era jogador de futebol, se era estudar. Porque acho bobagem, se você vai dar um ótimo médico, você pegar e fazer umas musiquinhas… Estuda matemática, química, física. Por que você vai entrar nessa área de música popular brasileira?

Itamar – Porque não adianta falar pra mim que tem um pop. Então pop vale tudo. Pop o que é? É pagode. É tudo pop. Que porra é essa? Mas eu não tô falando disso, eu tô falando da história. Mas a história está encoberta por uma nuvem que não é passageira, que faz tempo que está aí. Porque se fosse passageira não teria começado fora, até hoje mudou a linguagem da estrutura, então acho que é aí que eu vejo que se tem artistas com um futuro, os verdadeiros artistas brasileiros, mesmo. Aqueles que vêm com o dom, batalham, estudam, vão fundo… Porque se eu não cantar Arrigo eu não sou um compopsitor brasileiro? “Sou descendente de escravo”. E daí, meu filho, tenho alguma coisa com isso? Tem uma coisa assim, mesmo racismo. Racismo como? Se brasileiro é somente uma raça, porque estão falando que preto é uma raça? Não estou entendendo. E o branco, é outra aqui no Brasil? E os índios ficam aonde? Os sírio-libaneses, os turcos… Eles chamam o Maluf de turco. Pô, o cara não é, o cara é libanês. Então é complicado chamar os caras de turco, uma cultura totalmente diferente. Quero dizer, esses caras não conhecem cultura. Aqui não tem árabe e palestino pra ficarem falando de racismo. O alemão e o francês não se dão. São brancos, que se entendem, mas vizinhos, outra cultura, outra língua. Os pretos ficaram 300 anos em escravidão, e você vem falar de racismo pra preto? Se você fala a mesma língua, se é um país que somente fala português, se não há outra cultura. O judeu que eu conheço, cultura de judeu, o cara que sabe ganhar dinheiro, né? [risos] Candomblé, como é que pode? É no Brasil, meu filho, não é uma mistura somente genética. É uma mistura mesmo no Brasil. Então, há muitos brancos que não têm referência da Europa, têm mais referência da África, muitos brancos se manifestando como pretos. Por que tem essa identidade, esse sentimento… O alemão analisa pela razão, a gente é emoção, é passional pra caramba. Então, essa coisa do Brasil, porque tem muito subterfúgio na coisa…

Itamar – Desde que eu me conheço por gente, que o Itamar Assumpção tá lá naquela, é maldito. Bom, esse maldito quer dizer o quê: livre. Roberto Carlos não é livre. É maldito quem é livre. Não fazer isso mesmo, não vai entrar a minha doença na roda. Fui operado 3 vezes em 20 dias, agora que eu tô falando sobre isso. Isso não interessa pra ninguém. Eu posso falar. Agora, quando você é obrigado a usar isso també, a doença como marketing. Uma infinidade de valores importantíssimos que caiu na roda e tudo bem, não se sabe mais o que é marketing, mas tudo é marketing. Não tem a sinceridade do bagulho, não tem como você ser sincero, tal, porque se você vender um milhão de discos já está bom. Eu não tenho essa obrigação. Se eu não quiser gravar amanhã, eu não gravo amanhã. Se eu quiser gravar ano que vem… Agora vou fazer um disco com o Naná, isso é outro papo, não tô preocupado. Então, dentro desse caminho que é paulista, paulistano por excelência, eu vejo que a Ná está chegando ao nível das Elis Reginas e etc.

[ Carro com auto-falantes passa vendendo pamonhas]

Itamar – Isso é direto, os caras detonam…
Rogério – É carro do quê?
Max Eluard – Acho que é pamonha.
Itamar – Tem pamonha, sorvete…
Rogério – É pamonha.
Itamar – Mas esse tem sorvete, também. Esse cara vende 10 sorvetes por 1 real.
Max Eluard – Esse barulho é uma ditadura, pô.
Itamar – É a minha posição. São Paulo te impõem tudo. O vizinho bota lixo ali no canto, no meu muro e não está nem aí. Eu tive que pixar meu muro uma vez. Um dia carpi a calçada e ficou lá a grama e minha mulher resolveu botar fogo, num domingo de manhã. E a vizinha vem e fala, “Vai dar ‘pobrema’”. Eu, “Não, tudo bem, qual é o problema?” E eu lá, solidário. Passou um tempinho e chegou um fiscal da prefeitura, “Olha, você botou fogo…” Eu fiquei puto! O cara veio me falar um monte. “Os vizinhos mandaram você aqui, né?” Mas por que a prefeitura não veio carpir? Eu tive que carpir, né? E a calçada não é minha. A prefeitura não passa aqui, só vem encher meu saco. E vem a outra, “Eu avisei que ia dar ‘pobrema’…”. Eu fui pra Penha, comprei um spray preto e pixei no muro amarelão, em preto, “Alô, alô vizinhança! O negócio é o seguinte, é cuidar da cabeça e das criança! E falei da fumaça… Não lembro direito… Uma coisa assim, “A vida passa tal qual fumaça…” Um recado direto pra quem foi chamar o fiscal. E teve que ler isso todo dia no meu muro. Não fui eu que arrumei o pepino. E ainda falei pra minha mulher, “Fica lá fora comigo que os homens vão passar lá e me prender porque estou pixando o muro”. [risos] Assim que eu terminei assinei, “Assinado, o Poeta da Penha de França”. Aí passou uma baratinha [n.e. Como eram conhecidas as viaturas de polícia nas décadas de 70 e 80] e parou. Daí fui lendo pro policial não tropeçar nas palavras. [risos] E disse, “Esse muro é meu”. Ainda bem que minha mulher estava lá, senão iam me levar por pixar meu muro. Então, eu convivo, eu entendo, eu tolero, eu não fico enchendo o saco do outro. Eu tenho mais coisa pra fazer. Mas, se pega no meu pé eu respondo. Eu não tenho a obrigação de ficar sendo simpático com essa falta de educação, essa falta de cultura, de convivência, com essa coisa de achar que neguinho é dono! Pra cima de moi, não. Quando mexem comigo na rua… Tem uns malucos que mexem comigo na rua! Mas eu faço um escândalo!
Max Eluard – Mexem como?
Rogério – A vizinhança?
Itamar – Não. Na rua, na Penha, eu ando muito pela rua. Fazem assim, “Nossa! Olha o cabelo dele, que muito loco!” [risos] Eu viro de repente e ponho a língua pra fora, deste tamanho. Na hora o sujeito fica de cara. “Você é louco?” “Sou mais louco que você. Pronto, acabou.” Não mexo com ninguém na rua, pô! Mas é tudo numa boa. O pessoal gosta de mim. Sou um chato de galochas, mas o pessoal gosta. [risos] Mas acho que gosta da minha sinceridade. Pra ser artista não precisa de historinha. Depois que os vizinhos passaram a me ver na televisão, a saber do meu trabalho, a coisa mudou da água pro vinho.

Itamar – Mas sobre a Ná, o que eu tinha pra dizer é essa abobrinhada toda. Aí eu vejo como ela gravou Rita Lee, volta àquela questão do Itamar gravando Ataulfo. Quero dizer, um compositor-cantor interpreta um compositor-cantor da MPB, ou um compositor sei lá, uma obra. Ela está preparadíssima pra isso, porque não venha com a abobrinha de botar uma cantora cantando Ataulfo pra mim que vai ser aquela mesmice, aqueles mesmos arranjos. Então, Ataulfo não está precisando de neguinho ficar em cima dele. Pra quê? Então, tem uma coisa assim: você coloca a importância da obra dentro do respeito com a outra obra e da capacidade de interpretar outra obra. Eu acho que é aí que entra alguém como a Ná, que vem sempre muito séria, que está capacitada mesmo. Aquilo que eu disse, se você não entende a história e se acha campeão, então pra que ela iria interpretar? Ela iria compor pra sempre e esquecer. Então tem esse lado nosso de intérprete de obras que não são possíveis de ser interpretadas modernamente. Não adianta eu pegar Lupicínio e ficar tocando Lupicínio pra vender uns dois disquinhos. Ou eu pego a obra do Lupicínio e mostro quem é o Lupicínio hoje, com uma linguagem de hoje, sem tocar na linguagem do Lupicínio… É isso que eu fiz com Ataulfo. Eu aprendi isso. Eu posso harmonizar Ataulfo, posso fazer jazz, posso fazer… Não interessa, mas a melodia, uma nota eu não troquei. Por quê? Porque se você tirar tudo aquilo que está junto no disco, fica a melodia dele lá. Não importa o que está junto. Não importa aquele monte de coisa que está junto, inclusive eu cantando. Se tirar tudo, vai ficar a melodia do Ataulfo. E isso tem que ser respeitado. Eu acho que essa coisa dela gravar samba-canção, um gênero… É um gênero como é o samba, como é o rock, como é o reggae, como é o funk, como é o baião, como é o xote. Essa coisa do samba-canção é um caminho pra pouca gente, não dá pra ficar se metendo nessa linguagem sem o conhecimento do bagulho. Então eu acho isso. É importante pra essa obra quando uma artista como a Ná Ozzetti resolvre gravar, porque a obra no Brasil é muito… Quem tá aí com Jackson do Pandeiro? Então, é imprescindível pra gente – nós, artistas – trabalhar também, conhecer Noel, gravar Noel, conhecer Macalé e gravar Macalé. Há uma exigência, uma escola braba, não tô falando de Itamar. Eu passaria minha vida inteira somente nessa, não precisa do Itamar compondo.

Itamar – Eu consegui ver isso, que eu posso contribuir livremente, me entregar livremente a uma interpretação de uma obra sem estar vinculado a nenhum pretexto. Então, nesse sentido, ninguém melhor que a Ná, que tem essa coisa desenvolvidíssima. E que é muito importante pra quem vai ouvir hoje. A Alzira gravando Maysa… Quero dizer, são compositoras que aprenderam sobre a história desses personagens. A Maysa também era maldita da época. Tem um lance legal da Maysa no Japão. O japonês apresentou, ”Essa sambista do Brasil”. “Não, não… Olha, eu quero esclarecer, eu não sou sambista.” Essa coisa de sempre estar preocupado com a sua linguagem e não com estereótipos. Aconteceu comigo na Alemanha. Cheguei lá prum show, com a banda. O palco já estava montado, “Itamar Assumpção, São Paulo – Brasil. 100 anos de abolição da escravatura no Brasil”. E o pessoal, “Samba, samba!” E logo comigo! E eu não ia interpretar Ataulfo, nem Paulinho da Viola, nem Martinho da Vila. Estava interpretando eu mesmo. Então, samba não ia rolar. Fudeu! Os caras começaram um burburinho. Desci do palco, cantei na orelha de um, de outro. Acabou, eu não entendi nada, todo mundo falando. Estava meio desanimado, porque meus shows são sempre no silêncio. Mas depois da quarta música pararam e foi assim até o fim. No camarim chegaram uns alemães, “Disco, disco”. Pedindo disco. Tinha um alemão comigo que não estava entendendo. Ele explicou, “Alemão não é assim, não vai te aceitando de cara. O que você fez, de descer do palco, alemão odeia! Mas comigo não teve essa. E eles me aceitaram.

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