gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Itamar Assumpção

Itamar Assumpção por Marcos Penteado em 1990/CEDOC FPA

Itamar Assumpção

parte 2/4

Quando você se depara comigo, você se depara com surpresa

Itamar Assumpção – Na música, na linha da evolução da música brasileira, que foi lá… que a última história sobre isso daí foi o tropicalismo, então, considerou-se que de lá pra cá nada mais aconteceu, isso já deixou de existir há muito tempo, porque a música do anos 80 que surgiu em São Paulo, o Beleléu e Clara Crocodilo são divisores de águas no sentido, na nova forma de compor. Dois compositores acrescentando algo. O Arrigo… ele traz o que não tinha, eu não conheço o atonalismo na música brasileira tradicional, essa coisa de europeus. Arrigo Barnabé, descendente de italianos, é isso que é Brasil. 500 anos, próximo. Então, eu sou descendente de escravos, sou próximo, tenho quase 50 anos, por pouco eu não tô no Pelourinho ou qualquer coisa do tipo. Então, assim, depois do Cartola, do Milton, eu tenho que dar um passo, e o passo que eu resolvi dar foi na independência artística, esse foi o passo que eu resolvi dar, e por isso então que eu gravei o Beleléu.

Itamar – Eu tocava baixo com o Arrigo na banda Sabor de Veneno, e fazia arranjos de base com o irmão dele. Então foi uma coisa que eu me preocupei em aprender, porque um descendente de escravos não vai saber o que é serialismo, mas também um europeu não vai saber dizer no pé. Tem uma confusão, o Arrigo não é um compositor popular, não tem como ser, porque os códigos são outros. O Arrigo é um compositor erudito, como o Gismonti é, mas, qual é o problema? O problema é querer enfiar lá onde ele não está, é querer que ele seja um Adoniran. Como? [canta] “Não posso ficar nem mais um minuto com você, sinto muito amor…”, pra sempre vai ser assim, sempre, pode soltar bomba nuclear, acabar o mundo, sempre vai ser cantado isso. O que eu sei é… [canta] “Eu daria tudo o que tivesse, pra voltar aos dias de criança…”, você começa a cantar isso, todo mundo começa a cantar… [canta] “Laranja madura na beira da estrada, tá bichada, zé…”, isso é compositor popular, isso é descendente de escravos. Brasileiro. Então, essa é minha escola, é por isso que eu não tô na Europa. Aqui é a minha terra, só se quiser me exilar e tal, e eu não vou. Eu tenho um público, e que a vida toda – eu meio que esqueço do resto do mundo – trabalho pra esse público. Onde ele está? Sei lá, eu vou pra Alemanha, ele tá lá, e pelo Brasil afora também.

Itamar – Então, acho que esse tempo de 18 anos em que gravei o Beleléu, que tem também o Clara Crocodilo, deu pra ver que a música brasileira ficou um pouco mais complicada do já era. A cultura musical é barra pesada pra você que chega como compositor. Não é gracinha, não dá pra segurar com gracinha. A História não está perguntando de gracinha. Olha, pra eu dizer a que vim tive que desenvolver minha linguagem de compositor junto com a de cantor, arranjador e músico. Habilidades, você tem que ter habilidades. O Cartola podia tocar um violão razoável, o Nelson Cavaquinho também, mas o Gil acabou com isso, o João Bosco… Técnica. E é uma coisa muito brasileira, o violão é uma coisa muito brasileira, os compositores populares tocam violão. É um instrumento que é popular no Brasil. E eu toco um violão de compositor em que se desenvolve um jeito de tocar. É aí que está a barra, porque você ouve o Tim Maia… olha aí o Tim Maia, o Jorge Ben, o Gil, o cacete a quatro, não tem como não identificar, e o Itamar Assumpção é o Itamar Assumpção, não tem alternativa. Se eu deixar vacilar, não sou nada, se alguém falar, mas quem será esse aí? Perguntou, já não acontece mais nada. É essa coisa que é complicada. Mas eu vejo claramente assim, que o meu trabalho e o do Arrigo, nos anos 80, tem essa radicalidade de uma proposta de banda e de revelação de músicos, e eu acho que a única alternativa que surgiu pós-tropicalismo foi essa música de São Paulo. Isso pra mim está claro. Se essa música não está no mercado é outra conversa.

Itamar – É que de repente ficou mais simples falar assim, o Itamar é maldito, só porque eu não quero fazer um disco daquela forma tradicional. Se for assim, tá certo, mas dizer que a minha obra é maldita está errado. Se a minha obra, que faz parte de uma tradição criativa, é maldita, jogou Caetano, Gil, Chico, Milton, aí também. Porque não vai jogar Itamar, Macalé, Mautner, o Luiz Melodia, e deixar todos os demais fora, porque esses artistas fazem parte de uma mesma constelação. Não existe Tom Jobim maior que Ataulfo, como? Ataulfo maior que Luiz Gonzaga? Isso não existe, parece que tem um maior. Maior que Chico, maior que eu, quem? Esse pessoal do pop não tem nenhum compromisso com o Adoniran, com o Ataulfo, com o Arrigo. Não tem compromisso com a história, não conhecem nada, vão falar bobagens, uma cultura sobre si mesmo, sei lá, só ficam falando em milhões de discos, números. Eu nunca quis vender um milhão de discos a qualquer preço, ou entrar no mercado a qualquer preço. A Clementina de Jesus ficou trabalhando de doméstica até os 60 anos, depois foi cantar. O Cartola ficou 25 anos lavando carros. Agora estou há 25 anos em São Paulo, mas não lavando carros nem como empregada doméstica. Resolvi fazer música, independentemente do mercado. Não interessa se o mercado está agora pro sertanejo, ou então pro pagode, ou pop. Quero dizer, a toda hora rola uma história.

Itamar – A cultura é muito difícil, principalmente a brasileira, acho que é uma complicação da cultura. Cadê raiz? Não tem raiz. Podem falar um monte de bobagens, por exemplo, você pode falar pra mim, seu negro, isso e aquilo, e eu olho pra você e falo, “Ah, você é um quibe, vai lá pra sua terra, pro Iraque”. Falam isso na França, isso é racismo, racismo. No Brasil é brincadeira. Agora lá é sério. Como vão falar pra mim que sou africano, mas eles vão dançar, porque eu não sou africano, mas eles vão ficar falando isso, você é africano, dão uma geral no passaporte, “pow, crash, bang, ah, brasileiro, porra, cacete”. Aqui, você vai ali, naquele prédio, tem o porteiro, o porteiro olha pra mim, estranhou? Mas quem é o porteiro? O porteiro ou é um nordestino ou é… um nordestino. Agora, esse nordestino de onde veio? Quantas misturas terá essa figura? Como ele pode ser racista? Como? Ele não tem a menor possibilidade, porque eu vi um francês, aquele brancão dos óio azul, louro, xingando um alemão, brancão dos óio azul, louro, e vice-versa. Mas o que está acontecendo? Não tem nenhum preto aqui no meio? É que o pessoal gosta de falar bobagens. Tem uma complicação cultural aqui muito grande, em que resolvi ficar na minha. Eu sobrevivo com o que a minha cultura me deu, ou seja, a música. Eu não sou advogado, não sou médico, nem pedreiro, não sou professor. Eu sou músico, herança dos negros. Oras, e você acha que eu vou brincar com isso. Se o Milton não brinca, eu vou brincar?

Itamar – Eu nasci em Tietê, 1950, fiquei lá até os 14 anos, daí fui pro Paraná, Arapongas, e fiquei até os 23 anos, quando me deram um pé na bunda, chega dessa vida boa do interior, vá procurar sua turma. Eu cresci bem, cresci muito bem assim, ia pra roça no Paraná, eu gostava de ficar uma temporada na fazenda, jogando bola. Havia aquelas famílias, uns crioulos que as fazendas contratavam, porque esses caras jogavam bola, tinham mais facilidade, e eu ia junto, ficava lá no período de férias, jogando truco, malha… E sempre acordei muito cedo, quatro horas da manhã eu já estava ligado. E essas ondas, sempre gostei disso.

Itamar Assumpção em Londrina em 1972. Foto: Reprodução

Itamar Assumpção em Londrina em 1972. Foto: Reprodução

Itamar – Eu fiz teatro lá em Londrina, Paraná. Era um grupo que tinha ótimos atores e montava Arena conta Zumbi, Arena conta Tiradentes, remontava essas coisas lá no Paraná. Eu estava no colégio. Com meu irmão eu fiz uma peça, assim… a gente gostava da coisa, ele escreveu e saiu bem. Meu irmão é ator, minha irmã também, meus dois irmãos são, eu… bom. Tem uma complicação aí, eu explico. Eu jogava futebol, jogava bem bola, gostava muito, não tava ligado no teatro mesmo. E vim parar aqui também, achando que ia jogar futebol. Uma hora eu fiz umas confusões, assim… troquei as bolas. Então tive que queimar umas etapas, me decepcionei com umas coisas pra poder chegar na música. A música foi a última coisa que me bateu. Ela não veio dizendo, “Olha eu aqui”, ela estava escondida não sei onde. Tive essa aventura com o futebol, fui pra Portuguesa de Desportos, fiquei no alojamento, chovia. Aí fui olhando, pensando, daí foi batendo uma coisa de tempo assim, o tempo, eu com 18 anos, pensando que, com 30 acaba. Aí aquilo me deu um baque. Era bem assim, a velocidade da coisa, do corpo responder rápido aquilo, e eu não via isso pra mim. As coisas muito devagar, sempre muito devagar. Então entrei nesse choque. Fui na tesouraria, “Olha, quero meu dinheiro!”. Peguei. Fui para a rodoviária e voltei pra Arapongas. Eu era centroavante, tinha começado como médio-volante, porque no time que eu jogava, meu irmão era ponta-esquerda, e era ambidestro, uma facilidade pra ele, porque o marcador nunca sabia o que ia acontecer. Isso era muito bom pra nós tabelarmos. Fazíamos muitos gols. Ele cruzava muito bem e eu fazia gol de cabeça… Era um timinho de Arapongas chamado Corinthians. O barbeiro era o dono… Eu era muito indisciplinado, gostava de driblar até perder a bola. Aí ele me xingava, eu xingava ele, ele me tirava, eu ficava puto pra cacete. Mas aí levava um castigo, porque você ficava a semana inteira esperando pra jogar e depois jogava 15 minutos. Se pisasse na bola, ele tirava. Era ruim pra cacete.

Itamar – No teatro, tem uma coisa assim: os atores falam, com relação a televisão e o mercado, que eles preferem o teatro como exercício da atuação. A televisão é um barato, mas não dá o aqui e agora do negócio. Pra mim, o que acontece, é que eu não tenho esse problema, não sou colocado fora do meu universo nunca. Sempre estou no meu universo. Pra mim é ao vivo, tudo acontece ali. É aí que está o teatro pra mim na música. É assim que eu levo o teatro. É como o jazz, como a linguagem musical do jazz, faz na hora, improvisa, leva até as últimas consequências o agora, amanhã vai ser outra coisa. Então, na minha música há esse teatro, onde não existe ensaio. Eu não ensaio. Ensaio até onde tenho que ensaiar pro show, mas a partir de um determinado momento, é o momento que vai dizer. Posso, de repente, estar no teatro Sérgio Cardoso, aí tô no Supremo Musical, no Ibirapuera. Então, é o lugar que vai me dizer. É aí que existe… Quando você está em contato com as pessoas, a química é essa. Então quando você se depara comigo, você se depara com surpresa. Eu tô sempre arrumando alguma coisa que alguém não sabe.

Itamar – Quando fui fazer o Ataulfo, tinha acabado de fazer o Bicho de 7 cabeças, em dois volumes com a banda Orquídeas, um grupo de mulheres e tal. E ali, como compositor, vi que eu estava já num estágio de avançar e ficar incompreensível. Eu tava correndo esse risco ali. Então, parar por parar é uma coisa também inconcebível. Não tenho esse dom de parar, “Ah, agora vou parar e ficar ouvindo passarinhos”. O Ataulfo veio em meu socorro. Eu pude voltar a uma atividade que eu não fazia há muito tempo, de pegar o violão e tirar umas músicas, esse exercício de ouvido que eu gosto, que tenho, essa formação. Eu também refleti muito sobre um show que fiz em Cachoeira de São Fêlix, interior da Bahia, em que fui com a Tetê Espíndola. Ela era super conhecida lá, e eu super desconhecido. Aí falei pra ela, “Vou abrir o show, vou cantar não-sei-o-quê”. Eu estava com o repertório do Bicho de 7 cabeças na cabeça. Aí vi aquele povo, naquele lugar, e resolvi cantar “Na cadência do samba” de cara. Comecei e todo mundo começou a cantar. Foi ali que comecei a refletir sobre o Ataulfo, sobre a função do compositor na cultura mesmo. É um problema meu trabalhar com esse universo de canções onde existe essa formula mágica, que já chegou a bomba atômica, e o mercado não tem como chegar a isso. Quem conhece o Ataulfo, o recriar seria isso, ouve o Ataulfo sem aquele susto de… Ei, mas mudou o negócio, e ao mesmo tempo não garante que não tenha mudado. Eu não deixo brechas nos meus arranjos para dizerem, “Porra, mas mudou o negócio!”. Você vai ouvir um monte de coisas, mas seu ouvido vai estar ali, vai estar ligado no que tem que estar. Isso que é recriar, é você criar e deixar essa linha, que foi o Ataulfo quem criou, onde não é Itamar. Agora, voltei com o Pretobrás, já com esse aprendizado de canções. Eu tô mais pop, bem pop, é um universo que eu pretendo brincar um pouco.

Itamar – O que eu quero dizer é que Pretobrás é a liberdade do compositor depois de 18 anos do primeiro disco, é a liberdade de escolha, uma liberdade de vida. Olhe bem, tem essa música que gravei pra esse disco, “Dor elegante”, letra do Paulo Leminski, é uma música que fala da dor da cirrose. Eu a recebi de uma cara que morreu de cirrose e esse cara é um poeta. Então, pra mim o que vale é o sentimento do poeta que fez da sua vida sua obra. Artista pra mim é isso, não é ficar ali com o BMW dando tchauzinho. Posso até ter um BMW e sair ralando por aí dando tchauzinho pras mina também, mas fazer isso profissão é meio complicado. E o Paulo, com esse humor que lhe é peculiar, simplesmente no meio dessa dor terrível, no meio de uma das crises fez esse poema e me deu… “O homem com uma dor é muito mais elegante, caminha assim de lado, como se chegasse atrasado e andasse mais adiante…” Então, acho que esse sentimento tem que ser interpretado por quem entende disso. Seria o ideal que isso fosse sucesso popular, que o povo cantasse seu verdadeiro poeta. Não é político, não é letrista. É um poeta.

Itamar – O humano e o profissional estão misturados, principalmente no Brasil. Eu tô aqui dormindo na casa de uma amiga, porque é mais perto do estúdio. Não tenho que vir da Penha todo dia e voltar. É uma forma humana pra fazer, que nem meu primeiro disco, o Beleléu, que foi feito assim. Mas é um jeito que eu acho que a gente encontra pra não pegar um avião e cair fora. O que vou fazer fora do Brasil, a não ser ganhar dinheiro? Quero dizer, a minha música está aqui. Posso ficar em Paris, é lindo, mas eu não aguento isso, ficar olhando as belezas do Primeiro Mundo com tanta coisa pra fazer aqui. É muita música. Tudo em português, é toda uma conversa com o Brasil sobre cultura, então seria um exílio pra mim ir embora para sobreviver. Claro, se o bicho pegar de verdade eu caio fora, mas eu vou me segurando assim com os amigos. E lá na Alemanha, no primeiro show, eles falaram muito. Fui umas duas vezes, mas no fim do show foram pedir discos. Aí, depois de um bom tempo, me disseram que eu tinha sido aceito no país mais difícil do mundo. Os caras queriam conversar, me perguntavam a origem das músicas. Pra mim aquela era uma conversa estranha, mas eles me falaram que era uma coisa do sentimento, que tinha um sentimento com o texto, uma fórmula aparentemente simples, ouvir o texto como uma coisa que flui, que não perturba. Aí vi que eu podia me entender como brasileiro, como essa matéria-prima do sentimento. É disso que se trata, é a sobrevivência do sentimento aqui também. É isso que a minha música trata, a sobrevivência não somente física, porque aqui é o lugar de cada um sobreviver como pode, mas essa sobrevivência artística, a resistência contra a diluição. E isso não é somente Itamar. Eu vejo também o Paulinho da Viola, o Jards Macalé, o Mautner, o Hermeto Pascoal. Essa é a minha praia. A modernidade pra mim é isso. É o Itamar Assumpção tocando com o Hermeto Pascoal, ou então tocar Arrigo Barnabé como eu toco Ataulfo. Eu tive que entender isso, faz parte do mesmo campo de atuação. Agora, mais importante que essa entrevista, pra mim, são os três volumes do Pretobrás. Falar não rola, é época de mostrar coisas.

>> entrevista realizada em maio de 1998 e publicada originalmente na seção “Água no feijão que chegou mais um”, da revista universitária A Nível D, com o título Itamar Assumpção, por que a gente não pensou nisso antes?

 

Tags
Itamar Assumpção
Vanguarda paulista
de 4