gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Irmãs Galvão

Irmãs Galvão. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Irmãs Galvão

parte 4/24

O que é o sucesso?

Max Eluard – Em algum momento vocês tiveram medo de se deslumbrar demais com aquele mundo todo?
Marilene – Não.
Mary – Não.
Max Eluard – Era o pai de vocês que ajudava nisso?
Marilene – Sim, sempre.
Mary – Olha, sempre fomos tão ingênuas! Nunca tivemos essa coisa de querer fazer sucesso. Nós viemos e cantamos. Acho que até hoje. [ri] Nós nos preocupamos em cantar, fazer um show legal, com roupas legais. Uma apresentação bonita. Nunca nos preocupamos com o sucesso. O que é o sucesso?
Tacioli – O pai de vocês é uma referência muito importante. E a mãe? Como foi? Teve algum momento em que ela brecou?
Mary – Não. Aliás, a mãe foi uma coisa assim tão maravilhosa.
Marilene – É ainda hoje.
Mary – No momento que estávamos aqui, em 52, não foi fácil. Não foi porque trouxemos aquelas cartas que as portas se abriram. Primeira barreira: éramos crianças. Segunda barreira: mulheres. Então, o papai teve que batalhar e não tinha tempo pra trabalhar como alfaiate. Tinha que cuidar de nós e nos levar para as apresentações, fazer testes, gravação. Batalhou muito. E houve um instante em que ele pensou em desistir. A família passando por grande dificuldade e ele chegou e falou: “Arruma as malas que nós estamos voltando!”
Almeida – Quando foi isso?
Mary – Foi em 52.
Almeida – Ah, logo que chegaram.
Mary – Foi um ano de luta, de batalha, mas ele precisava que a gente ganhasse alguma coisa e estava muito difícil. Entrava um cachêzinho ou outro quando a gente cantava em circo, mas a família… Éramos cinco irmãos, todos pequenos, e a mãe foi aquela guerreira. “De jeito nenhum”. Procurou um amigo de infância que era deputado em São Paulo. Aí conseguiu uma carta de apresentação pra que ele arrumasse um emprego. Então, se nós ficamos, devemos a ela.
Tacioli – Quem era esse deputado?
Mary  Cunha Bueno, o velho Cunha Bueno. [n.e. Antonio Sylvio Cunha Bueno]
Marilene – É de Palmital, família de lá.
João Paulo – Ele é parente da irmã da minha avó.
Marilene – Ah, é? Ele é nascido lá em Palmital.
Mary – Ele foi colega de escola do meu pai. Quando a gente morava em Palmital, Assis, ele sempre passava pra cumprimentar o papai. E em São Paulo, a mãe falava pra gente ir lá visitá-lo. Aquela dificuldade…
Marilene – E nos aniversários do Cunha Filho, íamos muito na casa deles.
Mary – Era um tempo de macarrão com sardinha, porque não tinha outra coisa. [risos] Às vezes, não tinha óleo, pimenta, e lá vinha o macarrão com sardinha. [risos] Mas foi o macarrão com sardinha que segurou a gente.
Max Eluard – E a escola? Como é que ficou com tudo isso?
Mary – Quando nós viemos eu já tinha tirado o diploma de grupo escolar, com 10 anos…
João Paulo – Até a 4ª série, né?
Mary – É. Aí a Marilene estava na 2ª série.
Marilene – Terminei aqui em São Paulo. E não fizemos mais nada.
Mary – Mais nada. Fizemos somente o grupo escolar, até a 4ª série.
Almeida – Vocês nunca sentiram falta dessa vida que uma criança de 10 anos tem?
Marilene – Eu não sei. Não deu tempo pra pensar porque a gente trabalhava muito. Fazíamos muitos shows na época… Quando as coisas começaram a melhorar passamos a trabalhar bastante. Então, não tivemos tempo de pensar.
Mary – Tínhamos que fazer shows, porque a família já dependia de nós. Começamos a ter projeção aqui em São Paulo. O papai descobriu esse filão de fazer shows em circos. Então, trabalhávamos quase que a semana toda. A nossa vida foi assim. A gente não tinha muito tempo pra pensar. E outra coisa, não existia nessa época o trauma. [risos] Não existia mesmo!
Almeida – Isso é recente! [risos] É coisa de agora.
Dafne – Veio junto com a mídia! [risos]
Mary – Estresse? Imagina! Você tá falando de escola e como é que a gente fazia. Lembro de quando íamos fazer circo, pegávamos bonde… O último bonde era o da meia-noite, e chegávamos em casa à 1 hora da manhã, 1 e meia… Quando dava 7 e meia da manhã, essa aqui entrava na escola. Então, tínhamos que acordar cedo… E não me lembro de ouvir, “Ah, estou estressada hoje”. Não, não tinha.

As irmãs artistas: Mary com 12 anos e Marilene com 10 anos. Foto: Acervo pessoal

Almeida – Perguntei porque vocês estavam indo ao circo pra trabalhar e não pra ver os palhaços.
Marilene – É.
Mary – Na nossa adolescência, por exemplo… Íamos aos bailes pra cantar e ficávamos lá no fundo, só olhando. A gente gostaria de estar lá, mas já éramos artistas.
Tacioli – Mas vocês sentem falta dessa infância que foi atropelada pela carreira?
Marilene – Olha, se nós paramos pra pensar, pra falar disso, foi por muito pouco tempo. Então, em alguns lugares que fomos marcaram mais do que uma amizade, um namorinho. Mas de parar pra pensar: “Poxa, perdemos nossa juventude”. Não paramos pra falar. Só falamos de carreira. Não sei, acho que não sentimos muita falta, né, Mary? Ou sentimos?
Mary  Ou sentimos, mas não tivemos tempo, a gente trabalhava muito.
Max Eluard – A carreira compensava.
Mary – Também.
Marilene – E outra coisa, nós tínhamos a família junto. Foi uma luta incrível e, pra nossa cabeça, era uma compensação para os sacrifícios que eles passaram por nossa causa. A emoção da família, aquela mesa. Temos uma música que fala disso, do Carlos Cola. Chama-se “A mesa”… [as duas cantam] “A mesa enorme / As crianças em volta / Meu pai, minha mãe, minha vó, meus irmãos”.
Mary – Poxa, quando ele mostrou essa música a gente chorou.
Marilene – É, pra gravar isso foi difícil, a gente começava a cantar e chorava, não conseguia terminar. Era exatamente o que vivíamos em casa, aquela mesa imensa. Quando acabava a refeição, o papai ficava fazendo mágicas. Então, a gente lembra disso com saudade. A cabeceira da mesa era dele e a falta que faz é incrível. Vinte e tantos anos que ele faleceu e até hoje, quando nos reunimos, a gente sente falta da presença dele. Então, fomos mais família do que qualquer outra coisa. Nós vivemos a nossa família, nosso irmãos.
Mary  Não tínhamos essa preocupação de bailinhos, essas coisas… Se bem que essa daqui! [risos]
Marilene – O que é que eu fiz? [risos] Eu não sei.
Mary – Os bailinhos de garagem, cê gostava, né?
Marilene – Ah, mas tinha essas coisas… Quando não tinha apresentação, aquela coisa de 14, 15 anos, alguém chamava para um bailinho… Mas não era nada demais.

Tags
Irmãs Galvão
de 24