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Entrevistas de música brasileira

Irmãs Galvão

Irmãs Galvão. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Irmãs Galvão

parte 3/24

Todo mundo tinha o pé na bosta, mas ninguém queria ser caipira

Max Eluard – Vocês falaram que não começaram cantando sertanejo, mas como a música sertaneja entrou na vida de vocês?
Marilene – Já foi aqui em São Paulo.
Mary – Não, não.
Marilene – Quero dizer, o papai ouvia…
Mary – Tinha seresta, mas já existia Raul Torres & Florêncio [n.e. Dupla formada em meados dos anos 40 por Raul Montes Torres e João Batista Filho. Entre os sucessos destaca-se “Moda da mula preta”], que tinham programa em São Paulo. Todo o interior ouvia! Já havia Tonico & Tinoco [n.e. Uma das mais importantes duplas da música caipira, formada pelos irmãos João e José Perez, atuou dos anos 1940 aos 1990]. A música sertaneja cresceu muito nessa época, porque mesmo no interior não se escutava música sertaneja. Eles tinham aquela coisa, ninguém queria ser caipira. Todo mundo tinha o pé na bosta [risos], mas ninguém queria ser caipira.
Almeida – E quem percebeu isso? Vocês notaram que poderia haver público ou foi uma coisa pessoal?
Marilene – Acho que foi o papai mesmo.
Almeida – Ele que percebeu que ali havia um nicho…
Mary – Foi ele quem percebeu, porque a música, a seresta, era solo, e a sertaneja era em dupla. Se bem que comecei cantando sozinha.
Marilene – Fui eu que atrapalhei a carreira dela. [risos]
Mary – Ainda bem que ela reconhece.
Marilene – A pochete dela sou eu… Pra não dizer mala. [risos]
Mary – Comecei sozinha cantando essas músicas de sucesso da época. Foi quando começamos a ouvir música sertaneja. Eu estava ensaiando a música que cantaria no domingo seguinte e ela entrou cantando em dueto. Não foi uma coisa assim, “Vamos fazer uma dupla?”. Foi espontâneo. Aí o pai chorou, a mãe chorou…
Almeida – Você lembra por que você entrou?
Mary – De xereta! [risos]
Marilene – Por que entrei? Acho que, sei lá, uma intuição mesmo, coisa de criança. Estávamos lavando louça, né, que a mãe falou…
Mary – É, sabe aquela coisa assim…
Marilene – … As duas brincando, sei lá.
Tacioli – Vocês estavam em casa!
Marilene – Em casa, e o papai na alfaiataria. Aí eles ouviram. Papai até estranhou, “Seria a Mary sozinha?” Foi aí que sentiram que estava nascendo uma dupla.
Tacioli – Mas o pai de vocês tinha essa ambição artística?
Marilene – Tinha. A família do papai toda era de teatro.
Mary – As irmãs… Teatro amador, né? Todos eles tinham uma veia artística muito forte.
Tacioli – Mas ele alguma vez tentou carreira no rádio ou no teatro?
Mary – Não.
Marilene – Teatro do interior. No fim, ninguém saiu de lá mesmo.
Mary – E ele, naturalmente, vindo de uma coisa artística de família, viu a chance. Nem perguntou se queríamos. [risos]
Tacioli – E você se lembra de qual era a música que você estava ensaiando?
Mary – Era essa, “La ultima noche”. Foi o tango. Aí, naquele domingo em que deveria cantar sozinha, já fui em dupla. Cantamos essa música no rádio…
Marilene – Havia outra… [cantarola] “Quando estou nos braços teus”…
Mary – Ah, “La vien em rose”!
Marilene  Mas em português, né?
Mary – O pai era… [as duas cantam] “Quando estou nos braços teus / Então aos olhos meus / A vida é cor-de-rosa / Tua voz a murmurar me leva a palmilhar / A estrada luminosa”… E a mamãe nos pôs em vestidos cor-de-rosa. [risos]
Marilene – Legal.
Mary – É, “La vie em rose”. Nós já éramos metidas naquela época. [risos]
Tacioli – E de quando é a gravação mais antiga de vocês?
Mary – De 1954, em um disco de 78 rotações. Viemos para São Paulo em 1952, ficamos cantando um ano na Rádio Piratininga, depois fomos pra Rádio…
Marilene – Sabe quem apresentava na Rádio Piratininga? O Salomão Esper, que faz o jornal da Rádio Bandeirantes hoje em dia. Ele era quem apresentava o programa, o primeiro que fizemos em São Paulo.
Mary – Aí passamos pra Rádio Nacional, no programa que fazia a ronda dos bairros. Já imaginou a glória? Nós cantando com aquelas estrelas do Rio de Janeiro… Cauby Peixoto…
Max Eluard – Quantos anos vocês tinham?
Mary – Eu tinha 12, e ela tinha 10.
Mary – Aí, nós chegamos. Foi aquela coisa, sabe? Aqueles que a gente ouvia no rádio, lá no interior, que achava que nem existia! Não havia televisão, cinema, não tinha nada. Olha, que atraso! [ri] Mas que coisa boa, era lindo! Aí, de repente, a gente se vê cantando com o Cauby Peixoto, Emilinha Borba [n.e. Cantora carioca nascida em 1923 e uma das rainhas do rádio nos anos 1950]… Brigamos tanto por causa da Emilinha. Eu era a Emilinha e ela, a Marlene. [risos] [n.e. Rixa criada na década de 1950 pelos fãs das duas cantoras por conta da disputa do trono de Rainha do Rádio] Quem mais? A Dalva de Oliveira, o Trio de Ouro [n.e. Grupo formado por Herivelto Martins, Raul Sampaio e Lourdinha Bittencourt, estes dois últimos substitutos de Francisco Sena e Dalva de Oliveira]. Nossa! A gente está lembrando umas coisas que vocês nunca ouviram falar…
Todos – Já sim.
Marilene – Eles são informados.
Mary – Foi maravilhoso. Cada um que chegava a gente ficava assim [boca aberta]… Havia a Adelaide Chiozzo e a Eliana que também faziam cinema. Eram as únicas coisas que a gente conhecia, por causa do cinema.

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