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Entrevistas de música brasileira

Irmãs Galvão

Irmãs Galvão. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Irmãs Galvão

parte 2/24

Iríamos ao Rio tentar um contato com Francisco Alves

Max Eluard – Quando vocês começaram, como as músicas eram aprendidas?
Marilene – Aprendíamos em casa mesmo, porque com 5, 7 anos, não se tinha outra escola.
Mary – Havia vitrola de corda, 78 rotações e o pai e a mãe cantavam…
Max Eluard – Vocês tinham rádio em casa?
Marilene – Tínhamos. Papai era ouvinte de rádio, era bem informado, principalmente das coisas do Rio de Janeiro. O que mais se ouvia era a Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Então, começamos a cantar ouvindo as coisas lá de fora. Morávamos numa cidade muito pequena. Papai e mamãe cantavam, não eram profissionais, mas cantavam. Papai era alfaiate e mamãe trabalhava com ele. Tudo acontecia ali. No fim da tarde, os músicos da cidade, que eram uma meia dúzia somente, iam para a nossa casa. Então, encerrava-se aquela tarde cantando e ficávamos ali ouvindo, naturalmente.
Mary – Era época do rádio, não havia televisão. Então o povo gostava, amava fazer serestas, cantar de porta em porta, de janela em janela. O cachorro corria atrás, mas havia sempre aquele cafezinho. E nós, pequenininhas, acompanhávamos.
Tacioli – E o que se cantava?
Marilene – Não era música sertaneja.
Mary – Ouvíamos muito os seresteiros. Francisco Alves, Orlando Silva, Silvio Caldas, Emilinha Borba.
Marilene – Que eram os grandes nomes da época, né?
Mary – A primeira vez que cantamos em rádio… O sucesso da época era um tango argentino…
Marilene – E nós cantamos o tango argentino. Não sabíamos nem o que estávamos falando. [risos]
Mary – Ela tinha 5 anos.
Marilene – O pai falava, “É isso!”, e a gente falava, né? [risos]
Mary – E eu tinha 7.
Tacioli – Qual era o tango?
Mary – Quer ver? [cantam] “La ultima noche que pasé contigo / Quisiera olvidarla pero no he podido / La ultima noche que pasé contigo / Hoy quiero olvidarla por mi bien” [risos] [n.e. “La ultima noche”, bolero composto pelo cubano Bobby Collazo e lançado, com muito sucesso, em 1946, por Pedro Vargas] Dá pra imaginar duas menininhas cantando “La ultima noche que pasé contigo”? [risos] É ridículo.
Marilene – Era a cabeça do pai, né?
Mary – Mas era o sucesso da época, então tínhamos que cantar. E é uma música belíssima, um tango belíssimo.
Almeida – Mas seus pais devem ter enfrentado barreiras para investir em vocês?
Mary e Marilene – Muitas.
Mary – A primeira grande barreira que papai enfrentou foi a família. A gente tem conhecimento de uma carta escrita por uma irmã do nosso pai, quando soube que ele nos levaria para São Paulo pra tentar a vida profissional. “Onde se viu fazer isso com duas crianças! Levando pra vida!” Isso não era certo, levar pra vida! Podíamos nos transformar em prostitutas. Era isso o que ela queria dizer.
João Paulo – Era muito comum essa associação entre os artistas e “a vida”.
Marilene – Ah, sim.
Mary – Qualquer artista, teatro, música, circo, qualquer coisa. Falou artista era mulher da vida.
Tacioli – O que o levou a acreditar tanto na carreira artística de vocês?
Marilene – Confiança.
Mary – A gente já devia cantar bonitinho. [risos] Quem ouvia a gente… Eu me lembro de nós, pequenas, cantando… Eu olhava e havia gente chorando. Que esquisito! Outro arrepiava. Então, as pessoas que ouviam as menininhas cantando, falavam, “Ah, Seu Galvão, precisa levá-las pra São Paulo”… Não, Rio de Janeiro na época. Tanto que papai planejou vir primeiro para São Paulo porque tínhamos parentes, e daqui iríamos para o Rio tentar um contato com Francisco Alves. Ele estava com um sucesso na época com crianças cantando, né? “Criança feliz” [n.e. Também conhecida como “Canção da criança”, composição de René Bittencourt e Francisco Alves]. E o papai, na cabecinha dele, achava que…
Max Eluard – Ele fez a associação, né?
Mary – … Se nos levasse até o Francisco Alves, tudo se resolveria.
Max Eluard – As portas se abririam.
Mary – Chegamos no Rio em julho de 52. Em agosto ele faleceu. Mas o papai não perdeu a esperança, não. Quando viemos do interior, como tinha certeza de que ia ficar em São Paulo, passou pra se despedir dos parentes. Assim, passamos pela Rádio Difusora de Assis, onde já havíamos cantado dois, três anos antes. Lá estava Miguel Leuzzi, dono da Rede Piratininga de Rádio. Naquela de se despedir, chamaram-nos pra fazer um especial de meia hora e ele nos ouviu. “Ah, quem é?” “As Irmãs Galvão, que estão indo pra São Paulo”. Aí ele fez uma carta de apresentação pra Rádio Piratininga de São Paulo. Nós viemos assim, já com uma carta de apresentação do chefão.

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