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Entrevistas de música brasileira

Irmãs Galvão

Irmãs Galvão. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Irmãs Galvão

parte 20/24

A música caipira ainda canta o homem do campo

João Paulo – Mas esse processo abrangeu toda a música brasileira e não somente a sertaneja. O brasileiro tinha vergonha da música brasileira em geral.
Mary – Acredito que sim. Todos passaram a dar mais valor ao artista brasileiro. Mas a música sertaneja não pode ser comparada com o que está se fazendo agora, porque a música de raiz, nós, com viola e sanfona, fazemos um show… Eles já não fazem.
João Paulo – Precisam de alguns caminhões.
Mary – É um segmento totalmente à parte.
Max Eluard  É outra coisa. Não tem mesmo como comparar.
Mary – A música sertaneja tem um estilo, um modo de ser que não mudou.
Tacioli – Mesmo com esse êxodo rural todo? As cidades crescendo…
Mary – Mesmo com o êxodo rural. A gente tem sentido isso nas apresentações que fazemos para o público mais jovem. O pai trabalhou na roça, o avô trabalhou na roça… Ele vem para ouvir a moda de viola, quer a viola, emociona-se com isso. Fazemos shows com banda e com músicas que estamos tocando agora, mas quando chega aquela hora da moda de viola, é uma coisa de chorar.
Bara – É um momento mágico.
Mary – O Mário pega a viola e fazemos aqueles pagodes caipiras. Nossa! É uma coisa linda. Fizemos um show em São José do Rio Preto e, quando chegou essa hora, um que se emocionou lá no meio, gritou: “Gente, isso é para ouvir de joelhos”. [risos] E eles se ajoelharam! Tivemos que cantar olhando pro alto porque não ia dar para cantar até o final. É uma coisa linda.
Tacioli – Em que momento da carreira de vocês entrou a bateria, o contrabaixo e a guitarra?
Mary – Foi com o Mário Campanha.
Tacioli – E como era antes?
Mary – Mas aí ele entrou com instrumentos eletrônicos também, porque o Léo Canhoto & Robertinho já estavam fazendo isso, já estavam tocando com banda. Depois Milionário & José Rico também adotaram.
Marilene – E o Sérgio Reis com “Menino da porteira”.
Mary – É, ele também. Nós estamos sempre acompanhando, não ficamos para trás não. [risos]
Tacioli – Naquela época era limitante não estar com banda?
Marilene – Nós fazíamos os nossos shows no início somente com sanfona e violão, só nós duas.
Mary – Mas aí o público já… Nós sentimos que tínhamos que aderir a isso.
Almeida – Então, não partiu de uma necessidade de vocês?
Mary – Não.
Tacioli – Qual é o limite? Até onde vocês acompanham essas mudanças? Se essas duplas tivessem outros instrumentos, vocês também poderiam incorporar isso?
Mary  Se houver necessidade, nós fazemos.
Marilene – É.
Mary – Mas agora chegamos a um patamar em que não temos mais essa necessidade.
Tacioli – Existe uma célula que define o que é música sertaneja e o que não é?
Marilene – E o que é caipira? [ri]
Mary – A música caipira ainda canta o homem do campo. Fala muito da vida rural. O sentimento do homem do campo. E a música sertaneja ficou mais urbana, né?
Almeida – É ainda desse cara, mas dele chegando à cidade.
Mary – É, ele chegou aqui. Já recebeu um par de chifre, aí pegou uma viola…
Almeida – Dormiu num banco da praça. [risos]
Mary – É, foi dormir no banco da praça. E não vou dizer que o caipira não passa por isso, ele passa, mas ele tem uma outra forma de se expressar. Não é tão direto.
Tacioli – Existe, então, uma variedade temática maior na música caipira do que na sertaneja?
Mary – Tem, tem, muito mais.
Marilene – Nós recebemos, pra escolha do repertório desse nosso próximo trabalho, umas mil fitas. Mas recebemos uma meio estranha. Vinha escrito que ele gostaria de ouvir essa música de acordo… mandou a fita e a letra da música impressa e queria que cantássemos a música do jeito que tava escrita. Então, nós gravamos como ele fez. Ele é de Assis, mas não fala Assis, fala-se Axir. Então é assim, quer ver… [as duas cantam] “Fui passear no Axir / Foi no mês de abrir / Vi coisa bonita como eu nunca vir / Mocinha dengosa que nem colebrir / Descia pra baixo / Tornava a subir / Peguei na violinha / Ri qui tir tir tir” [risos]… “Conheço a moça / É a Bartolina / É a moça mais feia do Estado de Mina / Ela é arta / Ela é baixa / Ela é grossa / Ela é fina / Trouxe o nome de Bartolina / Não me faça soletrar / Barrabártêotorliglineaná / Conheço um moço / Ele é bonitinho / Ele é muito engraçadinho / Ele é arto e é bem fininho / O nome dele vou soletrar / Gêcêgosteitinarraganhemeceó / O nome dele é Gostinhó” [risos]. E gravamos assim. [risos]
Mary – O Mário pegou a viola e fez aquela viola bem repicadinha…
Marilene – Só a viola mesmo.
Mary – Bem caipira mesmo. Vai sair agora no próximo disco.
Marilene – Gravamos exatamente do jeito que ele quer, porque se gravássemos de outra forma… “Fui passear em Assis / Foi no mês de abril / Vi coisa bonita como eu nunca vi”… Que jeito? Não tem nem rima, né? [risos]
Mary  [canta] “Fui passear no Axir / Foi no mês de abrir / Vi coisa bonita como eu nunca vir / Mocinha dengosa que nem colebrir / Descia pra baixo / Tornava a subir / Peguei na violinha / Ri qui tir tir tir”… ele não sabia o que colocar depois da violinha e foi o ‘ri qui tir tir tir’ mesmo. [risos]

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