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Entrevistas de música brasileira

Irmãs Galvão

Irmãs Galvão. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Irmãs Galvão

parte 1/24

É preciso morrer pra vender discos no Brasil!

Ricardo Tacioli – Quando o disco Nóis e a viola foi gravado?
Mary – Esse disco foi lançado no fim de 2002. Agora estamos preparando um novo repertório, se bem que já temos umas 8 músicas gravadas. Quando a gente faz um disco, aproveita e grava mais músicas do que entram.
Tacioli – E vocês já estão fazendo o show desse disco?
Mary – A gente começa a fazê-lo agora.
Tacioli – Mesmo com um disco engatando no outro?
Mary – É sempre assim. Caipira não pára nunca. Todo mundo acha que a nova música sertaneja abafou o caipira.
Marilene – Quem quer café?
Mary  Abafou nada. O público de música raiz é sempre o mesmo. Está sempre presente. Nunca atrapalhou nada. Agora, dizer que o pessoal de música raiz não está na mídia… Nunca estivemos. Nunca! Vocês já ouviram falar em Tião Carreiro & Pardinho fazendo programa na Globo? Nunca fizeram.
Max Eluard – E os programas que existem, ou existiram, eram sempre muito segmentados, como o Viola Minha Viola, o do Rolando Boldrin…
Mary – É, o do Boldrin, o Som Brasil. Eles também foram acabando. Só o Viola Minha Viola permanece.
Max Eluard – Você estava falando que a música sertaneja tem um público cativo.
Mary – Tem.
Max Eluard – Mas esse público está se renovando?
Mary – Está. Pra nós, esse boom da música sertaneja, da moderna música sertaneja, foi ótimo. Primeiro, porque abriu portas. A música sertaneja era tida assim… carac… carica… [engasga]
Marilene – Caracterizou?
João Paulo Pereira – Caricatural?
Mary – Obrigada. [risos] A música sertaneja sempre foi uma gozação na música brasileira. Então, não havia abertura. O que nós tínhamos pra trabalhar? Circo. Quando a televisão chegou, os circos acabaram. Aí ficamos restritos as feiras e festas de aniversário de cidades, e a algumas casas que ainda mantêm shows de música sertaneja. Mas, de repente, o jovem, o universitário, quis saber a origem da música sertaneja. Então, foi preciso haver toda essa revolução. Acham que é revolução, mas essa semana mesmo estava ouvindo um disco nosso gravado há 40 anos. Pensei, “Olha que gozado! Eles acham que estão fazendo coisa nova! Música romântica!” Cascatinha & Inhana já faziam, nós fazíamos. Mas não havia abertura na mídia, nas televisões. Nas rádios só havia os horários das 6 da manhã ou depois das 10 da noite. Então, essa nova música abriu tudo isso, promoveu uma grande abertura.
Max Eluard – E como vocês são referências para esses novos sertanejos, acaba surgindo trabalho para vocês.
Mary – Com certeza, somos referência.
Tacioli – Mas por onde, por quais meios esse público jovem descobriu a origem da música sertaneja?
Bara – Curiosidade, mesmo.
Mary – É, curiosidade em saber a origem de tudo isso. De repente, está ouvindo essas músicas de agora e o avô dele fala: “Eu ouvia Cascatinha & Inhana, as Irmãs Galvão, o Tonico & Tinoco”. E o que o jovem canta no fim de uma festa? “Cabocla Tereza”, “Moreninha linda”…
Marilene – “Menino da porteira”.
Mary – Pode prestar atenção. Na festa pode estar rolando pagode, rock, mas no fim da festa quem se junta canta-se música de raiz. Então eles tiveram curiosidade em saber de onde vinha isso. E quando eles procuraram, depararam com quem? Nós, Zico & Zeca, Liu & Léo, Pedro Bento & Zé da Estrada.
Marilene – Zilo & Zalo. [n.e. Dupla formada pelos irmãos Aníbal e Belizário Pereira de Souza, de Santa Cruz do Rio Pardo]
Tacioli – Então o momento não é tão ruim assim para música sertaneja e caipira?
Mary – Não, não.
Tacioli – Há uma contraposição entre essa ascensão dos novos sertanejos com o pessoal da velha guarda, apesar do Chitãozinho & Xororó já estarem há 30 anos. E você está falando justamente o contrário, de que o surgimento deles não teria enterrado ou afastado o pessoal de música de raiz.
Mary – É, abriu portas, com certeza. Deu mais chances… [dirige-se ao fotógrafo] Quer que a gente se junte mais?
Dafne Sampaio – Mais um pouquinho, sim.
Mary – Abriu portas. A música sertaneja não morreu, tanto que continuamos fazendo shows. O Pedro Bento & Zé da Estrada também… o Tião Carreiro! O maior vendedor de discos, até mesmo depois de morto… Se bem que no Brasil precisa morrer pra vender discos. [risos] Pra nós, continuou a mesma coisa. A música sertaneja nunca teve mesmo um boom na mídia… Na nossa época não existia nem a palavra mídia. Foi inventada há pouco tempo. Aliás, precisa saber quem foi que inventou essa história da mídia. [risos] Quem fazia sucesso fazia porque era bom mesmo. Era o povo que elegia. A gravadora não fazia sucesso de ninguém. Tanto que, pra gravar, precisava cantar a música no rádio durante um ano, e essa música era escolhida por cartas… [toca um celular] É o seu, Bara!
Daniel Almeida – É a mídia! [risos]
Mary – É a mídia. Nós agora estamos sendo solicitadas pra cantar em faculdades, porque estão fazendo um trabalho sobre nós. Em São José do Rio Preto… Juntaram três faculdades… Já fizeram um trabalho maravilhoso sobre o Vieira & Vierinha [n.e. Dupla de catireiros de Itajobi, SP, formada por Rubens e Rubião Vieira], que é uma dupla mais raiz ainda… E agora nós é que vamos fazer shows lá, para três faculdades. Então, a curiosidade dos jovens está descobrindo as jovens senhoras. [risos]

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