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Entrevistas de música brasileira

Irmãs Galvão

Irmãs Galvão. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Irmãs Galvão

parte 11/24

Vamos casar, mas você não canta mais

Max Eluard – Quem escolhia o repertório nessa época em que vocês gravaram os primeiros 78 rotações?
Mary – O povo.
Max Eluard – Como assim?
Mary – A gente cantava um ano no rádio pra sentir, por meio das cartas, as mais pedidas. Aí levava pro Diogo Muleiro. Ele ia lá em casa, a gente separava as cartas… “Essa aqui é ‘Carinha de anjo’, essa aqui é tal, tal, tal…” Então, era de acordo com as cartas…
Max Eluard – Sempre era esse critério?
Mary – Sempre. E para todos os artistas da época.
João Paulo – O rádio era sempre ao vivo, né?
Marilene – Era.
Mary – Sempre ao vivo.
Tacioli – E o que representava o disco pro artista nessa época? Que retorno dava?
Mary – Era muito bom porque no interior tocava e era lotação certa no circo. Era sinônimo de bilheteria. Então, quando o disco fazia sucesso, era bem executado, o povo ia no circo.
Tacioli – Existia essa coisa de 20, 50 mil cópias, Disco de Ouro?
Mary – Não, não. E a gente não sabia bem como funcionava. A gente cantava porque cantava…
Marilene – Mas teve vendagens… Por exemplo, o Cascatinha & Inhana com “Índia”…
Mary – Mas aí já é LP.
Marilene – É? Já?
Max Eluard – Nessa época em que vocês cantavam em circos não dava pra viver o dia-a-dia do circo. Vocês iam lá e cantavam, né? Mas como era pra vocês cantar lá? Porque toda criança tem uma fascinação muito grande pelo circo.
Marilene – Histórias mil. [ri]
João Paulo – Opa!
Max Eluard – Gosto dessa risada. [risos]
Marilene – Havia um circo que era de um alemão chamado Garrido. Quando a gente chegava no circo, a mulher dele – uma alemã grandona, que usava umas saias longas – falava, “Vou fazer almoço pra vocês!”… Aí matava um frango. Conforme ela ia matar o frango, o bicho batia as asas na saia dela e fazia um som assim “Pló, pló, pló, pló”, aquele barulho na saia. A gente achava gozado, olhava uma pra outra. Éramos meninas, né? “Vou fazer almoço”… Olha lá, o pló, pló, pló, já vai matar o frango outra vez… e o nome do cara era Garrido. Então, houve uma comemoração… “As Irmãs Galvão estão aqui e, de frente para o povo, vão cantar o Hino Nacional”… E nós duas ali e o prefeito, vice-prefeito, delegado, todo mundo no palco… Quando começou o Hino Nacional e chegou naquela parte “do que a terra mais garrida”, ela [e aponta para Mary] chegou pra mim e disse “pló, pló, pló”. [risos] Gente…
Mary – E sem contar as coisas assim… Tínhamos muita amizade com o pessoal do circo. Fomos comadres várias vezes… Outros investiram querendo casar… [ri]
Max Eluard – Vocês nunca tiveram vontade de ir embora com o circo?
Mary – Não, porque a gente cantava toda semana e a nossa vida foi em circo. Mesmo que a gente não morasse ficava quinta, sexta, sábado e domingo. Então, tínhamos essa convivência com o circo e nunca tivemos essa vontade de ir embora, não.
Almeida – Vocês nunca tiveram uma fase rebelde?
Mary – Trauma? [risos] Inventaram essa palavra junto com a mídia. [risos] Talvez o nosso tempo de rebelde foi quando casamos… Talvez tenha sido isso, porque a família lutou muito para que a gente não casasse…
João Paulo – Pra não casar?
Mary – É, porque toda dupla feminina quando começa a pegar uma ascensão vem um par de botas e desmancha a dupla. Isso acontece. Basta ver quantas duplas femininas existem… e na história toda. Existiram pouquíssimas duplas. E não precisa nem fazer sucesso. É bonitinha? Já vem um lá… “Vamos casar, mas você não canta mais”… O medo grande da família era esse, que a gente se casasse e tivesse esse problema. Mas não combinamos nada, mas ficamos firmes… Se viesse um “Você não vai cantar mais!”, já mandava logo “Olha, acho bom você ficar quieto porque assim não vai dar certo!” [risos]
Tacioli – Mas existiu então essa pressão?
Mary – É, sempre tem. Mas somos muito danadas e acabávamos colocando a criançada junto… “Vamos cantar com a mamãe!”… e o marido quando resolveu pressionar, demos um jeito…
Marilene – Aí, graças a Deus, morreu, né? [risos]
Mary  Aí eu casei com o Mário Campanha. Quando ele apareceu na nossa vida era 1981, estávamos fazendo um trabalho que parecia ser o último.

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