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Entrevistas de música brasileira

Irmãs Galvão

Irmãs Galvão. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Irmãs Galvão

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Da varanda rimos do mundo

Se o campo estivesse ali, teria um rio correndo tranquilamente. Árvores, uma cerca ao longe. Mas ali não era sítio verde e sim uma vila na cidade. Vila Dionízia, zona norte de São Paulo, onde casas cor de tijolo e cimento tomaram conta de todos os morros e o verde virou gente. No meio de todo aquele campo submerso, em uma casa grande com varanda ampla, bichos e um estúdio, foi onde entrevistamos as Irmãs Galvão. Hoje em dia, As Galvão.

De papo em papo, Marilene e Mary foram se mostrando tão artistas quanto vivas, tão bem resolvidas quanto afinadas, tão alegres quanto irmãs. Uma completa a Dafne Sampaio/Gafieiras frase da outra e a outra tira sarro da uma. Algum trauma por perder a infância e a juventude no mundo artístico? A mídia não dá valor à música caipira? Nada disso, tanto o trauma quanto a mídia foram inventados de pouco tempo para cá. Talvez um tenha inventado a outra, ou vice-versa. O certo é que o Chico Mineiro continua morrendo em muitos lugares e As Galvão seguem cantando as tristezas e alegrias dos grandes campos brasileiros. É neste mundão grande sem porteiras que sua música sobrevive.

Mas o tempo vai comendo os minutos, depois as horas, junto com o café, a água e o suco. O dia acaba. Histórias de rádio, campo, circo, fãs enciumados, cidade, sucessos no exterior, os avós de Sandy e muitas outras prosas. A noite começa natural como elas, que fazem uma música onde o violão e a sanfona podem ser a ingenuidade e a esperteza dos interiores do Brasil, mas ninguém pode dizer quem é o quê.

Chalana vai, catira vem e a entrevista acabou, mas não a conversa. Descemos as escadas e passamos por prêmios e fotografias. E então o convite: vamos até ali comer um churrasquinho de gato e tomar uma cerveja? Impossível recusar, mas a cerveja ia ter que ficar para próxima. Alguns de nós, os mais valentes, tinham compromisso futebolístico e, afinal de contas, é sempre com a marvada pinga que nóis se atrapaia. E foi ali no fim da Rua Fernando Pessoa, nublada pela fumaça que saía do churrasquinho de esquina, que nos despedimos de Mary e Marilene. Os que foram jogar tomaram uma sova. Os que não foram sentiram. Mas todos foram dormir nesta noite lembrando de uma conversa cheia de carinhos e risadas. E o sono foi bom.

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