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Entrevistas de música brasileira

Inezita Barroso

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Inezita Barroso

parte 8/22

Se ele não me apoiasse, eu trocava de marido

Tacioli  Inezita, como foi a primeira vez em que você subiu no palco pra cantar?
Inezita  Já moça assim… Demorou bastante tempo. Só fui retomar a carreira e ser profissional depois que me casei, em Pernambuco.
Tacioli  Quando?
Inezita  Em 1953. Fui pra lá pra fazer pesquisa. Não levei violão, nem nada, não sabia como era o ambiente. Quando cheguei lá vi que era totalmente diferente de São Paulo. Era lindo cantar e tocar. Era abençoado uma mulher tocar e cantar, fazer teatro. Coisa que aqui já… [risos]
Fernando  Por causa dos europeus, provavelmente.
Inezita – Sim, claro. Mas lá era maravilhoso. O meu marido era cearense. No Ceará eu era tratada como rainha mesmo. Todo mundo dando presente, querendo mostrar música pra mim… Um tocava piano, outro tocava violão, outro compunha. Eu me senti no céu. De lá nós fomos pra Pernambuco.
Fernando  Mas você já era profissional?
Inezita – Não, não. Eu não fui pra cantar, mas quando eu cheguei em Pernambuco…
Fernando  Mas as pessoas ofereciam músicas?
Inezita – Ofereciam. Havia um compositor famoso, o Paurillo Barroso [n.e. Com músicas cantadas por Bidu Saião, o compositor e agitador cultural cearense (1894-1968) foi um dos fundadores da Sociedade de Cultura Artística do Ceará e dirigiu, de 1944 até sua morte, o Theato José de Alencar, em Fortaleza], que era tio do meu marido. Ele tinha umas coisas bonitas, composições sem canto e outras com canto, canções lindas do Ceará. Ainda cantam as coisas dele, porque são lindas. Aí fomos pra Pernambuco. Em Pernambuco conheci toda a turma do Teatro de Amadores. E tem o Teatro Santa Isabel, que é a coisa mais deslumbrante do mundo. Um teatro todo cor-de-rosa, lindo, lindo! E essa turma ensaiava e se apresentava lá. Era quase uma família inteira. Eram os avós, os pais, os filhos, os netos. E quando havia criança na peça, era da família também, bisneto. Eu fiquei louca, maravilhada. Isso não tinha aqui. “Você vai dar um recital!” Me apresentaram pro Capiba, que era o mestre do frevo e compositor. Eles eram muito unidos, o teatro com a música, com tudo. E eu freqüentava aquelas reuniões todas noites. Aí o Capiba disse: “Eu trabalho na Rádio Clube. Você vai cantar um pouquinho pra nós!” [risos] [interrompe a conversa para apresentar o Rivaldo, que acaba de chegar] Esse aí é o diretor do Viola, minha viola, embora não pareça! [risos] É o famoso Rivaldo Corulli. [risos] Voltando… Nesse tempo o governador era o Agamenon Magalhães, 1952, 53, acho. E a senhora dele tinha obras sociais, como sempre. Ela disse: “Eu quero conhecer essa moça”. Aí teve uma festa grã-finérrima – pernambucano quando dá festa é um exagero, né? E eles estavam lá. Ela falou: “Você não poderia dar um recital pra nós no Teatro Santa

Foto de 1957 registra o jipe customizado de Inezita Barroso com o qual viajou pelo Nordeste. Foto: Acervo Sinésio Sisinio Filho

Isabel em benefício das minhas obras?” Eu comecei a tremer. “Convite impresso! Nossa, que honra!” Aí, saí dali e fui emprestar um violão, mandar fazer um vestido até o pé na costureira, que eu não tinha nem levado roupa, não ia cantar. E eu fiz um recital. Estourou a lotação! Ficou gente pra fora. Eu dei três recitais seguidos. Aí o Capiba falou: “Não, você vai cantar na Rádio Clube, nem que seja uma semana”. Resumindo: fiquei lá dois meses. Percorri o interior inteiro de Pernambuco, porque havia filiais da Rádio Tupi, que era a rainha do Nordeste.
Fernando  E era tudo ao vivo, não?
Inezita  Tudo ao vivo. Era muito interessante, coisas muito diferentes. Por exemplo, técnico de rádio, aquele pessoal que mexe com os microfones, que fica lá nos botões, na mesa de som, tudo mulher! Não havia um homem! “O que essas moças estão fazendo aí numa mesa de som desse tamanho?” Eles eram bem equipados; a Tupi tinha dinheiro. [Rivaldo traz a bebida da Inezita] Não pode sair no filme! Vão falar mal de nós. [risos]
Tacioli  Eu já escondi. [a bebida]
Rivaldo  Ninguém grava agora. [risos]
Inezita  É que estou falando muito e água piora. [risos] Mas daí fui estrear na rádio. Fiquei louca com o teatro, foi um sucesso, todo mundo me conhecia na rua. Foi a primeira vez que eu fiquei famosa. Presente e mais presente, o nordestino é muito carinhoso. E fui visitar as principais cidades do interior. Passei dois meses viajando pelo interior de Pernambuco. Caruaru, fiquei louca, louca.
Fernando  E o seu marido?
Inezita  Ele foi comigo.
Fernando  Junto?
Inezita  Foi, ele me incentivava muito, senão não teria começado a carreira. Se dependesse da minha família, nunca teria começado, né?
Tacioli  O que ele fazia, Inezita?
Inezita  Advogado.
Almeida  Você teria aberto mão da sua carreira artística se o seu marido não tivesse apoiado?
Inezita  Jamais. Trocava de marido. [risos] Verdade! Mas eu levei um empurrão pra cima no Nordeste. Eu ia muito assistir os repentistas, os violeiros nordestinos, completamente diferentes dos nossos. Inclusive a viola e a afinação são diferentes. Coisas lindas pra você prestar a atenção. E aquela verve de nordestino… O cara dava uma palavra, um mote, como eles chamam, e ele desenvolvia aquilo rimando.

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