gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Inezita Barroso

InezitaBarroso_940

Inezita Barroso

parte 7/22

Tradição liga o passado, o presente e o futuro

Tacioli  É correto a gente falar em “folclore”?
Inezita  Eu falo errado. [ri] O pessoal caçoa de mim, porque todo mundo diz fol-clo-re.
Tacioli – Não digo pela dicção, mas a palavra folclore o que define?
Inezita  Define as mais profundas tradições de um povo em todos os seus aspectos e está ligada a muitas ciências. Por isso que inventaram essa palavra. Foi um inglês que era arqueólogo, ficou aborrecido porque chamavam essa parte de Antigüidades Populares. Como grande cientista que era, disse: “Que é isso? Não estão dando valor pra uma coisa tão importante! Que antigüidade? Antigüidade da idéia de uma coleção de xicrinhas, de quadrinhos”. Ele propôs o uso da palavra Folklore, que é uma palavra anglo-saxônica. No inglês moderno você não a encontra mais, nem no alemão. Ela define costumes, manias e tradições de um povo.
Tacioli  Então, folclore, por tratar dos costumes, que mudam com o tempo…
Inezita  Mudam.
Tacioli – Mas quando se fala de folclore, não se passa uma idéia engessada, de coisa estática?
Inezita – Não, não! Tem quem pense isso e fala: “Uma coisa antiga!” Mas que antigo?! É uma coisa tradicional! É muito diferente de antigo. E tradição nada mais é do que um elo que liga o passado, o presente e o futuro. Depois vai caminhando, não pára. O que é presente hoje, amanhã será passado. O que é o futuro hoje, amanhã será o presente. É uma linha que não pára! A gente até admite instrumentos mais aperfeiçoados, mas não alterar! Você não vai sair na rua com um teclado pendurado cantando folia de reis que matam você! [ri] É uma coisa assim… As violas eram todas feitas a canivete. Aquelas madeiras vagabundas, aquela boquinha de coração, era um coraçãozinho… São as primeiras. As cravelhas de afinar de madeira… Aquilo voltava conforme o clima.
Fernando  E eram os próprios tocadores que…
Inezita  Eram eles quem faziam. Era a glória fazer o próprio instrumento, as violas e as rabecas, que eram os violinos domésticos. Então aquilo não tinha firmeza. Depois que veio o rádio, a gravação tinha que ser perfeita… Perfeita não vai chegar nunca. Mas as gravações foram evoluindo. Então você permite que o caipira compre uma viola maravilhosa, com madeira linda, do jeito que ele quiser. Até, de vez em quando, permite que ele ponha um plugue, né? Porque a viola é um instrumento muito delicado, muito soturno, muito baixinho em solo. E ao ar livre era assim, mesmo, não tinha plugue, não tinha nada. Até hoje não tem. Em cantigas de rua, folias de reis, terço de São Gonçalo, terço de Aparecida, procissões, não se usa microfone de maneira nenhuma. Eles cantam e o povo faz silêncio. Isso é lindo, é um respeito muito grande!
Fernando  Não precisa do plugue.
Inezita – Não é um espetáculo no Pacaembu, de rock, nunca foi. E pode haver muita gente junta. Eu assisti folia de reis em Minas Gerais, no sul de Minas. Era a cidade inteira na rua na hora de cantar. Assisti congada, coroação de Rei Negro, Rainha Negra, a coisa mais linda! Havia um microfoninho porque o padre faz a benção. Então havia um coreto em que subia o rei velho e a rainha velha. Do outro lado, o rei novo e a rainha nova. Você olhava aquela praça, dava até aflição. Parecia um jogo no estádio, aquelas cabecinhas. Um silêncio, mas uma coisa bonita. Aí o padre, com o microfoninho, “Em nome de Deus eu vou coroar…” Ainda é tradicional em Minas, como São Benedito é importante na congada. Era na frente da igreja dele, mas não se usava microfone. Eu chorava muito! O rei levantava, de luvas brancas, tirava a coroa da cabeça e punha no rei novo. E o padre benzia. Aí vinha a rainha. Nessa hora todo mundo chorava! A rainha tirava a coroa da cabeça, também de luva, e punha na cabeça da outra. E uma delas que eu vi, essa rainha, negrinha, negrinha azul-marinho de preta, linda, com uma cinturinha assim, era a rainha.
Fernando  A antiga?
Inezita  A antiga. E ela foi pôr na cabeça de uma senhora desse tamanho, feioza. A coroa ficou meio dançando na cabeça. Essa senhora era riquíssima e havia patrocinada toda a festa.
Fernando  Como são escolhidos o rei e a rainha?
Inezita  A sucessão é um tipo de uma eleição popular. “Vamos eleger a dona fulana porque ela é muito piedosa, porque ela não-sei-o-quê.” Não se falava em dinheiro.
Fernando – Somente em atributos morais.
Inezita  É. E os festeiros são obrigados a dar comida e doce de graça. Então tem que ter uma pessoa pra bancar. Às vezes, a prefeitura é paupérrima, não tem nada. E sempre há uma pessoa da sociedade, rica… “Ah, vamos convidá-la.”
Tacioli  A piedosa.
Inezita  É impressionante, viu? E o povão ficou muito quieto. Eles são muito respeitosos, porque é uma festa religiosa, né, as duas: a congada e as folias. Mas foi muito bonito, porque quando põe a coroa e o padre acaba de abençoar, estouram os tambores todos da congada. Você treme no chão. Você não pode deixar de chorar. Depois fica todo mundo cantando aquela letra. E todos aprendem porque se repete. Ai, ai, ai, é muito linda essa parte!
Fernando  E o seu interesse começou na biblioteca?
Inezita  Foi, foi e na fazenda. Eles faziam lá procissões, catira e festa de São Gonçalo. A gente não ia bater o pé, mas na festa de São Gonçalo podia, né? Não precisava ser um catireiro ensaiado. Você fazia uma promessa e falava: “Eu quero entrar porque quero pagar a promessa. Prometi dançar”.
Fernando – Ah, é um….
Inezita  É o pagamento. Aconteceu a coisa, e o agradecimento é ir dançar. E é a noite inteira! Tem criança, tem velho, todo mundo dançando. É muito lindo! É muito puro! Aquilo é muito brasileiro!

Tags
Inezita Barroso
Música caipira
de 22