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Entrevistas de música brasileira

Inezita Barroso

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Inezita Barroso

parte 6/22

“Vamos patinar perto da casa do Mário de Andrade?”

Tacioli  E um desses vizinhos era o Mário de Andrade? Isso foi durante a infância?
Inezita – Foi na infância. Eu tinha uns 9, 10 anos. E foi na rua Lopes Chaves, que agora foi cortada pela rua Mário de Andrade, que passa no meio, que vai dar aqui na Conselheiro Brotero. Ele morava ali na esquina. A casa ainda está lá. Era um museu, não sei se ainda continua. Acho que não está mais. Ele morava ali e chegava toda tarde às cinco horas, cinco e meia. E eu tinha uma tia da parte do meu pai que tocava um piano maravilhoso. Havia estudado com ele no conservatório musical aqui. Ela falava miséria. “O meu vizinho é um deus. Ele é adorado no conservatório. Ele é um intelectual perfeito, maravilhoso!” E eu e minha prima – que tinha a mesma idade – ouvíamos aquelas coisas, né? Aí eu dizia: “Vamos patinar perto da casa dele? Eu quero olhar pra ele de perto.” “Ai, tenho vergonha.” Eu disse: “Eu não tenho. Vou patinar lá”. E íamos toda santa tarde… Eu não sei o que ele pensava de nós, duas loucas.
Fernando  Era uma paixonite infantil?
Inezita  Não, era uma admiração por tudo que a minha tia contava. A gente já gostava de música e ficou uma coisa, né?
Fernando  Pra saber quem era essa pessoa.
Inezita  Não, a gente tinha 10 anos de idade e ainda morria de medo de fazer barulho na calçada dele. Ele devia detestar. Aí ele chegava, meio morenão, corpulento, bem altão, e chegava andando devagar.” E a gente ali, “Crrrrrr”. [risos] Eu dizia pra minha prima: “Um dia eu vou dizer boa tarde pra ele”. Eu era muito tímida, né? No dia que eu chegava mais perto, ele me olhava assim: “O que essa menina quer?” E nunca consegui. Daí se mudaram de lá. E eu também fui crescendo, crescendo. Nunca mais vi… Somente ouvia falar. Semana de Arte… Aí a gente queria saber o que era aquilo, quem estava lá. Aliás, naquela novelinha [n.e. A mini-série da TV Globo, Um só coração, dirigida por Carlos Manga e produzida em homenagem aos 450 anos de São Paulo, completados em 2004 ] ele estava muito bem representado. A figura dele era aquilo mesmo. (…) Ele morreu muito cedo. E nesse tempo eu já estava noiva. Meu cunhado era ator do TBC, o Maurício Barroso. Ele falou: “Vou levar você pra conhecer o Mário. Mas logo que ele sarar; está doente”. Era um grupo muito bom que freqüentava o TBC, recém-fundado. E o Rui Afonso Machado, que era um grande intelectual também, “Não, nós vamos levar você pro Mário conhecer”. Eles não eram muito mais velhos que eu, não. Éramos da mesma idade, mas a gente respeitava muito esses colegas pela sabedoria deles. Meu cunhado era muito inteligente, estudou filosofia. Era um tempo muito gostoso. São Paulo era outra coisa, outra coisa.

O poeta, musicólogo, escritor, novelista e pesquisador Mário de Andrade (1893-1945), uma das chaves da Semana de 22. Foto: Fundo Mário de Andrade

Tacioli – Mas, pra você hoje, qual é imagem do Mário? Qual a sua importância?
Inezita  Ah, a minha visão ampliou bastante, porque estudei Biblioteconomia. E a primeira turma da USP! Funcionava no terceiro andar do Caetano de Campos. Aquele prédio nunca saiu da minha vida, do jardim de infância até o fim. Tinha aquela biblioteca enorme. Aí o professor já deixava um monte de livro pra dar uma lidinha, examinar, classificar, bater a fichinha. E eu chegava uma hora, uma hora e meia antes do normal. Batia aquilo tudo como um raio. Punha tudo no lugar, classificava tudo, daí eu ia ler. Havia tudo do Mário de Andrade. Eu comia aqueles livros todos não sei quantas vezes. Depois saiu uma boa edição da Martins Editora e aí comecei a comprar os livros. Agora, você empresta e some… Está fazendo uma falta uma edição nova. Não somente do Mário, mas de todos os outros. Então, eu li tudo o que eu podia de autor brasileiro.
Fernando – Já como pesquisa sobre folclore?
Inezita  Já como pesquisa. Foi aí que eu tomei gosto por isso também, porque você pesquisa quando é criança, mas não sabe o que é aquilo que você quer, tomar nota da letra, por exemplo, “O boi amarelinho”, aquela moda enorme. Eu sabia inteira, mas de ouvir os caipiras cantando. Cada dia eu escrevia um pedacinho. Depois saiu gravado várias vezes com o nome do Raul Torres. Uma música folclórica mesmo. Depois encontrei uma outra versão em Minas Gerais.
Fernando – E essa primeira versão foi recolhida onde?
Inezita  Era em todos os cantos. Era uma música muito querida dos caipiras. E depois, muito depois, ela veio por meio do rádio, pelo Raul Torres. Aí tem uma coisa, talvez não fosse culpa dele, mas quem cantava uma música, quem cantava em um programa de rádio, o povo acreditava que era do Raul, porque era o sistema folclórico. Imagine, vai cantar uma música do outro? Nunca! Como eu vi o “Boi amarelinho”, anos depois, nos 60, 70 e 80, falavam “Canta o Lampião de gás, da Inezita Barroso”. “Gente, não é meu. Não estou roubando nada. A mulher está viva! Maravilha! Linda!” Aliás, foi uma emoção no SESC… Porque no dia do meu aniversário eu dei um show e ela subiu no palco, me deu um abraço e cantou inteiro o “Lampião de gás”. Ela está com 92 anos. Também outro que era assim, era o João Pacífico. Ele subia as escadas do palco cantando e entrava correndo. [ri] Nessa época ele já tinha quase 86. Ele morria de rir, contava piada, fazia graça com todo mundo. Uma criatura divina! Ele tinha até o segundo ano de grupo da roça. E fez todas aquelas poesias, “Cabloca Tereza”, “Pingo d’água”, e muitas… Coisas fabulosas!

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