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Entrevistas de música brasileira

Inezita Barroso

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Inezita Barroso

parte 5/22

Aqui em São Paulo havia muito serão

Max Eluard  Inezita, como era lidar com eles, tendo esse machismo junto? Houve um momento em que você conseguiu o respeito deles?
Inezita  Total, total, porque era mulher justamente. Eles achavam que eu era mais fraca, que eu não ia dar soco na cara de ninguém, mas se precisasse eu dava. E era aquela brincadeira de subir em árvore, estilingue… Tudo, tudo. A casa do meu avô era muito grande, tinha um jardim enorme. E quando chegou a moda dos patins… Era uma coisa fina, bonita! Era chique patinar, bem vestida, de noite. E também havia bicicleta, patinete, tudo, tudo. Depois veio a mania do ioiô, bilboquê, que mais? Papagaio! A gente fazia no porão quatrocentos papagaios pra festa de São João. E balão também! Não era proibido. Não havia tanto fio, tanto perigo. As festas de São João eram bárbaras!
Almeida  Como eram?
Inezita  Eram maravilhosas, uma comidaiada…
Almeida  Eram aqui ou nas fazendas?
Inezita – Na fazenda era muito melhor. Mas havia aqui também, no quintal. Era época de férias, porque a gente tinha férias em junho e da metade de dezembro, janeiro até depois do carnaval. E quem queria voltar pra São Paulo? Choradeira, choradeira total. Sumia na estação do trem na hora de embarcar. Dava trabalho mesmo.
Henrique  Inezita, enquanto você construía sua trajetória musical, como era a sua relação com as mulheres da família?
Inezita – Havia poucas mulheres, poucas primas. Tias umas seis ou sete. Umas já casadas, com filhos. E havia uma que era a minha madrinha, que aprendeu a tocar violão, justamente. Mas não se deixava apresentar em lugar nenhum porque não era bonito. Eu cheguei a me apresentar muito porque era um grupo de meninas. Foi a Dona Meire quem inovou com isso. A gente cantou em clubes finos aqui de São Paulo, festa de benefício, Teatro Municipal de Campinas. Era muito gostoso me apresentar. Mas fui crescendo e aí meu pai falou: “Agora pára tudo. Vai estudar música direito!”. E fui. Mas eu sempre tocando no meu quarto, ou na quermesse da Igreja São Geraldo aqui, ou em aniversário de amiga. Era assim, convidavam e a gente ficava lá tocando e cantando.
Fernando  Quando seu pai falou “Vai estudar música de verdade” já era dando apoio para sua profissionalização ou…
Inezita – Meu pai sempre apoiou. A minha mãe era mais fechada. Ela dizia: “Quer cantar? Então não vai pro palco!”. Aí eu já tinha uns 15, 16 anos. “Então não vai cantar em palco, vai cantar no coro da igreja!”. Eu cantei muito no coro, aqui e na de Santa Cecília. Era muito gostoso. Foi suave, não era uma proibição. Às vezes um vizinho pedia pra ir cantar à noite. Aqui em São Paulo havia muito serão. Os serões estavam muito em moda. Juntava uma que tocava piano, com uma cantava que cantava música lírica, com outra que cantava música popular, violão…. E em casa fechada a gente ficava até onze da noite, meia-noite. Sarau, com declamação junto.

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