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Entrevistas de música brasileira

Inezita Barroso

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Inezita Barroso

parte 4/22

Meus tios foram pra Revolução de 32

Henrique Parra – Entre o aprendizado com o caipira e aquele vindo do estudo formal, como você se sentia?
Inezita  São duas coisas diferentes, raízes diferentes, né? Porque no piano você estudava coisa erudita e todos aqueles compositores, Chopin, Bach, Brahms, e na viola eram as modas caipiras do João Pacífico [n.e. Nome artístico de João Batista da Silva (1909-1998), um dos ícones da música caipira. Foi parceiro de Raul Torres, com quem compôs “Cabocla Tereza”, um de seus sucessos mais sonoros], Raul Torres. Eu ficava louca, vidrada, principalmente pela poesia caipira, que eu amo até hoje. Agora para declamar eu não era muito boa, não. Eu era só a menininha prodígio, aí me punham em cima da mesa, depois que acabava o jantar. Era uma mesa quilométrica, em que havia muita gente. E a criançada ficava quietinha, porque meu avô era muito bravo. “Música, a gente ouve em silêncio.” Não podia andar. Alguns até faziam pipi na calça. [risos] “Falou que não podia levantar daqui!” Mas a criançada era muito engraçada. E elas todas, as filhas do meu avô, as minhas tias todas, tiveram educação musical. Não se tornaram profissionais, nem chegaram a tocar muito bem. Aprenderam até harpa. Meu avô gostava muito de ópera, música erudita. Ouvia aqueles discos de dar corda, gramofone. Todo dia depois do jantar ele ficava sozinho com as filhas que gostavam mais. E eu tinha a minha sessãozinha em que declamava.
Tacioli  O que você declamava? Você lembra de alguma coisa?
Inezita  Ah, lembro sim. Era Corrêa Júnior. Guilherme de Almeida ainda era muito novinho, não era bem famoso, mas mais tarde eu aprendi muita coisa dele, principalmente na Revolução, né? “Bandeira da minha terra / Bandeira das três listras.” Eu achava lindo. E meus tios foram pra Revolução, todos. Os moços, todos os adultos. E teve um que não quis ir, que era o mais moço, que era mais malandrão. Ele gostava de ouvir rádio e ficava com uma caixa de fósforo batucando. E a minha avó foi para o quartel alistá-lo. Obrigou-o a ir.
Tacioli  A sua família, Inezita, era uma família de posses?
Inezita  Era, o meu avô era rico demais. Mas depois, sabe como é, é muita gente. E vai casando e vai esparramando, nem todos têm sorte pra ganhar dinheiro ou jeito. Então a coisa foi abaixando. Já no tempo da minha mãe, meu pai já não era rico, não era de família rica também, mas amava música e gostava muito de fazenda também. E a gente vem dessa criação.
Tacioli  O que não deixa de ser curioso você, com esse berço nobre, se encantar com o campo, ter o privilégio de visitar essas fazendas e perceber as diferenças.
Inezita  Exato, mas a gente era muito bem recebida, né? A molecada toda. Éramos em 18 irmãos, quantos primos? Depois de muitos anos, uns 20 anos, a gente resolveu dar uns jantares de primos. Meu Deus, em um jantar lá em casa foram 68 primo-irmãos. E tanta gente esparramou que, às vezes, eu encontro uma prima nos lugares mais estranhos. Um dia fui pra Recife. O avião era internacional, e ele parava em Recife. E a aeromoça olhava pra mim, olhava pra mim. “Você não é a Inezita?” Falei: “Sou.” “Eu sou sua prima-irmã.” “Ah, não acredito!” “Sou, trabalho aqui como comissária internacional.” E, nossa mãe, a gente ficou amiga! Essas vidas que não combinam… Ela viajando e eu também e nunca mais nos encontramos. Outro dia no recital do SESC, há uns dias, encontrei uma delas. Mas é tão engraçado reencontrar depois de adulto, de velho.
Fernando  Com vidas completamente diferentes…
Inezita  É, uma era professora de matemática da USP. Essa era o crânio da família. A gente respeitava, mais velha, já faleceu. E um outro era médico. O pessoal estudava também. Estudava e gostava. Lia muito. Meu avô tinha uma biblioteca imensa. Era muito gostoso esse convívio com os primos. Havia pouquíssimas mulheres. Todo mundo: “Quantos filhos você tem?” “Quatro homens.” Quantos filhos você tem?” “Oito, duas mulheres e seis homens.” Então, o meu contato foi mesmo com a molecada.
Fernando  Com os meninos…
Inezita  Com os meninos…
Fernando  E eles tocavam?
Inezita  Tocavam, alguns deles tocavam, sim. A casa do meu avô era aqui na Conselheiro Brotero, onde era a Escola Panamericana. Ela começava na Conselheiro Brotero e ia até a rua Tupi lá embaixo; um quarteirão. Havia pomar, havia um porão enorme. Alguns empregados moravam no porão. E a gente ia pro porão porque lá em cima era muito chato. Tinha uma velharada muito chata, não podia sujar nada. Então a gente ia lá e aprendia tocar violão com eles, samba. Era muito divertido. Mas sempre com os primos. E esse que morava em Santa Cruz do Rio Pardo veio para a casa da minha avó aqui, ficou hospedado uns tempos e foi fazer Medicina no Rio. E esse aí tocava muito bem o violão. Mas, coitado, ele tinha um violão desgraçado. Naquela época custava 10 mil réis.
Fernando  Era muito ou pouco dinheiro?
Inezita  Duro, aquela madeira horrível. Aí no aniversário dele, eu patrocinei o presente, catei um dinheirinho dos primos e demos um violão bom. Ele chorava, deu até dó. Levou esse violão com ele pro Rio. Depois a gente desliga… Ele já faleceu. E eu tenho grandes lembranças dos primos, muita. E assim sendo meu irmão também, só tenho um irmão, então eu brincava muito de brincadeira de moleque.
Fernando  Eram só vocês dois?
Inezita – Somente nós dois. E ele não tem jeito, não, não canta nem o Hino Nacional.

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