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Entrevistas de música brasileira

Inezita Barroso

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Inezita Barroso

parte 3/22

Ela foi aos EUA e trouxe a novidade: mulher podia tocar violão

Max Eluard  Você é católica, Inezita?
Inezita  Eu sou.
Max Eluard  De formação?
Inezita  Formação, família inteira, primeira comunhão, filha de Maria, procissões, cantei no coro. Então vem vindo, né?
Max Eluard  Você começou cantar na igreja ou…
Inezita  Não, comecei cantar já muito pequenininha. Eu nasci num domingo de carnaval aqui na rua Lopes de Oliveira, do lado de lá, na Barra Funda, e estava passando na porta o cordão Camisa Verde. Nem se falava em escola de samba, mas hoje é a Escola Camisa Verde e Branco. Então, a primeira música que eu ouvi na minha vida, acabando de nascer, foi, do povão mesmo, que era música dos cordões; não havia ainda escolas de samba. Eles era mais pobres. E dali, já pegou no ouvido e foi indo. Depois com a ida pras fazendas de meus tios, me apaixonei pela viola caipira e grudei nela, né?
Fernando de Almeida  Pequeninha?
Inezita  Desde cinco, seis anos.
Almeida  Existia uma figura pela qual você se encantou?
Inezita  Não, eram os caipiras em geral na fazenda, os caipiras. O caipira é muito humilde, é muito interessante isso. Tem muita música folclórica que você sabe quem é o autor da poesia. E as músicas, autor anônimo, autor anônimo, porque eles não tinham coragem de pôr o nome ao lado do nome de um grande poeta. Os poetas da Inconfidência foram todos musicados, você nunca soube quem musicou. Ele é muito humilde nisso. Mesmo na fazenda, se ele compôs uma folia de reis, uma coisa bonita aí, ele divide com a comunidade e sai fora. Você nunca ouviu dizer “é uma folia de reis do Sêo Manuel da Cruz”. Ele some, ele é humilde.
Tacioli  Isso naquele tempo ou ainda se mantém?
Inezita  Até hoje, até hoje. Ele faz porque é humilde. Ele faz ou por religião ou por estar apaixonado. É uma coisa de dentro pra fora. Ao passo que na música popular é o inverso, a pessoa faz uma música ou porque encomendaram ou porque querem gravar aquilo; já faz a música do tamanho da faixa do CD. O caipira, não, por isso é tudo longo, ele está despreocupado. Se ele faz uma moda, dura cinco, dez minutos, é muito normal.
Fernando  Não precisa tocar na rádio…
Inezita  Não precisa tocar… Ele nem gosta.
Dafne  E onde eram essas fazendas, em que região?
Inezita  Aqui no interior. Minha mãe tinha 18 irmãos.
Dafne  Cada um tinha uma fazenda?
Inezita  Metade homens e metade mulheres. Os homens todos foram fazendeiros. Itapira, Mogi-Mirim, Campinas. Do outro lado, do meu pai, Matão, essa era a mais longe, Santa Cruz do Rio Pardo, e vai por aí a fora. Eles amavam! Mas primeiro meu avô fazia estudar e se formar em alguma coisa. Naquele tempo era bonito ser farmacêutico, dentista. Era chique. Então, todos se formaram, mas foram embora pra fazenda.
Almeida  E todos saíram daqui?
Inezita  Saíram daqui.
Dafne – Havia alguma fazenda em que você ia mais? Você via alguma diferença entre essas regiões?
Inezita  Completa, completa. Por isso que era bom. Cada ano a gente passava as férias numa. E você podia comparar. Até a afinação de viola é diferente nas várias regiões. Então é muito interessante, são muitas afinações e aquilo chamou muito a minha atenção. Desde muito pequena eu já ia direto pra colônia ouvir música de viola. E era muito feio mulher tocar viola, machismo. Vem dos índios, né? Eles gostavam que eu assistisse, e eu me metia a cantar juntos com eles, com sete, oito anos. E eles achavam a voz muito bonita, até a hora em que eu pedia para tocar um pouquinho de viola. Aí um olhava pro outro. Demorou, viu? Porque aquilo também é um instrumento de paixão. Eles não emprestam, é uma coisa, faz parte deles, do corpo deles. É um amor brutal pelo instrumento. E aí pra emprestar… Eu comecei a arranhar um pouquinho, a querer tocar, né? E quando eram mais velhos, um olhava feio pro outro, como quem diz: “Quem emprestou pra ela?”. Eu comprei uma viola com 16, 17 anos e comecei a tocar mesmo, mas não era bem aceita.
Fernando  Você já tocava violão?
Inezita  Já, violão tocava, porque mandaram aprender violão, que era tudo de ouvido a viola, o violão mesmo. Como é ainda hoje. Recentemente é que se escreve música de viola na pauta, né? Roberto Corrêa [n.e. Violeiro, compositor, pesquisador e escritor mineiro nascido em Campina Verde em 1957, dono de vários discos de carreira, entre eles Voz e viola (1996) e Caipira de fato (1997), que dividiu com Inezita Barroso], o Rui Tornezi [n.e. O maestro Rui Tornezi de Araújo, regente da Orquestra Paulistana de Viola Caipira e professor de viola do Centro de Estudos Musicais Tom Jobim], todos esses grandes violeiros, então isso é muito recente, método de viola. Tudo era transmissão oral, né?
Fernando  E aí você aprendeu a tocar sozinha?
Inezita  Aprendi olhando também, transmissão oral.
Tacioli  Mas nessa época, Inezita, nos anos 1930, você era uma menina?
Inezita  Tinha uns sete, oito anos.
Tacioli – Apesar do rádio, o violão não era ainda um instrumento tão bem visto, né?
Inezita  Era mal visto, dizendo: “Violão era um instrumento de vagabundo, de desocupado, que vai tocar de noite na rua, fazer serenata. O cara não trabalha!“. Não era nada disso, mas o povo, sabe como é? E mulher… Mas daí veio uma professora pra São Paulo, que era paulista, a dona Meire Buarque. Ela chegou aqui, havia feito um curso nos Estados Unidos, e veio dar aulas pra nós. Ela morou e morreu em São Paulo. Era paulista. Foi estudar nos Estados Unidos e trouxe a novidade.
Fernando  De mulher tocando violão?
Inezita  Mulher tocando violão. Mas ela misturava com poesia, com pequenas pecinhas de teatro, com esquetes. Era muito gostoso. E havia aula de boas maneiras também. Nessa eu caía fora. [risos]
Tacioli  Mas essa era a forma do violão ser bem visto…
Inezita  Ser bem visto. Aí eu comecei a cantar…
Fernando  E o piano…
Inezita  O piano foi com nove anos. Não, meu pai bronqueou: “Tudo de ouvido? Não vai pegar amor pelo palco, não quero. Vai estudar música!”. Aí eu torrei mesmo. Fiz três cursos de piano.
Fernando  E seus pais apoiavam assim…
Inezita – Música, sim, mas não muita coisa de palco…
Almeida  Eles queriam que você fosse pra academia?
Inezita  Dona de casa, bonita, prendada. Aí eu aprendi tudo. Dona de casa, tratar de criança. Tudo bem, mas lá dentro… [risos]

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