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Entrevistas de música brasileira

Inezita Barroso

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Inezita Barroso

parte 2/22

O Viaduto do Chá era o ponto do suicídio

Almeida  Inezita, em relação ao rio Tietê, você se lembra quando começaram a falar que a coisa estava mudando, quando começaram a falar “Gente, o rio não está mais limpinho. Não tem mais peixe, não dá mais pra ver o fundo do rio”. Você se lembra?
Inezita  Faz tempo também, mas mais por causa das fábricas que jogavam as coisas no rio. Jogam tudo naquele rio. Sofá, poltrona, cama. Tem um canal que vai desembocar no rio, que está eternamente entupido, que tem um carro Volkswagen dentro, não vai nem volta. [risos] Vocês estão rindo…? Acreditem em mim, é verdade! É pra lá da Casa Verde. Tem uma coisa de esgoto mesmo, aquelas manilhas enormes, né, que deságua no rio. E não vai, nem volta, entope tudo e volta tudo para o bairro, porque… [risos]
Dafne – Porque tem um Volkswagen ali…
Inezita – Inteiro! Já tentaram tirá-lo e tudo… Agora vão deixar apodrecer para desmontá-lo. É muito estranho, São Paulo tem uns negócios muito estranhos. Então tem muita coisa pra gente ver, muita, muita. Aquele bairro da Liberdade, aquelas coisas que vendem ali, comida japonesa, artesanato. A Praça da República é linda ainda, né? Viaduto do Chá é bonito, uma coisa histórica! Peguei quando não era nem asfaltado, era uma pontezinha. A gente saía da Caetano de Campos, arrancava os distintivos, puxava a meia e ia desfilar na Barão, que era chiquérrima. E o bonde Perdizes era do outro lado do Viaduto, pra lá da Praça Patriarca. Então a gente ia a pé da escola até lá. Nossa, era muito bom! Ele dava umas tremidinhas… E era o ponto do suicídio, né? Toda criatura desgostosa pulava lá de cima. Muitos caíam em cima de carros, escangalhava o carro e não morria. [risos]
Almeida  E ainda não morria… Isso que era o pior.
Inezita  Isso que é triste. [risos] Mas São Paulo tem muito pra ver, muito, muito.
Tacioli  Você costuma andar ou passar de carro por esses lugares?
Inezita  É, de carro você não pode entrar muito, porque aquelas ruas que têm calçadões são misteriosas, são lindas. Tem umas capelas ali pela Liberdade, atrás do Largo da Pólvora, na rua Liberdade, que ninguém sabe da existência. Elas ficam o ano inteiro fechadas, né? Tem uma rua sem saída que vai dar numa capela linda, só abre no dia do santo, que eu não sei qual é. E eu estou louca atrás de um São Gonçalo, porque existe uma Igreja de São Gonçalo na Praça João Mendes, mas não tem o santo. Estranho.
Almeida  Por que, roubaram?
Inezita  Não, é porque há uma briga. O São Gonçalo era português. Ele tocava viola e dançava. Ele é patrono dos violeiros. E o padres não gostavam muito porque… quer dizer, ele dava aquela desculpa de ir aos bailes com aquela mulherada pra catequizar as mulheres. [risos] Não, mas ele fazia mortificações, ele enchia a sola do sapato de prego e dançava a noite inteira, sangrava o pé. E ele tocava viola e cantava muito bem. E com isso ele conseguiu arrebanhar uma porção de gente pra Igreja, né? Mas os padres não acreditam muito, porque na própria igreja de São Gonçalo, o santo não está no altar.
Dafne  Você está atrás da imagem pra colocar no altar?
Inezita – Que tivesse a imagem com a viola, como tem em Cuiabá, que ele é padroeiro de Cuiabá, no Mato Grosso. Então, você chega lá, você se assusta, uma imagem quase de tamanho natural, de frade com aquela viola no colo. Ah, eu chorei!
Dafne – Vi umas imagens pequenininhas.
Inezita  Eu tenho.
Dafne  Grande eu nunca vi.
Inezita  No altar, no altar-mor, ele é padroeiro. Muito lindo! Eu levei até um susto no dia que eu vi. E vende muito essas pequenas, de todo jeito. É muito interessante isso, uma coisa pra gente também pesquisar porque que não tem na igreja com o nome dele. Em matéria de igreja tem muita coisa interessante.

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