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Entrevistas de música brasileira

Inezita Barroso

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Inezita Barroso

parte 22/22

Você está querendo me embebedar?

Gafieiras  Só mais uma questão. Com as comemorações de aniversário de 80 anos, do sucesso do Viola, hoje você se sente totalmente prestigiada e vê a música caipira reconhecida como ela deveria ser?
Inezita  Vejo, vejo, mas é um cristalzinho, você não pode largar até [risos], sabe? A primeira fresta que você der, pode arrebentar tudo.
Gafieiras  E quando você não conseguir mais segurar tudo, você tem alguém, sabe de alguém que pode segurar essa bronca?
Inezita  Não tem mais ninguém louco no mundo, já pára com 40, 50 anos… Desiste…
Gafieiras  Mas figuras como o Rolando Boldrin…
Inezita  É, ele tem somente um mau gênio. Rolando Boldrin poderia fazer um trabalho muito sério, não sei porque, acho que é o jeitão dele, né? Largou aquele programa tão bom que tinha, não dá, não sei o que ele tem… É o gênio da pessoa. Ou ele ficou desencantado com alguma coisa, e aí a gente não pode entrar na vida do outro pra saber o que é e nem perguntar. Eu estou seguindo a minha trilha, vou até onde der…
Gafieiras  Nessa época do Som Brasil, o Viola, Minha Viola também estava na ativa…
Inezita – Ao mesmo tempo….
Gafieiras – Então, como era, o público se dividia?
Inezita  Não, porque ele sempre fez muita música nordestina…
Rivaldo  Vou interferir… Você merece um bom uísque…
Inezita  Você está querendo me embebedar? Que duplinha moderna você está querendo colocar no programa? [risos] Ai, brincadeira, eu amo esse cara! Essa pessoa caiu do céu pra trabalhar comigo…
Rivaldo – [canta] “Inezita, minha pepita”…
Inezita – E, meu Deus, já vai começar! Sabe o que é isso? É o Pescuma, um artista de Mato Grosso que fez uma música pra mim e cantou no programa, e ele aprendeu somente esse pedaço. [risos] Aí ele canta o dia inteiro… [risos]
Rivaldo – Faz quatro anos que o Pescuma fez uma música muito linda, [canta] “Inezita, minha pepita…”. Eu canto pra ela todo dia… [risos]
Inezita – É, só podia ser esse cara o diretor do Viola… A gente briga, discute, nunca porque ele quer pôr porcaria no programa, são assuntos variados, mas no fim a gente concorda. Se você não trabalhar assim, não sai nada….
Rivaldo  Estou um pouquinho preocupado por conta do amor dela, por conta do seu trabalho, mais de 50 anos de carreira, sua garra, sua pesquisa, sua luta… E se eu for interferir nesse momento nós vamos ficar até de madrugada e vocês também. Então, vamos botar essa mulher pra comer uma pizza [risos], uma polentinha… Vocês estão aí conversando com um bom uísque, não é?
Inezita  Não, outro dia eu fui ao Gigeto. Sentei. “A senhora está esperando alguém?” “Não”. “Não vem o diretor da senhora, né?” “Não, não se assuste, não tem que fechar as quatro da manhã!” Tem assunto até o amanhecer, impressionante! E a gente está sempre em comunicação, né? “Lembra daquilo?”; “É mesmo, não cuidei daquilo…”; e vai, vai, vai…
Rivaldo  É muito maravilhoso…
Inezita  É porque você é caipira mesmo…
Gafieiras  Mas ele não convida a senhora para ir ao Paulistano?
Inezita  Não, ele já foi comigo uma vez, foi bonito, um espetáculo muito lindo…
Rivaldo  Somos amigos, companheiros, é uma coisa muito bonita, é uma…
Inezita  A gente não tem tempo de viver normalmente como os outros, né? Então é assim, o programa Viola ninguém sabe a que horas acaba, nunca! Ou é às sete, às oito, ou à meia-noite, né? A gente sai de lá com o estômago grudado nas costas. “Vamos comer uma pizza?” É difícil em São Paulo agora, uma coisa aberta até meia-noite. Então não dá, vai pra casa com fome, me dá um ódio… Quando você entra antes no restaurante, aí eles não fecham. [risos] Aí a gente come, conversa da caipirada de Botucatu…
Rivaldo – De todos os lugares…
Gafieiras  Você quer pedir alguma coisa, Inezita?
Rivaldo  Só um brequinho pra gente continuar aqui…
Inezita  Vamos pedir aquela pizza cortada, porque eu não posso cortar…
Rivaldo  É uma coisa assim, eu acho que alguém…
Inezita  Acho que depois de amanhã já vou conseguir cortar… [risos]
Gafieiras  O que aconteceu na mão? Quebrou?
Inezita  Quebrei o pulso.
Gafieiras  Quebrou?
Inezita – Na classe, olha que vexame!
Gafieiras  Mas caiu?
Inezita  Cai da carteira do aluno, ele quis ser gentil comigo: “ A senhora já está dando aula de pé há algum tempo…”. “Mas eu gosto de dar aula em pé. Não sei sentar… Vocês começam a conversar, me irrita!”. “Não vai cansar? Senta na minha carteira!”; tirou uns livrinhos assim, e quando apoiei naquele bracinho amaldiçoado, veio tudo a baixo… E eu cai com a mão virada pra trás, né? Pra apoiar somente nessa mão, é livro, é caderno, é tudo em cima de mim. Eu deitadona no meio da classe, coitados…
Gafieiras  O aluno foi reprovado! [risos]
Inezita – Não, coitado, eles até choraram. As meninas: “Não bateu a cabeça?” “Não, é dura, não quebra!” “Ai, a senhora ainda está brincando!”. Me carregaram para o hospital que fica atrás da faculdade, me levaram para o Santa Cruz. Aí chegamos lá. Era um japonês. “Vamos tirar radiografia!” E os alunos todos esperando a radiografia na porta. Não agüentei. “Vão embora, meu Deus, que coisa de criança!”. Aí vem ele: “Quebrou mesmo, quebrou mesmo!” Eles ficaram todos espantados. E na outra semana fui dar aula. “A senhora veio dar aula com gesso e tudo?” “Lógico, eu quebrei aqui, não foi perna, não foi nada!” Eu morro de rir com eles. São muito bacanas. Quando cai, eles apareceram com tudo: gelo no plástico, esfregavam o gelo no braço. “Ih, está inchando!” Eles se preocupam comigo nas duas faculdades. É muito gostoso. Amo dar aula!
Gafieiras  Obrigado pela entrevista…
Inezita  Obrigada vocês…

[…]

Inezita  Pede uma pizza daquela cortadinha…
Rivaldo  Vocês comem pizza?
Gafieiras  Lógico…

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