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Entrevistas de música brasileira

Inezita Barroso

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Inezita Barroso

parte 20/22

Estou ouvindo discos com sons de água

Gafieiras  Inezita, o que você tem ouvido?
Inezita  Ah, ultimamente, como eu ando muito nervosa, muito estressada [risos], estou ouvindo aqueles discos com sons de água. [risos] Aquilo é bom, gente! Amansa pra chuchu. Tenho que ter secretária eletrônica, porque se eu pegar o telefone: “Ah, escrevi uma moda pra senhora: [canta] lá, lá, lá, lá…”. Você não vai desligar, né? O nego canta no telefone. E fico ali. Bom, aí fui numa loja homeopática, que tem remédios naturais e encontrei esses disquinhos… Os CDs são maravilhosos…
Gafieiras  O que te estressa? O que te deixa fora do prumo?
Inezita  Não poder cumprir. Eu tenho um lema que foi meu pai quem carimbou na minha cara e na do meu irmão: “Cumprir, sempre!”. Então, se você promete e não faz, eu morro, eu morro…
Gafieiras  Mas cumprir é… É realizar esses quatrocentos projetos que você tem? Essas suas idéias?
Inezita – Tudo isso, tudo isso, tudo isso. Se eu estiver cantando aqui… “Pô, estou em falta com a faculdade. Pô, eu não pedi o projetor, faltou botar aquele carretel, prometi aos meninos…”; aí vai. Começa…
Gafieiras  É falta de tempo?
Inezita  Eu levanto às quatro horas da manhã quando eu lembro dessas coisas e vou lá, né? Escrevo, deixo tudo pronto. Aí eu durmo até às oito…
Gafieiras  Mas o caipira é assim, Inezita? Ele fica preocupado?
Inezita  Fica, fica, conheço bem… [risos] É verdade…
Gafieiras  Imagino…
Inezita  A gente tem muito essa coisa do patrão… Eu já perdi bastante, mas ainda tenho essa coisa da hierarquia, uma palavra que incomoda muito. Sou incapaz de dizer: “Eu preciso falar com o presidente!” Subir a escada e ir lá falar: “Eu preciso falar com o presidente da Cultura”. Eu tenho isso. Estou com 80 anos, pô, e não perco isso, que me preocupa muito. O caipira tem isso. Se o fazendeiro disser: “Olha, amanhã você vai limpar o pasto lá, vai até pra lá da cerca…” não-sei-o-quê, não-sei-o-quê lá, o nego vai, acorda às duas, três da manhã e vai lá cumprir. E faz tudo. É engraçado isso. Acho que fica na raça da gente, como qualquer coisa; meu irmão é igual.
Gafieiras  Seu irmão é mais velho ou mais novo?
Inezita  Mais novo um ano e meio… A gente se dá muito bem, mas ele é completamente diferente, o gênio, tudo, completamente diferente. Engenheiro… [risos] Agora que ele está indo assistir as minhas coisas…
Gafieiras – Somente agora?
Inezita  Agora, porque ele está com setenta e tantos anos também, né?
Gafieiras  Ele não gosta?
Inezita  Não é que ele não goste, não. Ele casou com uma moça do interior, mas que era contra caipira. [risos] E eu tenho um sobrinho que desafiou a família inteira. Ele é caipira desde que nasceu, tinha dois anos de idade e já era caipira. Ele ia para a fazenda…
Gafieiras  Filho do seu irmão?
Inezita  Filho dele. E o outro é um grande psiquiatra. Estudou muito, muito, muito. É um crânio…
Gafieiras  São somente dois?
Inezita  São só dois. E sempre debocharam do caipira, né? Aí meu irmão dizia: “Você fez um cursinho de merda no Mackenzie. Isso é cursinho de vagabundo!”; e ele quieto, quieto. Aquela paixão por fazenda, viola… Ele é amigo do Daniel. E meu irmão, “Você só sai de noite, você não faz nada, é vagabundo. Sai à noite e chega tarde!”. E um belo dia, ele chegou pro meu irmão e falou: “Pai, vim trazer pra você o meu convite de formatura!”; quase matou o meu irmão. “Está aqui o convite, né? Você vai com a mamãe, minha avó, minha tia, todo mundo!”. Ele fez o curso inteiro só pra ter um diploma de advogado. [risos] O meu irmão valorizou, claro, quase matou o pessoal. Aí pegou o diploma, advogou três meses, aquelas questões de terra, e falou: “Ah, não dá!”. Aí, começou a criar cavalo, fazer não-sei-o-quê-lá. Ele é muito gozado, mas a opinião de criança, como quem diz:” Eu não sou vagabundo! Fiz esses cursos rurais aí, porque eu gostava! Então você quer um diploma na parede? Está aqui!”. [risos]

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