gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Inezita Barroso

InezitaBarroso_940

Inezita Barroso

parte 19/22

É muito rock e pouca música brasileira

Henrique  Há duas semanas, eu não me lembro exatamente se foi no dia do seu aniversário, mas eu a vi no Bar do Alemão…
Inezita  Ah, é, fui com o Pelão. Ele não sai de lá.
Henrique – Não somente na história de São Paulo, mas os bares foram um ótimo lugar ambiente de encontro, né?
Inezita  É. Mas morreu…
Henrique  Você acha que isso mudou muito assim?
Inezita  Mudou, mudou muito, muito, muito. Haviam choperias, no tempo dos estudantes de Direito, onde se cantava em coro em mesa, como na Europa, Alemanha e França, né? Isso aí acabou. Havia um restaurante muito bom que era o Parreirinha, em São Paulo, onde a gente se reunia. Todo carioca, nordestino, gaúcho, que vinha fazer um show em São Paulo ia jantar no Parreirinha depois. Naquilo ali juntava uma raça de gente tão bacana – publicitários, cantores, atores, gente de teatro – e o pessoal que ia pra lá pra ver essas figuras. Era muito bom…
Tacioli  Parreirinha fechou faz pouco tempo, Inezita?
Inezita  É, há uns dois anos.
Almeida  Você tinha uma mesa lá, né?
Inezita  Tinha, está lá em casa… [risos] Cadeira especial, está tudo lá em casa…
Tacioli  Inezita, a senhora chegou a freqüentar o bar Jogral?
Inezita  Cheguei… O Jogral é um dos culpados pela volta da boa música popular brasileira. Foi um marco divisório maravilhoso, porque foi justo nessa época do nhém, nhém, nhém, tudo igual, né? Música pra criança praticamente. O Roberto Carlos depois cresceu e resolveu cantar coisas de mais conteúdo, por isso que ele ainda está aí, né? Quando sumiram, arrastaram pra baixo, porque o Jogral era um ponto de encontro de grandes compositores, grandes regionais, músicos. Era Carrasqueira e daí pra cima. E todo músico bom que vinha de fora ia bater lá. Você não conseguia nem sentar de tanta gente. E essas coisas são engraçadas porque depois que o Paraná morreu, ficou na mão de outra gente e era um lugar bem amplo aqui na Consolação…
Tacioli  Você lembra quando o Paraná morreu? Como foi…
Inezita – Era assim, “Ai, é um horror, é um inferno. Não tem ar condicionado! Os banquinhos que não têm encosto!”. Mas lá era o quente, era lá que você ia ver o Adauto Santos, ia ver um monte de gente bárbara. E aí mudou pra cá e perdeu a graça. Ficou esparramado o pessoal nas mesas, sentadinho em sofá… A gente sentava no chão… Quando a coisa é boa, quando mistura teatro, cinema, música, uma coisa chama a outra e se entrelaça. Agora, o que sobrou disso é uma coisa odiosa e eu não gosto. No dia que botarem música aqui [na Pizzaria Lenharetto], eu não atravesso mais a rua, porque acho que restaurante é pra comer. O Parreirinha tinha uma música desse tamaninho de fita, suave… E aí quando alguém queria cantar e a gente juntava cinco, seis loucos lá: “Então vamos cantar!” e aí desligava aquilo e “Vamos cantar!”. Eu gosto muito de comida brasileira. Aí fui num, ou melhor, íamos com um amigo nosso que é compositor e cantor, o Durval Solto. Ele é do interior da Bahia, já gravou alguns discos, mas agora ele se mudou de São Paulo, está morando lá no Vale do Ribeira, está trabalhando com teatro, bonecos e teatro pra criança. Mudou um pouquinho a profissão. Mas quando ele pisa em São Paulo, fala: “Vamos comer uma carne de sol?”. “Vamos embora!” E tinha um restaurante bárbaro perto da cadeia do Carandiru, na Avenida Cruzeiro do Sul. Era lindo! Artesanato nordestino. Uma musiquinha gostosa, até uns cantores que você nunca tinha ouvido falar, em fita. Aquilo era delicioso. Daí começaram a vir tocar na mesa, e eu morro de dó, sou incapaz de comer enquanto a criatura está na minha frente cantando. Tem gente que está conversando, deixa o infeliz lá em pé… “Não pode, é muita falta de respeito!”. Aí vinha na mesa, e aquela história de pôr dinheiro dentro do violão, dá muita, muita aflição. E falei: “Não venho mais!”; “Não, vamos lá…” Passamos um tempão sem ir. E o cara é amigo desse baiano, daí fomos lá uma vez, agora, recentemente, e o cara arrumou uma banda, tem duas sanfonas com plugue, dois violões com plugue, viola, guitarra, baixo e uma zabumba do tamanho dessa mesa. Aí quando cheguei lá com ele, ele olhou pra minha cara… e falei, “Acho que nós não vamos ficar aqui!”. Aí o dono da casa: “A Inezita está aí, a Inezita está aí…”
Fernando  Vamos mostrar uma música pra ela…
Inezita  E a zabumba na minha orelha! [risos] Ficou feio, viu, nunca mais fomos. Que judiação, a comida uma delícia, um ambiente gostoso, bem freqüentado, mas não dá mais. Não mistura, são coisas que não casam…
Tacioli  E hoje há algum espaço que lembra o astral do Jogral, do Parreirinha?

Inezita – Acho que não, porque eles estão misturando também, é muito rock e pouca música brasileira. Tem um que ainda é bom, mas é que a gente não pode ir muito porque é muito caro. [risos] Eu não trabalho na Globo, né? Então, na frente da Família Mancini, é a coisa mais fina do mundo pra você levar um estrangeiro, um francês, um americano. É do filho, chama-se Walter Mancini. Tudo em cristal, uma uma comida maravilhosa, e tem um conjunto que toca de tudo, desde música de câmara até música popular brasileira. Mas é tudo super baixo, discreto, sabe? É tudo na surdina. Não tem aquelas coisas de gritar, de berrar. É muito bom. Fico esperando meus amigos me convidarem [risos] pelo menos duas vezes por ano, porque é muito caro. Merece porque é uma coisa muito fina. É pra estrangeiro mesmo. Mas o conjunto tem músicos famosos. Daí eles vêm: “O que você quer ouvir?”. Tem um flautista maravilhoso… O conjunto tem metal, aquela surdina que somente o Araken, irmão do Cauby, sabia tocar…

Tags
Inezita Barroso
Música caipira
de 22