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Entrevistas de música brasileira

Inezita Barroso

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Inezita Barroso

parte 18/22

Falou em mãe dá morte

Fernando  E o que é, Inezita, ser caipira?
Inezita  Ah, é uma criatura fora do normal, é a criatura melhor que existe no Brasil!
Fernando  Pela natureza, pela…
Inezita  Ele é bom, ele é ligado à família, estupidamente ligado à família. Se precisar ele morre por um filho. Ele é trabalhador, não é avarento, não quer “grandes dinheiros”, não faz tramóia. É raro você ver o nome de um caipira legítimo enrolado nessas tramóias. Então, é uma coisa pura. Quando ele não gosta ele não briga, ele vira as costas e vai embora…
Tacioli  Mas a senhora acha isso bom? Assim, “não gosta de uma coisa, concorda com aquilo e vira as costas”?
Inezita  Não é bem concorda, ele não quer brigar, ele não gosta de brigar…
Henrique  Mas você acha positiva essa passividade?
Inezita – Acho. Melhor do que isso que está aí, quando se fala: “A vaca do meu amigo…”; “Vaca é a sua mãe!” E já mata, dá dez tiros na boca… Pra quê isso?
Fernando  Não é uma passividade, é uma…
Inezita – É malícia. Tem letras com duplo sentido, mas isso não tem na música paulista, caipira. Isso foi inventado por gente que veio depois, palhaço de circo, tanto que, quando um Barnabé vai no programa, a gente tem que: “Essa não!”, “Ah, mas essa é mansa…”, “Não, não é mansa, não. Essa você não vai contar, corta!”…
Tacioli  Mas o Alvarenga e Ranchinho, o Jararaca e Ratinho, eles não cantavam essas letras maliciosas?
Inezita  Cantavam, cantavam muito, muito. Mas não é bem de Alvarenga e Ranchinho, que eram mineiros, né? Isso é muito nordestino, é uma provocação de repentista nordestino. Tem uns desafios mineiros completamente diferentes do nosso. O nosso é o cururu, que é religioso. Quem sabia mais vida de santo ganhava o cururu. Você canta duas horas e está lá: “Porque Santa Catarina…”; e vai, e vai, e vai, porque é sabedoria. Aí veio a desgarrada portuguesa, que é um desafio que acaba em morte e pegou em Minas e no Nordeste, que é aquele de quadrinha, né? “Eu não vou, eu vou na sua casa…”; “Eu vou na sua casa…”; não sei, como era? “Sentado no cachorro do seu pai, a sua irmã, a cachorra da sua irmã…”; já tem e vai esquentando e vai esquentando. Agora, falou em mãe dá morte. Mãe dá morte!

Henrique  Inezita, há um bom trabalho de pesquisa instrumental?
Inezita  Tem.
Henrique  Isso também contribui com um novo aprendizado da viola…
Inezita  Claro. Roberto é sensacional. Pereira da Viola, o (Ivan) Vilela. Tem muito violeiro bom, muito violeiro. O Braz da Viola…
Henrique  Dá um outro fôlego, né?
Inezita – Dá, só que eles não saem, eles nunca vão tocar uma música sertaneja no Viola que, aliás, não é um termo nosso. Foi inventado para tirar aquele ranço de chamar de caipira. Houve uma época em que o locutor não dizia: “Nós vamos transmitir um programa caipira!”. Seria um lixo, ninguém ouviria nada. Então aproveitaram que o Luiz Gonzaga era sertanejo… Sertanejo é uma condição geográfica, é um local do país, é um tipo de gente com seus costumes, suas tradições. Então ele era um sertanejo e falou: “No sertão da minha terra, o sertão tem seca…”, né? Agora aqui você nunca ouviu dizer: “Eu vou pro sertão de Limeira, eu vou pro sertão do Jabaquara…” Quando tem é uma coisa mais nova, é coisa muito importante.

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Música caipira
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