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Entrevistas de música brasileira

Inezita Barroso

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Inezita Barroso

parte 17/22

O caipira é um modo de ser

Fernando  E como está o espaço para a música caipira na TV?
Inezita  Bem, graças a Deus, está bem, está muito mais aberta, muito mais. Eu só lamento que tem muitos programas que começam e duram dois, três meses. Por que? Porque eles misturam alhos com bugalhos. Porque não tem um diretor, um produtor que entende como aquele louco que está sentado lá [aponta para o Rivaldo Corulli], que é caipira de Botucatu, que diga assim: “Isso não é música raiz. Isso não é, isso aqui é sem valor, essa poesia é uma droga. Você mudou o ritmo da música”. Não tem. E é assim de gente querendo entrar. E agora eles acham que “Puxa, fez sucesso o Viola, hein? Então vamos fazer um programa caipira igual ao dela!”. O primeiro programa é lindo. Aí vão as Irmãs Galvão, Liu e Léo [ri], Zico e Zeca, Daniel às vezes. E aí vai… Lá pelo quarto programa é Bruno & Marrone misturado com Irmãs Galvão, Rio Negro & Solimões misturado com Zezé de Camargo & Luciano e um violeiro maravilhoso… Falei: “Gente, não é por aí. Vocês vão cair sentados!”. E não dá outra…
Henrique  Fica sem cara.
Inezita  Fica sem cara.
Tacioli – O Chitãozinho tem um programa de TV, não sei se continua ainda…
Inezita  Acho que continua. Sei que é um negócio que não é nem da Record, é de uma produtora extra, né? Misturado também. Agora é muito engraçado, porque você fala: “Vamos fazer um cenário com fogão a lenha, uma cozinha da fazenda, vamos fazer?” Aí a Cultura se entusiasma: “Então vamos!”. E aí faz a maquete pra gente ver. “Puxa, está lindo. Vou fazer uma roda de violeiro. Aí vem a estréia do Sérgio Reis na Record!” “Ah, vamos ver essa estréia…”. Aí ligo e… fogão de lenha no meio da cozinha [risos], os negos vão lá de orelha! “Ela vai fazer, faz antes!” Mas a cabeça está cheia de idéias, né? É pra isso que a gente pensa… Eu já tenho mais 400 idéias só que agora eu não abro o bico. [ri] Somente com o cenógrafo! [ri]
Henrique  Você tem projetos, Inezita?
Inezita  Tenho.
Henrique  Você pode falar ou você acha que a concorrência vai roubar sua idéia?
Inezita  Não, não chega lá. A concorrência mistura, meu Deus; às vezes precisam estudar um pouco, saber a divisória, são dois trecos paralelos, não vão se encontrar nunca. E essa conversa de dizer que essa música “sertanojo” veio da nossa, daí somente matando, não tem nada a ver. Não tem um ponto de ligação… Começa que não tem viola, é banda. Começa que as roupas, chapéu de cowboy, não-sei-o-quê, não-sei-o-quê pegou, né? Mas não justifica, poxa!
Max Eluard  Inezita, mudando um pouco de assunto… Você gosta muito da cidade de São Paulo, né?
Inezita  Amo de paixão!
Max Eluard  É engraçado porque há uma idiossincrasia com a música do campo que foge a cidade de São Paulo, né?
Inezita  Nem quero falar nesse assunto porque envolve muita gente importante que não merece a gente lembrar porque já morreu. [risos] Gente de muito crânio, gente muito importante. A primeira coisa que eu falo quando dou a primeira aula: “Caipira não é mendigo, tá bom? Esse é o meu lema, vamos escrever aí…” E daí eu começo. Porque aquela criancinha, figurinha na festa de São João, chapéu tudo esfiapado, sem dente, pinta de preto, banguela; agora ainda existe chapéu de cowboy pra criança, né? Quando não existia, era aquele chapelão de gente grande, dava um pulo, aquilo vinha até aqui… [risos] Enchia de jornal dentro… Ridículo! Ou então esfiapado, o dente preto, a calça remendada… E jeans, jeans remendado… Pelo amor de Deus, é muita ofensa pra mim! É duro de tirar da cabeça… Não é de criança, é da cidade inteira. Cidades do interior que queriam ver caipira de longe. Se eu disser: “Você é caipira!”. “Eu não!” “Você não é do interior?” “Ah, mas eu não sou caipira!”. Então ficou uma coisa feia…
Fernando  Que surgiu da organização do Brasil, essa negação do campo e a vocação da cidade, não?
Inezita  É, mas depois houve outros fatos… Mas sempre calcado em dinheiro. Isso é triste. E daí a gente quer tirar essa imagem. Sempre que dou palestra pra professor, falo: “Não pinte o dentinho das crianças! Tem dentistas bárbaros no interior. Isso aí é coisa boba, não fica nessa aí!”.
Tacioli  Mas o caipira está em extinção com essa urbanização?
Inezita  O caipira vive dentro, dentro do coração da pessoa. Tem caipira com cem anos, tem caipira com quinze, tem caipira com dez. É um modo de ser, uma tradição guardada a sete chaves que ele não mostra por causa dessa depreciação do caipira.

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Música caipira
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