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Entrevistas de música brasileira

Inezita Barroso

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Inezita Barroso

parte 16/22

Sou agradecida a Papai do Céu, ao Roberto e ao Erasmo!

Max Eluard  Inezita, houve algum momento de baixa em sua carreira em que você falou “Eu preciso fazer alguma coisa, está ficando difícil…”?
Inezita  Teve.
Max Eluard  Como foi?
Inezita  Foi na época da Jovem Guarda e da Bossa Nova. Eu acordava às seis horas da manhã, começava a dar aula de violão e de canto às sete, levantava meia hora pra comer uma coisinha no almoço e ia até meia-noite, todo dia. E com isso eu paguei a PUC pra minha filha.
Max Eluard – Por que viver de gravações, shows e apresentações não dava?
Inezita  Não, gravar era: “Meu Deus, essa música caipira é antiga!”. Mas o que é antigo? Bar é antigo, chope é antiqüssimo e nós não estamos aqui? [risos] Que é isso? Antigo! Música não é antiga, é boa ou ruim, né? Tem muita música moderna linda, maravilhosa.
Almeida  O Sivuca falou a mesma coisa…
Inezita  Falou?
Almeida  Tem música boa e música ruim…
Inezita  Bem tocada e mal tocada. [risos]
Tacioli  Tião Carreiro também falava isso, né?
Inezita  É, né? Tião Carreiro foi um deus, foi um deus. O pessoal o ama até hoje.
Tacioli  Mas a senhora apontou dois momentos: a Bossa Nova e, posteriormente, a Jovem Guarda…
Inezita – É, aí deu uma baixa porque as gravadoras não queriam gravar música caipira, imagina! Na hora da Jovem Guarda era tudo muito… Eu sou agradecida a Papai do Céu, Roberto Carlos e Erasmo Carlos, porque pude ganhar dinheiro com a música deles. E era assim… Dava aula de violão… Um menininho de oito anos queria aprender aquelas coisas [canta] “A namoradinha de um amigo meu”… Era a primeira, segunda, primeira, segunda… E em três aulas o bichinho já estava tocando tudo! [risos] Aí a mãe chegava: “Mas a senhora é um fenômeno!” “Não, seu filho que é!” [risos] Agradeço a Deus, me fez pagar a PUC, a faculdade inteira, né? [risos]
Henrique  Inezita, dava uma amargura por ter que ensinar a música deles e não outra?
Inezita – Não, não dava, não, porque era uma criançada que estava na hora, na vez de Roberto Carlos, Erasmo, Wanderléa. Eles queriam tocar aquilo. Quando descobriram que era fácil e que era muito chato tocar uma música no violão como “Luar do sertão”, essas coisas, eles queriam aquilo. Aí iam pra escola tocar e todo mundo aplaudia. Eu tenho até gravação em fita de audição desses aluninhos que agora são médico, advogado, engenheiro… [risos]
Almeida  Não teve nenhum que virou músico? Ou continuou…
Inezita – Não, quem enveredou, mas não é desse tempo, e sim antes, foi a Eva Vilma. Ela foi minha aluna, e é muito bacana, porque toda entrevista que ela dá, ela fala: “Eu aprendi com a Inezita! Depois na época da bossa nova, eu aprendi um pouco com o Toquinho…” Essa é bacana, ela é uma atriz, né? Fantástica! Ela tinha quinze anos, uma voz muito afinadinha, bonitinha. Toda vez ela agradece, fala de mim.
Tacioli  Nesse tempo a senhora cantava “Calhambeque”?
Inezita  Tinha que ensinar, tinha que conhecer, né? Aí veio Gilberto Gil com aquele no “Domingo no parque”. Todos queriam cantar o “Domingo no parque”. Veio Chico Buarque, aí já ficou mais difícil, porque já é mais elaborado, somente um aluno que já toca mesmo e já sabe cantar, porque essas coisinhas repetidas qualquer criança adora cantar porque é fácil! Chico, Tom Jobim… aí começou a apertar, mas eram os bons alunos que queriam continuar e tocar… É gozado isso. Às vezes eu fico pensando… Agora vocês me fizeram voltar a pensar nessa coisa… Enquanto isso a música caipira estava desprestigiada, o caipira estava desprestigiado… E eu dou aula em faculdade há 24 anos. Os primeiros alunos que eu peguei eram terríveis: “Ah, folclore?! Ah, a senhora fala em folia de reis, blá, blá, blá…” Aí eu pegava tudo, alugava um microônibus, enfiava todos dentro e levava pra Mogi da Cruzes na Festa do Divino. “Vai cair na prova! Quero uma pesquisa de vocês…”. Não havia ainda computador, graças a Deus, né? “Eu quero pesquisa de vocês, trabalho individual…” Aí eles começaram a crescer. Hoje em dia tem uma que é secretária de cultura no Espirito Santo, uma ex-aluna que é professora de um negócio importantíssimo na Bahia, tem um aluno que montou uma loja de passagens aéreas, porque o meu curso é de turismo, né? Ele me agradece todos os anos, me escreve cartão de Natal. Ele está trilionário.

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