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Entrevistas de música brasileira

Inezita Barroso

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Inezita Barroso

parte 14/22

Não vendo a minha arte nem morta!

Fernando – Já que você falou em mudanças, como foi a mudança da música nesse tempo?
Inezita  Não mudou nada. A raiz não muda…
Fernando  Mas mudam as histórias… Os conflitos continuam os mesmos?
Inezita  A mesma coisa… Agora, nessa que eles chamam de sertaneja, eles têm liberdade de fazer as letras que quiserem. Eu não gosto, mas tem gente que gosta. Eu acho paupérrima, sempre a mesma letra, sempre o mesmo ritmo. Nós temos milhões de ritmos no Brasil!
Tacioli  Mas como que foi esse desfecho, já que o produtor queria essas novidades no programa?
Inezita – Ah, não, ele brigava muito comigo. Inclusive um dia nós estávamos lembrando, a Raquel [n.e. Raquel Zorzi, atualmente produtora do programa Vozes do Brasil, da Rádio Eldorado FM] estava junto. Eu saí do palco, acintosamente, porque eles resolveram, eles sabiam que eu não gosto desse negócio de misturar as coisas. E não é questão de idade, de modernismo, nem de nada, é um estilo de música inventado que não tem o pé no chão, é um modismo! E por que não trazer uma música chinesa? É a mesma coisa, não tem nada a ver conosco. Traga uma boa música chinesa! Eu sou meio desaforada… [ri]
Tacioli – Mas, Inezita, qual foi o momento nesses 25 anos que mais se aproximou dessa…
Inezita  Foi o auge desses meninos…
Tacioli  Mas eles chegaram a se apresentar?
Inezita  Não…
Tacioli  Mas quem se apresentou ali que fugiu um pouquinho dessa…
Inezita – Não, ali…
Henrique  O Leandro & Leonardo se apresentou no Viola, minha viola, não?
Inezita – Apresentou muito mal, você viu que porcaria! [risos] Aquele lá não é desse mundo, hein? Ele botou aquilo lá só de raiva! Vamos mostrar como é que eles eram: tudo humilde, né? Tocando! Quando que eles tocaram violão na vida? Então a gente firmou o pé e falou: “Não, não vamos deixar, eles tem um campo muito maior que o nosso! A mídia apóia, ganha o dinheiro, está tudo milionário. E nós os pobrinhos aqui…”.
Tacioli  O Chitãozinho & Xororó…
Inezita – Eles cantam muito bem, são de família caipira. O Zé do Rancho, que é um dos maiores violeiros do Brasil, é sogro do Chitãozinho, sabe? Mas a mídia “Você vai ganhar mais! Imagina, você vai ganhar uma porcaria cantando isso!”. Aí, inventaram aquele tremido da voz que não tem nada a ver, que eu chamo de “esquadrilha da maleita” [risos], estão com 42 de febre. [imita o vício vocal dos intérpretes sertanejos] Ai…” [risos] Não, apesar de tudo isso, eles gostam de mim. [risos] Eles não são contra, eles respeitam, eles sabem onde estão pisando…
Tacioli  Mas eles já se apresentaram no Viola…
Inezita  Chitãozinho e Xororó? Acho que nunca. Eu já cantei em programas com eles na Record e na rádio, mas um tinha 13 anos e o outro 11.
Tacioli  Mas um outro caso…
Inezita – Eles eram queridos do Zé Betio. O Zé Betio promovia os dois. Eles eram umas gracinhas, tocavam mesmo viola, violão e cantavam bem, aquela vozinha de criança… Aí sumiram um pouco. Daqui a pouco me aparecem como uns cabritos! [risos] Eles são assim com o meu sobrinho querido lá de Itatiba. Falo, “Pergunta por que eles tremem? Não são repentistas nordestisnos, não são cabritos! É o frio?!” [risos] Eles mesmos morrem de rir. Alguém inventou aquilo e vieram quatrocentas duplas cantando igual atrás… Por quê?
Tacioli – E, curiosamente, a ascensão deles foi quando incorporaram isso. “Fio de Cabelo” é de 1979…
Inezita – Foi… Quando não tremia muito ainda… E eles quebraram também um pouco aquele assunto família do caipira, né? Porque todos daí começaram a colocar as asinhas de fora, cantar música de amor meio pesado, né? Então, ficou ruim. E a gente chiava muito por trás dos bastidores: “ Não chama!”. Umas duas ou três cantoras que chamaram lá também, Nossa Senhora… Então, falei: “Vai depor contra a gente! Tem um campo aberto pra elas, pra eles; a mídia apoiando, dando dinheiro, a gravadora pagando pra eles entrarem nos programas. Mas aqui não vai pagar, não!” Tentaram, viu? Nessa época foi uma ameaça: “Ah, põe fulano e fulana!” “Quem é?” “Ah, a gravadora está promovendo, ela paga!” “Não, aqui não é caixa de coisa nenhuma, pode ir embora. Aqui é na raça e no peito!”. E outra coisa: de entrarem instrumentos assim, como uma banda. O que é uma banda? Pra mim uma banda é uma banda militar! Então falar “banda” ficou bonito porque era moderno, né? Havia no rock, então tinha que ter lá. Havia teclado, baixo elétrico, guitarra e tudo aqui em baixo… “Põe esses negos sentados, manda tocar direitinho…”. [risos] E várias vezes artistas consagrados já levaram isso, e eu não deixei entrar. Por quê? Porque eles estão fazendo cocô no meu trabalho de 70 anos, né? Se eu pegasse essa linha, eu poderia estar trilionária, mas não quero, não vendo a minha arte nem morta. Eu peguei essa trilha caipira e eu vou nela até o fim. Quando quero cantar popular, eu gravo um disco popular. Quando eu quero cantar as modinhas brasileiras, eu gravo um disco de modinha, mas não vou me apresentar dia-e-noite com um estilo que não seja caipira.

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Inezita Barroso
Música caipira
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