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Entrevistas de música brasileira

Inezita Barroso

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Inezita Barroso

parte 13/22

Uma coisa que eu odeio é versão!

Tacioli  No começo da TV, em seus primeiros dez anos, havia algum programa similar ao Viola, Minha Viola, ou algum que falava de folclore?
Inezita  Não, na TV tinha muita orquestra, grandes orquestras. A Tupi tinha duas orquestras, a Record tinha duas orquestras, uma pra rádio e outra pra televisão. Tinha quatro maestros. E aí veio vindo. A rádio Nacional tinha várias orquestras, várias formações de orquestras. E vinha maestro do Rio. O Gaó trabalhou aqui, o Espártaco Rossi, que era daqui, e grandes maestros do Rio de Janeiro vinham reger a Rádio Nacional. Aí na TV eles já contratavam os maestros, não era avulso. Então foi uma era muito boa. Cantores muito bons, cantores populares ótimos, repertórios maravilhosos, música popular brasileira no auge, com Elizeth Cardoso, com grandes cantoras e cantores, Nelson Gonçalves. Isso era gente que abria o bico e cantava. Agora tem o Lacraia…
Dafne  O Jackson do Pandeiro tinha um programa de TV.
Inezita  Tinha, tinha, ele fez muito sucesso aqui. Veio muitàs vezes.
Dafne  O programa dele conseguia dar visibilidade para os ritmos regionais?
Inezita  Conseguia, conseguia. Ele veio depois do Luiz Gonzaga, bem depois, mas ele fazia muito sucesso aqui, porque a gente não conhecia direito a música nordestina, não havia muitos discos.
Fernando  Eu ia te perguntar isso, Inezita. Na época em que você estava no Nordeste, com a turnê pelo interior, como aquela música te influenciou? Ou isso foi importante para você ver que o negócio era a música daqui?
Inezita – Eu escolhi as daqui porque eles não conheciam. Era uma novidade pra eles que não conheciam “Tristeza do Jeca”, por exemplo. E eu cantava misturava com canções brasileiras, como “Guacira”. Eles ficavam deslumbrados.
Fernando  Mas como a música de lá te influenciou?
Inezita – A música deles? Eu trouxe um repertório muito grande. Comecei logo o Viola, e o Viola é essencialmente paulista e mineiro, mas a gente convida muita gente de outros estados, muita gente boa. Daí eu fiquei muito centrada nisso. Mas quando eu gravo mesmo, como nesse último disco da Trama, não tem nenhuma música caipira. São canções brasileiras com arranjos do Téo de Barros, produzido pelo Faro. Então é uma coisa que eles admitem em mim, porque eu sempre fiz assim desde o começo, sempre lidei com a popular, com a folclórica. [ri ] Às vezes eles chiam porque a pessoa mudou de estilo… Não mudou, meu Deus, se cantar bem em qualquer estilo está ótimo, contando que não seja cowboy ou estrangeiro. Uma coisa que eu odeio é versão. A música retrata a alma de uma criatura única, de uma região única, com um pensamento único, em um local único… Então, se o cara compôs aquilo… E aí chega no Brasil, bota em português… Quer dizer, não pode sentir igual, não pode ser transmitido… Mesmo os grandes que fizeram versões, como o Zé Fortuna que o Cascatinha & Inhana cantaram muito… [canta] “Índia, seus cabelos…” É bonito, muito bem cantado, a voz da Inhana sensacional, combinava com a dele. Fez um sucesso! Ninguém sabe que é uma versão. A outra… [canta] “Meu primeiro amor…”. Guarânia paraguaia, chama-se “Lejania”. [n.e. Música de Herminio Gimenez e versão de José Fortuna e de Pinheirinho Júnior] O que ficou como “Meu primeiro amor” é o amor à terra no original.
Tacioli – E o Bob Nelson era um versionista?
Inezita – Não. O Bob Nelson fazia um tipo de cowboy escrito por ele e aqueles humoristas da época que eram muito queridos… É uma classe que sumiu.
Tacioli – Inezita, o que mudou nesses 25 anos de programa, do começo, da época do Moraes Sarmento até hoje neste aniversário? Quais foram as mudanças positivas e aquelas não tão positivas?
Inezita – Certo. As positivas… A gente conseguiu a duras penas trazer esse programa nesse meu estilo até hoje. A gente procura não ofender os outros, mas dizer “não cante música de cowboy, cante música caipira” ou “não cante versão! Tem tanta música brasileira com letra bonita, por que fazer uma versão?!”.
Tacioli – Chegou a munição. [Rivaldo traz uma dose de uísque para Inezita]
Inezita – Não deixe fotografar senão vai pegar mal. É que meu estômago a essa hora pede e o aparelho só lubrifica com uísque mesmo… [risos]
Almeida  Inezita, quer pedir algo?
Inezita  Não, não. Então, é o seguinte: eu entrei no terceiro programa [Viola, minha viola ]. Era apresentado pelo Moraes e pelo Nonô Basílio, que era um grande compositor caipira, mineiro, e ele cantava também com a mulher. Era Nonô & Naná. Aí eu falei: “Esse programa é pra mim!”. Não tinha nada parecido na TV, porque todo mundo tinha vergonha de ser caipira, tocar viola. “Eu vou quebrar esse negócio. [ri] Eu vou conseguir nem que leve 100 anos!”. Aí o produtor dizia: “Ah, vamos chamar a fulana que canta bem”. Falei: “Canta caipira?” “Não, porque não-sei-o-quê…” “Mas não tem nada folclórico nessa cidade? Não tem catira, não tem folia?” “Ah, mas isso não é pra televisão!” “Por que? É música! É preferível eles se acostumarem com isso a ficar ouvindo versão ou coisinha de cowboy!”
Tacioli  Mas esse tipo de colocação que você teve foi em que momento?
Inezita  Ah, foi desde de o começo…
Tacioli – Como era o programa até sua terceira edição?
Inezita  Não, quando eu peguei já era caipira…
Tacioli  Já era…
Inezita  É, outro dia nós passamos o primeiro programa… 1980, do estúdio lá em baixo… Era Tônico e Tinoco, Liu e Léo, as Irmãs Galvão, que estão desde o primeiro, o Nonô Basílio e o Sarmento apresentando. Então quando eu vi aquilo, aquele primeiro em que eu ainda não estava, falei: “Meu Deus, é aí mesmo que eu vou. Essa é a minha estrada!”. Aí, no segundo eles me convidaram para cantar. Tinha que ser a “Moda da pinga”. Aí eu fui lá mais pra ver o jeitão. [ri] “Ah, aqui dá pra eu cantar o que eu quiser caipira!” Aí no terceiro programa ou no quarto, o programa passou para o teatro, porque lá em baixo não tinha público, não havia estúdio que comportasse. E quando estreou no Teatro Zampari, na Avenida Tiradentes, eu estreei com uma orquestra de violeiros que era de Guarulhos e que já se desfez. Aí cantei o “Rio de Lágrima” (me lembro até da primeira música…). E vim vindo… Aí, sempre o produtor conversava comigo, o Sarmento… O Sarmento odeia esse tipo de música sertaneja, moderninha, que ele chamou de “sertanojo”, esse termo é dele… [risos]
Tacioli  Foi ele quem deu essa…
Inezita  Foi, foi… “Não, sertanojo eu não deixo entrar aqui!” A gente discutia: “Quem vai chamar?”. Aí começaram a se aproximar os grandes nomes: Tião Carreiro e Pardinho, Zico e Zeca, Leôncio e Leonel, que cantaram no domingo passado, são os mais antigos dali, tem uma voz ardida, mas bem afinada, né? Aí começou a aparecer… Aí o programa teve uma fase idiota, assim, “vamos modernizar!”…
Tacioli  Quem falou isso?
Inezita  O produtor da hora lá… Eu falei: “Escuta, modernizar o quê? Uma música que vem dos índios, dos jesuítas? Quer modernizar como?” “Não, vamos chamar umas duplas mais moças…” “Não é questão de idade. Isso que é importante!”.

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