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Entrevistas de música brasileira

Inezita Barroso

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Inezita Barroso

parte 11/22

Isso não é televisão, é um café-concerto!

Tacioli  Nos anos 50, logo que voltou pra São Paulo, a senhora era a musa da intelectualidade paulistana, não?
Inezita  Era.
Tacioli  Como era isso?
Inezita  Era por causa do TBC [n.e. Fundado em 1948 pelo industrial italiano Franco Zampari, o Teatro Brasileiro de Comédia foi um dos responsáveis pela modernização do teatro no Brasil], por causa da Vera Cruz, onde eu filmei seis, sete filmes, né? E por causa dos estrangeiros, principalmente, que vinham para o Brasil trabalhar. Todos eles vieram para a Vera Cruz, eram importados, não havia ninguém, porque ninguém daqui tinha prática de cinema. O diretor que veio foi o Alberto Cavalcanti.
Dafne  Você filmou com ele?
Inezita  Filmei. Eram diretores super exigentes. Aí a Vera Cruz fechou e começaram a surgir as televisões. Todos esses técnicos ficaram no Brasil e se empregaram nas televisões, inclusive maquiadores. E eles eram muito exigentes. Nesse tempo a televisão era ao vivo, havia ensaio de tarde, cinco horas da tarde, com a roupa do programa, o técnico lá em cima, na casinha dele. Iluminadores, fotógrafos. A câmera tinha trilho, como no cinema, “Você vai passar por aqui.” Ensaiava-se tudo, som, luz. Depois quando começaram aqueles programas de auditório, que o César Alencar inventou, aí misturaram alhos com bugalhos, que eu sou contra isso até hoje, é um pianista, depois um humorista, depois um samba, depois uma música erudita, um soprano. Então, não é televisão, é um café-concerto onde você vai pra ver várias coisas. E pegou porque isso era mais barato. Todo mundo com a mesma maquiagem, todo mundo com a mesma luz, todo mundo no mesmo palco. “Agora você!”, aí entrava. Acho que foi aí que a televisão começou a minguar, a perder aquela seriedade. O nego estava lá às quatro horas da tarde já iluminando pra não cansar, porque era ao vivo. Você não podia errar. Teatro, Cacilda Becker morreu de fazer teatro na Record, no comecinho, né? Não dava pra errar, não havia ponto, não havia nada, não havia falsidade, não tinha microfone, eram aquelas girafas. [risos] Então, eram outros tempos. Depois foi popularizando e foi mudando. Teve uma época em que me chateei… E fiquei quase oito anos fora da televisão.
Tacioli  Quando foi?
Inezita  Foi na década de 60, 70, quando entrou a Jovem Guarda, aquela coisa de…
Tacioli  A Jovem Guarda te chateou, Inezita?
Inezita – Não, não é que eu não gostasse deles, é um gênero. Mas era muito mal feito o programa. Quem está acostumado com uma classe de técnicos de primeira… E você via aquilo lá que era “Agora entra você” e entrava a Wanderléa. “Agora o Roberto Carlos!”, “Vamos, Roberto! Vamos, Roberto!”. Depois foi facilitando, porque daí já havia vídeo, já era colorido, o nosso era fogo. Tinha que ver a imagem branco-e-preto, que era dificílimo. Era cinema. Maquiagem diferente. Então eu aprendi muito, muito, muito.

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