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Entrevistas de música brasileira

Inezita Barroso

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Inezita Barroso

parte 10/22

O Juscelino toda hora me chamava pra cantar em Brasília

Tacioli  Inezita, a senhora falou que os estrangeiros gostavam e eles lançavam seus discos, mas você não sabia. Que tipo de música eles gostavam?
Inezita  Esse tipo de música brasileira, folclórica, regional, caipira, nordestina. Você vê que o Luiz Gonzaga fez muito sucesso por lá também. Eu lembro da Dalva de Oliveira [n.e. Uma das cantoras mais famosas dos anos 1930 aos 60, a paulista Dalva de Oliveira (1917-72) vocalizou sucessos como “Errei sim”, “Tudo acabado”, “Segredo”, “Olhos verdes”, “Ave Maria” e “Bandeira branca”], que gravou o primeiro baião com a orquestra do Roberto Inglês na Inglaterra. Arrasou, né? [canta] “Calú, Calú / Tira o verde desses ói de riba d’eu.” Nossa, aquilo foi um sucesso na Inglaterra. Mas ninguém falava em milhões de discos, isto aí é meio furadão. Acho que a única criatura que vendeu milhões de discos na carreira foi o Frank Sinatra. Aí pegou a moda, né? ”Porque vendeu não sei quantos”, sem contar que quando não fazia sucesso, era devolvido. Então não vendeu. Enchia a vitrine, a pessoa ia lá: “Não quero, só tem duas músicas boas”. Como sempre, LP, CD. Aí o lojista devolvia pra fábrica. Esse pedaço eles não contam. Eu fui fuçar, sou xereta. Devagarzinho vou indo, vou indo. Chegava na Avenida São João: “Tem disco da Inezita?” “Ah, tem. Tem uns três aqui no escaninho.” “Três, só três?” “Não, porque já vendeu tudo.” “E quantos o senhor vendeu?” “Ah, vendi isso, vendi aquele.” Aí vem a conta, vendeu quatrocentos, é assim, seis, oito discos. Uma vez eu gravei “A Moça e a banda” com a Banda da Força Pública, cuja banda eu adoro de paixão. Canto com eles toda hora. Agora é a Banda da Polícia Militar. Eram os hinos brasileiros. E aí saiu o disco perto de 7 de setembro por aí. [Barulho de carro arrancando, cantando pneu] Epa, Fittipaldi! São uns loucos! Isso é carro roubado, viu? Aqui no bairro, ó. O de vocês está na porta? [risos] Então eu estava contando. O presidente era o Juscelino, que eu amava de paixão. Ele gostava de mim também. Toda hora me chamava pra cantar em Brasília. Brasília não tinha nada, apenas uns quatro prédios. E era muito gostoso isso. Aí falei: “Meu Deus do céu, manda uma caixa desse disco com a banda pra ele.” Porque são os hinos brasileiros, Hino à Bandeira, Hino da Independência, da Proclamação da República, Cisne Branco. Era lindo esse disco. Vende até hoje. E eles mandaram uma caixa desse tamanho pras autoridades. “Agora você autografa e nós vamos distribuir pra eles.” Veio com um selo branco: “Exemplar especial para divulgação. Invendável”. “Não posso mandar um disco desse para o presidente, para o governador de um estado.” Aí eu comprei mais duas caixas. Chegou com o rótulo normal, de público, de vender na rua. Aí eu autografei, foi entregue, eles amaram e pediram mais. Chegou a conta. Eu havia comprado quase cem discos. E o relatório dizia “A moça e a banda, 21 discos”.
Fernando  Que foi a quantidade vendida?
Inezita  Aí fui lá, né? Falei: “Vinte e um discos? Será que eu comprei… Está ao contrário, né? Foram cento e vinte e um e não vinte e um!” Tirava um sarro também, fazer o quê? Você não tem defesa. Não tem nota fiscal. Nota fiscal é tudo misturada. O lojista mostrou pra mim: tantos discos da Copacabana, tantos discos da RCA Victor. “Desses, quantos foram meus?” “Ah, não sei, está misturado, não sei se são os da senhora?” É uma coisa triste… Essa história de mexer com dinheiro acaba com tudo, acaba com tudo.

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Música caipira
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