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Entrevistas de música brasileira

Inezita Barroso

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Inezita Barroso

parte 9/22

Recebi seis reais de direitos autorais

Max Eluard  Nessa viagem pelo interior, o que você cantava nas rádios?
Inezita  Música de São Paulo, do Rio Grande do Sul. Era um sucesso, porque ninguém antes de mim foi.
Fernando  Eram músicas tradicionais do sul?
Inezita  Era “Tristeza do Jeca”, o próprio “Boi amarelinho”. Quando eu peguei na viola e cantei uma moda, aquilo veio abaixo, porque é muito diferente.
Max Eluard  E eles gostavam, eles queriam ouvir essas músicas?
Inezita  Amavam, amavam, porque nós fizemos um tipo de uma troca, foi quase a mesma época em que o Luiz Gonzaga veio pro Sul. Foi aquele sucesso. E eu fui pra lá. Depois encontrei muita gente que viajou o mundo inteiro, principalmente japoneses que vinham pra cá sem saber falar nem A, com intérprete. A intérprete: “Ela chegou agora de Tóquio. Veio ver o seu recital aqui em São Paulo. Ela queria um autógrafo no seu disco”. “Que disco? Ela comprou algum disco?” “Não, disco do Japão!” Aí eu olhava aquele disco! Pra você ver como a pirataria já vem de longe, não é na 25 de Março, já vem de longe! Era um LP de 12 polegadas, com o mapa do Brasil, havia uma divisão diagonal, lá em cima o Luiz Gonzaga de sanfona e chapéu de vaqueiro, e aqui embaixo eu de chapéu de caipira e viola. “Mas onde ela achou isso?” “Sucesso no Japão!” Tudo escrito em japonês.
Max Eluard  Isso foi recentemente?
Inezita  Não, foi na década de 60, 70.
Fernando  E a senhora nem ficou sabendo disso?
Inezita  Imagine, aqui não avisam, porque eles vão avisar? [ri] E um cronista, que era do jornal Última Hora, também foi fazer um trabalho na França, e de lá ele escreveu pra mim, fez um escândalo, porque ele passou numa vitrine de música e a vitrine inteira era disco meu, com violão. Já se usava fazer isso. Nunca vi um tostão disso na minha vida.
Fernando  E eram discos diferentes dos seus?
Inezita  Eram, eram coletâneas do que eles gostavam mais. Porque eles não são bobos. Quem inventou é que… nem quero ver. Por isso eu não fiquei odiando esses caretas que vendem discos na 25 de Março. A maioria das gravadoras não paga direitos. Agora estou numa séria, que é a Trama, que me paga. Mas até agora, com 51 anos de carreira, somando tudo, com grandes sucessos como “Lampião de gás”, “Moda da pinga”, eu posso dizer a vocês que eu recebi R$ 20.000,00 em cinqüenta anos. Recentemente eu gravei numa, que eu não vou xingar porque é muito recente. Gravei três discos e de vez em quando vem a conta dos direitos autorais… Da última vez eu recebi R$ 6,00.
Fernando  Seis?
Inezita  Meia dúzia. Eu falei: “Mas não é possível, estão brincando comigo”. Não, ainda tinha que receber na fábrica, que era na estrada não-sei-das-quantas… Daí essa gravadora sumiu também, nunca pagou. Gravei na Victor, RCA Victor, que pagava era direitinho. Depois passei pra Copacabana, onde fiquei 18 anos. No fim eles já lançavam discos [coletâneas] em que eu não participava da seleção. Eu ia passando na rua e via numa vitrine: “Nossa, que moça parecida comigo, deve ser a minha filha, mas ela não é cantora”. Eu chegava perto. A minha filha é muito parecida comigo. Antigamente era mais. Daí eu entrei e falei: “Que disco é aquele?” “É Inezita Barroso.” A fotona na capa lá, ainda era LP, vinil. A foto, a contracapa igual, mesma coisa que eles tinham e tudo. Inezita Barroso desse tamanho.

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