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Entrevistas de música brasileira

Inezita Barroso

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Inezita Barroso

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Na cola de São Gonçalo

Numa praça no centro de São Paulo há uma igrejinha. Dessas com bancos de madeira, Via Sacra nas paredes, confessionário e sacristia. No altar, bem, no altar não há nada. O santo que dá nome à igreja não está lá. Simplesmente a imagem de São Gonçalo não existe na cidade.

Essa foi uma das histórias que Inezita nos contou. E esse é um de seus projetos, localizar e presentear a igrejinha com a figura do santo protetor dos violeiros.

Histórias boas não faltaram na noite em que o Gafieiras ficou ali, ao pé de uma janela grande e alta, dessas que se derramam pela calçada. Janelas de casas do interior, de São Paulo de outro tempo. E nela, a moça de trajes da mesma cor do batom, com os olhos ligeiros mas menos que o sorriso, largo e eterno, disposta para conversar… Foi assim, ou melhor, mais ou menos assim, sem janela e sereno, mas numa pizzaria em Santa Cecília, bairro da capital paulista em que reside nossa entrevistada.

Inezita narrou o tempo em que assistia à passagem de Mário de Andrade pela rua de sua casa; o tempo em que ouvia as lições da professora de violão; em que fugia para as fazendas da família. Saltou para o agora, para as crônicas do Viola, minha viola – programa que comanda na TV Cultura –, dos discos de carreira, das aulas em faculdade e das miudezas do dia a dia. O bate-papo, pontuado por doses de uísque e imerso em bom-humor e contradições, passou de três horas e ainda deixou de visitar os ranchos de Raul Torres, Cornélio Pires e João Pacífico.

Inezita comemorou 80 anos de vida há pouco. Soltou fogos também para os 25 do Viola, marco na TV brasileira, tanto pela trajetória, quanto pelo tema – a música e os costumes do caipira. A idade não é um problema. Com fôlego de menina, ela dribla o descaso do Estado e dos meios de comunicação com as coisas da terra, do caipira, do Brasil. Não vai tirar seu time de campo. Tem mais o que fazer. Problema mesmo é a falta de tempo para tantos projetos. E eles têm um único fim: manter vivas todas as histórias que assistiu e que ouviu. Mais ou menos como se fosse uma protetora do caipira. Tá certo, São Gonçalo não é bobo. Ele correu para outras bandas porque sabe que aqui a Inezita toma conta.

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