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Entrevistas de música brasileira

Herminio Bello de Carvalho

Herminio-940

Herminio Bello de Carvalho

parte 7/18

Eu devia ter sido mais cuidadoso para ser menos fudido

Tacioli  Mas esse olhar que você tem é o mesmo de quando você fez o Rosas de Ouro?
Herminio  Não, não, eu não respondi direito ainda… Vocês perguntaram se há 40 anos… Há 40 anos é aquilo que falei no início, contextualizando a minha vida. Eu tinha a Escola Deodoro, eu tinha o Canto Orfeônico, eu tinha a opção de ir aos Concertos da Juventude, e eu freqüentava espontaneamente as aulas de interpretação da Magdalena Tagliaferri como ouvinte. Ficava lá vendo aquela mulher de cabelo vermelho, derrubando os teclados, que maravilha era! Fui privilegiado! O que a gente tenta fazer hoje não é reviver aquela época, é reformular aqueles procedimentos, adequando à realidade de hoje. Hoje você tem uma mídia, tem mídias fortes que pode usar. Tem outras mídias que você que a tecnologia criou, como agora eu estou falando em MP3, vocês estão filmando, que é uma coisa maravilhosa que não pude fazer na minha época quando perdi depoimentos importantes. A minha casa era uma casa freqüentada pelo Tom, Caetano, Pixinguinha, Elis, Elizeth, Capiba, Luiz Gonzaga. Era uma casa para onde ia muita gente.
Almeida – Não há esse registro nem em áudio?
Herminio  Em áudio eu tenho muita coisa. Muita coisa que posso perder daqui a pouco, porque sou um cara que, aos 70 anos de idade, não conseguiu fazer dinheiro. Sou um cara que vivo modestamente, porque nunca tive por objetivo ser um cara rico. Eu devia ter sido um pouco mais cuidadoso para ser menos fudido [ri], mas não fui. Então vivo hoje modestamente. A minha vida, embora ela tenha esse vulto de realizações, de discos, uma coisa vasta, nunca me rendeu grana, entendeu? Num determinado momento eu até ganhei bem, um dinheirinho. Tenho o mesmo apartamento que eu tinha há 30 anos, modesto. E vivo, faço trabalho como compositor, o que me rende muito pouco; me rende também se uma música faz mais um pouquinho de sucesso, como há um tempo o “Timoneiro”, com o Paulinho da Viola, o “Chão de esmeraldas”, em parceria com o Chico que me rendeu algum dinheirinho. Mas isso é muito pequeno em relação aquilo que se ganha lá fora, numa sociedade mais bem organizada. Me lembro que uma vez eu estava com o Bardotti na Itália. Fui com o Oscar Cáceres pra Europa. Fui numa conferência, uma coisa assim, e resolvemos passar o Natal vendo a Missa do Galo no Notre Dame e passar o fim do ano na Itália. Na catedral de Notre Dame foi um horror, porque era quase um mercado persa. Antes de começar a missa vendia-se santinhos, terços, era uma coisa assim, um mercado persa! Eu saí: “Não quero ver essa missa!”. Saímos revoltados com o mercantilismo. E fomos para a Itália de trem. Nos hospedamos num quarto que podíamos pagar. E avisaram o Bardotti da minha presença. Essa época, 1974, 75, eu estava já na Sombrás, lutando por direitos autorais. Eu era vice-presidente, o Tom era o presidente. A diretoria era formado pelo Gonzaguinha, Maurício Tapajós, Aldir Blanc, Victor Martins, Macalé; aquela turma toda. Aí o Bardotti foi para o hotel e nos levou pra casa dele, uma casa suntuosa, perto de um castelo. A gente conversando, um almoço maravilhoso, quando ele disse: “Vem cá, os hotéis estão lotados?”. Eu digo: “Por que?” “Por que vocês estão naquele hotel?” “É o que nós podemos pagar!” Ele parou: “Você não é rico?” “Não!” Aí contei a história toda. Ele fala bem português, é tradutor do Chico, do Vinicius. Fizemos até um samba juntos nesse dia de porre, uma meia versão. E ele me deu pra trazer de subsídio seus próprios holerites. Um gesto muito nobre, muito aberto; uma fortuna! Ele não entendeu como eu, já um compositor cujas músicas ele conhecia bem, não era rico e havia ficado naquele hotel. Isso aí não é um atestado de miserabilidade, nem de pobreza; é um atestado de um artista que teve de tempo 25 anos numa empresa de comunicação e o que veio de arte… Sempre foi uma coisa muito pequena, de muito sacrifício, muito mal paga. Embora eu reconheça que tenham colegas meus que tiveram uma carreira exitosa, porque fizeram somente isso, e fazem muito bem e merecem ter o que têm, a minha atitude é outra… É o que sempre falo: em uma entrevista que dei, o jornalista ficou meio confuso com a história da imagem difusa que tenho diante do público, da minha invisibilidade ou da pouca visibilidade difusa. Um cara que ora está lutando pela memória da Clementina de Jesus, ora produzindo os discos antigos da Elizeth; aquele cara que produziu os últimos discos do Pixinguinha, que ora está na Sombrás, ora está fazendo a Escola Portátil de Música, e que, de repente, dizem “Ah, ele é letrista? Ele é poeta também?”. Então, essa quase invisibilidade atesta bem o Brasil.

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