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Entrevistas de música brasileira

Herminio Bello de Carvalho

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Herminio Bello de Carvalho

parte 5/18

O Gabriel, o Pensador, é um versador da melhor qualidade

Tacioli  Existe uma missão pra você?
Herminio  Ah, missão?! Eu não gosto dessas coisas. Missão parece aquele negócio do cara que vem esfarrapado, cabelo…
Almeida – Um salvador.
Herminio  Salvador, não…
Max Eluard  Como manter esse interesse pela música que está sendo produzida no seu tempo?
Herminio  Primeiro lugar: você não pode ser preguiçoso. Tem que buscar as coisas onde elas estão acontecendo. É preciso ter um certo filtro pra saber se é um modismo e não ter muito interesse histórico. Você, às vezes, não tem capacidade de determinar se aquela coisa será reassimilada, se ela vai ser reformatada, reformulada e vai virar uma outra coisa. Quando o iê-iê-iê, a música jovem de fora, chegou ao Brasil, era uma coisa ingênua, mas que foi tomando uma forma mais agressiva até chegar aos Titãs, ao Barão Vermelho, com mensagens mais agressivas, chegando até ao hip hop. Também não conheço bem o hip hop, mas algumas coisas que eu vi são muito interessantes, como o rap do Gabriel, o Pensador, que é um versador da melhor qualidade que, numa outra escala, ele faz o que o Aniceto fazia, o que a Clementina fazia, inventar versos, contar histórias, como os contadores, os repentistas. Tanto que no espetáculo O samba é minha a nobreza colhi depoimentos não somente dos sambistas sensacionais, como Dona Ivone Lara, Elton Medeiros e Monarco, como também colhi do Frejat e botei o Gabriel, o Pensador, que convocou os meninos para as sessões pedagógicas. Então, há três anos quando eu fiz O samba é minha nobreza, uma turma da Lapa que estava começando a aparecer – Teresa Cristina, Paulão, Pedrinho Miranda, Pedro Paulo – capitaneada pela Cristina Buarque, uma pessoa muito importante nesse processo, porque é uma cabeça pensante, tem a inteligência e a argúcia da Aracy de Almeida, selecionei o que eu gostava, ouvi o que eles faziam e fui agregando. Essa é a posição do cara que não é o dono da verdade. Tenho horror dos donos da verdade ou dos caras que pensam que inventaram a roda. Ninguém inventa porra nenhuma! A minha vida é ouvir e, de repente, fazer com que essas coisas tenham um pouco a minha cara. Quem viu o Rosas de ouro em 65 e viu O samba é minha nobreza em 2003 percebeu no fundo era quase a mesma coisa. No Rosas de ouro tinha uma coisa inovadora, que foi a projeção de slides de um filme do Cartola, com depoimentos do Pixinguinha, do Almirante, da Elizeth, do Luís Rangel, enfim, os grandes baluartes, os grandes nomes da música popular brasileira. Na pesquisa, Sérgio Porto e o Sérgio Cabral. Hoje há o contraponto disso, fazer um espetáculo com projeção de filme em que você pega uma outra geração, misturando Ivone Lara, Monarco, Elton Medeiros, Frejat e Gabriel, o Pensador, e faz uma coisa bonita, entendeu? E no fundo o ponto ideológico que eu queria abordar está nos dois espetáculos, com todos esses anos de diferença, quase 40 anos de tempo… Mas como é que você vai fazer com que o jovem se interesse? Pensei numa coisa assim: havia uma amiga minha, a Felícia, que ela trabalha com criança. Ela forma platéias de cinema. “Felícia, quero fazer umas seções extras de O samba é minha nobreza para a rede escolar.” Se você não formar platéias, você vai ter somente aquelas cabecinhas brancas, como vejo no programa da grande Inezita Barroso, que não renova a platéia. Então, o que fizemos? Fizemos 24 sessões pedagógicas, que eram peças que abordaram dez mil crianças da rede escolar, crianças que não teriam capacidade de ir ao teatro e que foram levadas, incluindo grupos de jovens que estavam presos em sistemas carcerários. A gente mexeu com essa história, a gente botou isso para as crianças verem. E esse grupo, o Afro-Samba, nasceu ali. Eu soube depois que eles foram ver o espetáculo diversas vezes. Teve gente que viu o espetáculo trinta vezes. Isso era lindo! Eu acho que esse trabalho que a gente fez, como há na Escola Portátil de Música, que é uma outra história e que tem a mesma proposta de gerar o interesse no jovem e de valorizar sua inteligência que, às vezes, está adormecida, entorpecida pelos processos de imbecilização dos meios de comunicação, abre uma porta pra ele poder, minimamente, escolher o cardápio que quer ouvir. E não um cardápio que lhe é imposto.
Tacioli  E não impor também…
Herminio  Não, não impor, mas apresentar… Ele pode gostar ou não. Geralmente ele sai fascinado, porque vê um espetáculo bem feito, bem iluminado, com projeções lindas e também com gente contemporânea, que eles gostam, como o Barão Vermelho. Aí passam a admirar também aquela turma linda que está no palco e que é jovem – o Pedrinho Miranda, o Pedro Paulo, a Teresa Cristina, a Nilze Carvalho, o Paulão, que é um cara super versado. Além do velho Roberto Silva, com 84 anos de idade, esbanjando vitalidade, e a irmã do Delegado, dançando miudinho no palco e levando a platéia ao delírio. Infelizmente o espetáculo não pôde vir pra São Paulo, mas ele é em síntese daquilo que eu trabalho, daquilo que tento e que vou fazer agora na quarta-feira, no último dia do espetáculo Timoneiro no Rio. Haverá uma sessão pedagógica. Será um espetáculo curto, de uma hora, precedido de um documentariozinho em que a Bethânia e o Chico me apresentam, uma coisa bonitinha que fizeram. E a garotada vai vendo um espetáculo dos mestres tocando pra eles.

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