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Entrevistas de música brasileira

Herminio Bello de Carvalho

Herminio-940

Herminio Bello de Carvalho

parte 4/18

Por uma parte do ser humano tenho certo desprezo

Tacioli  Você tem as lembranças dos efeitos da Segunda Guerra no Brasil?
Herminio  Horror.
Tacioli  Você tinha uns 10 anos. Como era?
Herminio  Sempre havia o susto de ver os meus irmãos mais velhos convocados para a guerra. Então, sempre que saía uma convocação, a gente via no jornal se era convocado ou não. Era um susto meu, pessoal, uma coisa forte. Eu ficava assustado com essa possibilidade de ver meu irmão ir pra guerra e voltar mutilado. Eu me lembro que, quando acabou a guerra e os pracinhas voltaram, eu fui ver aquilo. Era garoto. Era uma alegria ver aquilo, mas também tristeza em ver aqueles mutilados. E, sobretudo, aquela visão dos cadáveres sendo jogados, ou caminhando nus para a incineração, ou, ainda, sendo jogados naquelas valas. Isso é uma imagem que eu não consigo ver sem entrar numa depressão horrorosa.
Max Eluard  E o que a guerra influenciou no seu dia-a-dia?
Herminio  A guerra terminou em 45, né; eu tinha dez anos, mas peguei a guerra, de tomar conhecimento dela dos sete aos dez anos de idade. Evidentemente que você é bombardeado pelos jornais. Na época havia as rádios. Eu ouvia rádio quando podia, estudava… Eu não tinha muito acesso. Hoje, não, você tem as guerras, o Iraque é transmitido, é lincado direto, você vê o cara, o homem-bomba lá. É uma informação muito mais direta hoje em dia.
Max Eluard  Porque você viu a guerra bem no período em que as pessoas começam a tomar consciência de que é uma pessoa, com seis, sete anos de idade.
Herminio – E, sobretudo, a coisa da família, de ter irmãos na faixa etária que poderiam ser convocados. Era um pavor perder um irmão! Era essa a coisa. Sobre a guerra em si, o conflito ideológico, eu não tinha muito conhecimento. Eu não tinha idéia do judaísmo, o que isso significava. E hoje eu tenho. Aí o horror é acumulativo. Eu consigo ter esse horror permanentemente revisitado quando vejo uma cena. E tanto que até há pouco tempo, eu tinha um livro sobre o Holocausto e eu dei. Me vazia tão mal. “Não quero, não!” e passei a informação pra uma pessoa que estuda isso. Não queria mais saber daquilo, porque me fazia mal. Isso faz com que eu sinta pelo ser humano, por uma parte do ser humano, certo desprezo, certo horror.
Almeida  Foi um trauma, né?
Herminio  Foi, foi. Como também todas essas coisas que aconteceram, pelo amor de Deus, lá no Harlem. Tudo que acontece, como a chacina de Vigário Geral. Os 111 mortos do Carandiru… Tudo isso são coisas que massacram. A convite de um amigo, fui conhecer um grupo de samba de lá. Eu relutei, mas fui. Fui lá e passei por aquela praça onde ficaram expostos os caixões da chacina de Vigário Geral. Passei por ali e localizei o local, evidentemente. Dali passei para um estudiozinho mixuruca, onde os meninos de um a dezessete anos ensaiavam, um grupo de samba que é um braço do Afro Reggae, é o Afro-Samba. E o Afro Reggae é um movimento do MV Bill, em que ele tenta uma inserção dos jovens dentro da sociedade por meio da música, do hip hop. Fui assistir os meninos. Tanto que esse meu novo disco incorpora alguns segmentos que admiro. Aí, quando fui lá, vi os garotos… Essa última faixa é uma incorporação desses segmentos sociais. É o “Siri na lata”, que é um grupo que acompanha o José do Manguezal na luta pela preservação do manguezal da Ilha do Jequiá. Tem o pessoal do Afro-Samba que eu trouxe pro disco, tem os Meninos de Cordeiro, da Escola Portátil de Música, tem a Luciane representando um pouco o Jongo da Serrinha. Enfim, nessa ultima faixa eu agrego essas correntes de tempos que escoam na minha vida. E, pontuando isso e que me deu uma força quase telúrica, tem a voz do Zé Bentinho, Zé Bento Farias Ferraz, que foi secretário do Mario de Andrade e que está vivo aqui em São Paulo. Ele lê um poema meu, um trecho do “Timoneiro”. Então, você tem ali exatamente o que eu penso da música, agregando sempre coisas novas, juntando as coisas passadas… Não sei se aquele menino que canta o “Timoneiro”, com aquela vozinha infantil, vai ser um grande cantor… Eu não sei! Mas aposto que alguma coisa vai acontecer com ele… Eu sei que isso é a marca da minha vida… Agregar! Sempre juntar! Um traço de união! Eu gosto disso.

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