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Entrevistas de música brasileira

Herminio Bello de Carvalho

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Herminio Bello de Carvalho

parte 3/18

Dizer que sou o caçula aos 70 anos de idade é ridículo

Almeida – A musicalidade de sua família vem de seu avô?
Herminio  Eu acho que vem. A minha casa era uma casa muito festeira. Papai era muito festeiro, mas sobretudo concentrado, porque éramos em seis irmãos e uma só irmã, que era o xodó da família. A economia interna da casa permitia que se guardasse um dinheirinho pra gente festejar aquele aniversário, ou o Natal, rabanada. Papai era um bom cozinheiro. Ele fazia coisas ótimas. O macarrão dele era famoso. O macarrão não é tão difícil de fazer, mas têm uns pratos que são muito melhores que os outros, não têm? Tem essa história… E eu tenho a sensação de que minha mãe não cozinhava bem. Meu irmão disse que ela cozinhava bem. Eu não me lembro da minha mãe cozinhando bem. Ela era aquela mulher braçal, que ia para o tanque lavar toda a roupa dos filhos, passar, cozinhar, entendeu? Era uma dona de casa em tempo integral. Dona Francisca… Dona Chica foi uma grande companheira do Seu Inácio, e se separaram depois de 50 anos de casados.
Almeida – Que loucura!
Herminio  Separaram e foi definitivo.
Almeida – Mas a separação foi anterior à sua saída de casa?
Herminio  Não, foi posterior. Sou o mais novo da família.
Tacioli  Você é o caçula?
Herminio  Sou o caçula. Dizer que eu sou o caçula aos 70 anos de idade é ridículo, mas o que eu vou fazer?
Almeida – Como foi essa separação pra você? Um casamento com cinquenta anos parece eterno, não?
Herminio  Pra mim não chegou a se constituir em uma surpresa. Foi traumático porque o papai saiu de casa repentinamente por uma discussão dessas que a gente não sabe como elas se dão. É uma gaveta que cai, um copo que se quebra… Ela disse: “Ó, Inácio, mais uma vez!”, uma coisa assim. Ele saiu de casa e foi encontrado três dias depois perdido. Ele pirou, surtou com aquilo e foi encontrado dois ou três dias depois. A gente distribuiu fotos dele pelo caminho até Rio Bonito. Ele foi encontrado muito queimado de sol. Ele caminhava, adorava caminhar. Não pegava ônibus, bonde, nada. Ele ia a pé. Pegou a barca pra Niterói andou a pé. Com muito sol no caminho ficou queimado. Foi encontrado ainda meio no estado de torpor. A gente levou certo tempo pra entender que aquilo já era o início de uma esclerose que logo avançou… E aí foi o fim.
Almeida – Mas você falou dos aniversários, dos natais em casa… Como eram esses aniversários?
Herminio  Sempre havia um cara que tocava frevo e todo mundo cantava. A minha irmã estudava piano e canto com o professor Faini, que era pai da Suzana Faini, atriz que até hoje é nossa amiga. Além de ser uma casa musical, se ouvia muito rádio, muito rádio mesmo. Ouvia-se música clássica, até porque eu freqüentava o canto orfeônico. Adorava aquela coisa do canto orfeônico do Villa-Lobos. Eu estudava em uma sala em que, às vezes, o Villa-Lobos com a Mindinha e o Lorenzo Fernandez, apareciam para inspecionar. Era um encanto isso pra mim! Na minha casa havia essa coisa musical, muito musical. Não que a minha irmã viesse a ser uma pianista famosa, nem uma boa pianista, nem uma boa cantora, mas eu ia às aulas com ela, acompanhava as aulas e adorava ver aquelas vocalises, aquelas escalas que ela fazia e, sobretudo, ficava trêmulo de medo quando ela cantava uma escala que tinha uma nota aguda. Eu tremia diante daquela paixão que tinha pra ela não errar aquela nota. Era uma maravilha, uma maravilha! Então, era assim uma família musical nesse ponto, mas acredito que essa musicalidade tenha, sim, me influenciado. Fui o único cara da família que se direcionou mais para a arte. E, agora, um sobrinho meu, o Saulo, filho da minha irmã que toca violão muito bem e que tem um estúdio. Pela primeira vez ele vai me ver atuando. Nunca tinha me visto. Na família houve certa diáspora, mas não muito violenta.
Almeida – E você sente isso?
Herminio  Não, porque tenho muitos amigos, né? Vir pra São Paulo significa estar com outras famílias. A minha vida foi sendo tateada, né? Numa certa época eu conheci a família Castilho Carino, que é uma família bem italiana e que, de repente, me adotou como um filho. Então, era tia Mena, tia Iolanda… Sabe, eram as tias, novas tias. Depois, lá em Três Rios, já era a família Vileri. Então, sou tio e primo de uma porção de gente que não são nem meus tios, nem meus primos. E nessa outra família tem uma menina, já tem uma filha médica, e que é uma pessoa bastante modesta que, quando foi a um show meu, tomou uns gorós a mais e chegou à mesa e “Essas músicas todas são do meu primo!”. Tanto que no último dia de um dos shows que eu fiz agora, eu fiz uma homenagem a ela, pra dizer que sou primo dela. Na verdade, ela não é prima de sangue, mas é mais do que isso. Isso é importante! E tenho aqui o Helton, que é um irmão. A Elenice, minha irmã querida. E os filhos deles. Sou o tio Herminio, que eles abraçam, beijam. Tenho essa família. Até fixando uma teoria, que não está provada cientificamente, que é a do Julato, dos judeus mulatos, né? Talvez eu seja o primeiro julato! [risos] Isso é do marido da Cristina Buarque, o Homero, que tem essa teoria dos julatos. Eu tenho, em homenagem aos meus sobrinhos, a cruz de Davi. Eu ganhei esse cordão da Simone no dia do meu aniversário e agreguei essa estrela de Davi em homenagem aos meus sobrinhos. Embora eu não seja judeu, faço questão de homenagear, porque tenho horror do que aconteceu, daquela guerra terrível, do Holocausto, que é uma marca muito funda na minha vida.

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