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Entrevistas de música brasileira

Herminio Bello de Carvalho

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Herminio Bello de Carvalho

parte 2/18

Meu pai tratou dos pés e das mãos da Carmen Miranda

Tacioli – Qual a sua primeira lembrança de ir ao bar como frequentador?
Herminio  Eu acho que, pela proximidade, já que eu morava ali, foi a Taberna o bar que eu mais freqüentei. Depois freqüentei um pouco o Recreio, bastante o Lamas… O Lamas foi muito forte. No Recreio eu tinha amigos mais velhos, e o Walter Wendhausen, um artista de vanguarda, era um deles. Ele e o Luís Canabrava, que são autores de capas de discos da Elizeth. Aquela capa do disco Elizeth sobe o morro é do Walter Wendhausen. O Elifas [Andreatto] diz que aquela capa influenciou todo seu trabalho gráfico. E o Luís Canabrava fez diversas capas para a Elizeth e para a Dalva de Oliveira. Eram amigos meus. Eu tinha 16, 17 anos de idade. E eu ia pro Recreio e me encantava. Eu não tinha grana pra tomar o que eles bebiam, então pagavam pra mim um copo de chopinho. Eles tomavam gin Gordon. Eu tomava um gin nacional. Imagina, um gin já era um atentado! De repente, eu vi o Ary Barroso com a Elizeth entrarem no bar. Nessa época, a Elizeth namorava o Evaldo Rui, irmão do Haroldo Barbosa [n.e. Jornalista, letrista, compositor, humorista e dramaturgo carioca (1915-1979)]. E eu via os meus ídolos entrarem no bar. Mas sempre eu fazendo o papel daquele menino assustado com a vida, com a descoberta da sexualidade e tudo. Era uma coisa maravilhosa! E vivendo dentro de uma casa, onde havia a Eneida, o Paschoal Carlos Magno… Atores, pintores… Era uma casa onde se discutia muita arte. Então, o meu sonho de criança, que era a minha formação de menino que foi privilegiado pela escola pública quando havia o canto orfeônico, quando se faziam exercícios físicos… A gente podia freqüentar o Teatro Municipal, assistia os Concertos para a Juventude. [n.e. Série idealizada em 1942 pelo maestro Eleazar de Carvalho para a Orquestra Sinfônica Brasileira, fundada dois anos antes] Assistias as aulas da Magdalena Tagliaferro. [n.e.Uma das mais destacadas pianistas brasileiras (1894-1986)] Ia pro Siena, pro Trianon ver aquelas sessões de passatempo que, aliás, virou até o nome de um show que fiz, que era um recorte de coisas que aconteciam. Eram filmes curtos, curta-metragens. Então, a minha vida, aos 16 anos, teve essa surpresa de encontrar dois homens bem maduros, um egresso da FEB e o outro pintor; os dois pintores modernos e que, sobretudo o Walter, me abriram uma porta imensa, eu que tinha somente a cultura da Rádio Nacional e aquela paixão pelos seus cantores. Passei a entender, a ouvir jazz, a ler Fernando Pessoa, Drummond de Andrade, e me encantar com Chagal, Picasso e Modigliani. Então foram descobertas que se acrescentaram à minha vida e à minha visualidade, e também ao meu palato, de ir para um bar e comer coisas que eu não conhecia, já que o cardápio restrito da minha casa não me permitia conhecer. Tudo isso foi assim… Comecei a desgutar a vida.
Tacioli – Mas como seus pais viam um adolescente já nos bares?
Herminio  Eu saí de casa cedo. Saí de casa aos 15 pra os 16 anos. Saí de casa, fui ganhar a vida.
Daniel Almeida  Mas como foi essa saída?
Herminio  Vou contextualizar a minha casa. O meu pai era calista, pedicuro. Ele tem uma história muito linda, que ainda não sei direito. Meu irmão, que morreu há pouco tempo, tinha um material que descobri recentemente. Encaminhei tudo para o Alexandre Pavan, que está fazendo a minha biografia. O papai inventava. Ele foi um cara que, pobre, foi um dos primeiros a ter telefone em casa. O primeiro rádio que surgiu, rádio Galeno, ele comprou. Ele lutava muito, era um grande batalhador e, segundo a minha cunhada, um fato que eu desconheço totalmente: ele teria tido uma barbearia perto do Simpatia, onde o Getúlio ia fazer a barba com ele. Depois ele foi pra Petrópolis atender também o Getúlio. Mas, ao mesmo tempo, como pedicuro, como um cara que tratava de unhas, ele tratou dos pés e das mãos da Carmen Miranda e da Carmen Costa. Sempre falei pra Carmen Costa: “Além da grande admiração por você, tenho uma gratidão porque você botou muito pão na minha casa por causa dos seus pés e das suas mãos”. Papai tinha um sitiozinho em que ia pra lá numa época em que ele se separou da minha mãe. É uma história que está muito difusa na minha cabeça. Mas o meu pai era aquele cara de olho azul, azul. Loiro de olho azul. Minha mãe, mulata. Na minha família, parte da minha mãe é de origem negra. Eu tenho tio retinto, negro retinto. Esses olhos verdes talvez, não sei, vieram de meu pai. Mas minha mãe era uma escamadeira de peixe, como meus tios, que viviam da pesca na Ilha da Jipóia. Dali vem a coisa do palato que falei. Fiz um poema sobre isso agora. Não havia padaria na ilha. Guardava-se carne de porco, lingüiça em uma lata de banha. E o café da manhã, era às 4 e meia da manhã, quando o pessoal saía pra pescar. Então a minha avó, que adorava uma cachacinha, fazia angu… Vinha pra mesa aquele angu maravilhoso, aquele café feito na cana-de-açúcar e, de repente, aquela banha naquela frigideira negra, a banha estalando, aquele ovo estrelado. Esse era o café da manhã! E aí cada um saía no seu barco. E meu avô, que eu não conheci, era violeiro. O vô Gregório era violeiro, violeiro afamado, segundo diziam, lá pelas cercanias de Angra dos Reis. Então, quando ele tinha um desafio de viola qualquer, a minha avó preparava um matulão, descia com ele, e ele ia temperando, temperando e afinando a viola. E ela ia remando pra ele não se cansar. Ela remava, deixava ele lá na vila e que voltasse somente quando fosse vencedor. [risos]

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