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Entrevistas de música brasileira

Herminio Bello de Carvalho

Herminio-940

Herminio Bello de Carvalho

parte 1/18

Não é improvável que eu tenha visto o Mário de Andrade

Herminio Bello de Carvalho  Podemos começar?
Ricardo Tacioli  Podemos.
Herminio  Vou primeiro contextualizar o porquê de São Paulo e o porquê daqui. [em referência à entrevista no Bar Filial, na Vila Madalena] Sempre tive uma profunda relação com bares, né? Desde a infância, mas não por freqüentá-los, e sim por uma sedução natural. Quando eu era garoto passava pela Taberna da Glória… Eu me lembro daquele mármore rosa, daquelas mesinhas como essas daqui e, na porta, um vai-e-vem que dava pra uma outra história. Eu nunca me lembro pra onde dava essa outra porta, mas era uma porta que me fascinava. Daí que nesse meu livro (sobre o Mário de Andrade), as Cartas cariocas, eu avento a hipótese de tê-lo visto. Isso porque a figura do Mário na minha cabeça é tão forte, aquela logomarca do queixão, do dente, do riso, aquela coisa que não é improvável que, sendo eu um menino que saía muito fugidio de casa e ia sempre pra taberna – eu morava na Glória –, de tê-lo visto um dia. Eu tenho uma memória assim… Eu guardo coisas… Como a dona Cristina descendo a ladeira, que pegou uma música minha e do Maurício. [n.e. Compositor carioca (1943-1995), Maurício Tapajós dividiu com Herminio a paternidade de músicas como “Mudando de conversa”] São fragmentos da minha infância que eu colho e, de repente, surge o Mário. Então, é uma coisa que eu apresento no meu livro como uma hipótese pouco provável, mas sinto que pode ter sido… Um dia, conversando como Sérgio Cabral [n.e. Jornalista, escritor e pesquisador de música brasileira, autor de biografias de Pixinguinha, Elizeth Cardoso, Nara Leão e Tom Jobim ], eu dizia assim: “Sérgio Cabral, eu tenho a impressão de que eu ouvi ainda na Galeria Cruzeiro, lá no Rio de Janeiro, o Pixinguinha tocando no carnaval”. Ele disse: “Claro, ele tocou”. E deu a data, contextualizando tudo certinho. Então, estava correto. A minha sensação tinha uma base histórica correta que o Sérgio Cabral, que é um expert, logo localizou. Então, esse bar aqui [Bar Filial] responde à minha memória de outros bares que eu freqüentei, não somente a Taberna, que foi um bar muito forte na minha vida, até porque eu morei na esquina da Taberna da Glória durante algum tempo. Ali eu bebia com Aracy de Almeida, com Ismael [Silva]. E ali o Ismael bebeu com Noel, a Aracy bebeu com Noel e com Mário de Andrade e com Fernando Sabino. Em São Paulo, quando veio o Vou Vivendo, com o Helton [n.e. O produtor musical Helton Altman fundou, em 1984, ao lado de seus irmãos e do músico Eduardo Gudin, o bar Vou Vivendo. Com o encerramento de suas atividades, inaugurou o Bar Filial, na Vila Madalena], eu vim a ser padrinho do bar, a convite dele. Esse e outros se incorporaram à minha memorialística dos bares… O Vou Vivendo, que acabou, o Gargalhada, que acabou, foram dois bares em homenagem ao Pixinguinha. E vim trazendo algumas coisas do Pixinguinha que eu tenho, dando pro Helton, como a caricatura do Pixinguinha que está aqui. Tenho uma coleção do Pixinguinha na minha casa. Então, hoje estamos aqui. Escolhi porque eu me sinto um pouco em casa. Eu me sinto protegido pelos meus amigos. É uma forma de ficar um pouco mais à vontade. Só contextualizei porque o bar tem essa história. E havia o Simpatia, que é um bar que vocês não conheceram. Era um bar que tinha umas cadeiras de vime e uns sucos, de tamarindo, de coco… Não eram sucos, eram frapês. Era uma coisa engraçada que vinha com uma espuma desse tamanho. Era uma delícia! Esses bares foram muito fortes na minha vida.

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