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Entrevistas de música brasileira

Herminio Bello de Carvalho

Herminio-940

Herminio Bello de Carvalho

parte 17/18

Qual é o homem que não tem inveja do pau do Garrincha?

Tacioli – E que outros medos você tem, Herminio?
Herminio  Que outros medos? Olha, medo…
Tacioli – Abre o seu coração, Herminio. [risos]
Herminio  Olha, no outro dia o meu psicanalista perguntou assim… Caiu o assunto sobre inveja, porque eu encontrei o Zuenir Ventura. Brinquei até com ele: “Zuenir, você está me confundindo a cabeça, eu havia um negócio de inveja na minha cabeça e você mudou o meu conceito?”. Ele riu muito, brincou comigo, pessoa adorável… Aí o cara perguntou: “Você tem inveja?”. Eu pensei bem. Fui pra casa, fui ler meus livros. Eu não consigo ter inveja. Aí falei pra ele o seguinte: “A única inveja que eu poderia ter na minha vida seria do pau do Garrincha, que era enorme”. Qual é o homem que não tem inveja do pau do Garrincha? [risos] Então foi uma brincadeira que eu consegui fazer. Eu não tenho esse sentimento de inveja. Aí ele disse: “E rancor, você tem?” “Não. O rancor eu não sei o que é. A raiva e o rancor podem ser, de repente, uma revolta.” Eu não tenho rancor pelo Severino, entendeu? Eu não tenho rancor pelo Renan Calheiros ou pelo Jefferson. Eu não tenho rancor. Tenho vergonha. Tenho vergonha de pertencer à mesma nação onde eles têm uma identidade de brasileiros. Tenho vergonha pelos meninos que possam amanhã achar que eu faço parte dessa máfia. Rancor também não tenho. Acho que isso nem interessa muito, porque eu tenho outras coisas com as quais sonho. Sonho bastante e detesto que as pessoas não entendam que sonhar é importante, realizar sonhos. Quando há um sonho desse tamaninho ajuda o cara a fazer algo… Sabe, essa capa do meu disco tem um menino… Eu fui beber com o meu editor, que é o Rodrigo Ferrari, e a gente sempre se encontra com uma turma muito boa. É um pessoal que adora música. O Loredano, que é fantástico, muito amigo meu. Chamo-o de “o rapaz que mal sabe desenhar”. Aí um menino chegou lá. “Loredano, pede pra ele mostrar o desenho!” O garotinho é da entregadora da livraria. A capa do meu disco tem uma caricatura dele, uma caricatura minha… É o que posso fazer. Você tem que dar oportunidade. Não adianta você somente falar “Está bom!”. Isso é muito fácil. Eu odeio elogio fácil, odeio. Quando você, além do elogio, pode fazer e não faz, aí é uma coisa detestável. É um egoísmo, sabe?! Falei pro Louredano: “Olha que lição linda!”. Ele é um cara que estimulou o menino a fazer e que adorou; está feliz da vida! Tem a caricatura do Sábato, do Nasser e tem do menino. Não adianta você falar assim “Ah, é bom!” Dá oportunidade. Vai lá, mostra que isso é viável. A inserção no mercado não é essa coisa que o governo anda alardeando por aí. É na prática que se faz. Eu pelo menos vejo assim, não consigo ver de outra maneira. São procedimentos práticos na vida. Na verdade, não estou fazendo nada de novo, estou simplesmente cumprindo uma obrigação, porque foi o que fizeram a vida inteira comigo. Na hora em que fui mostrar um artigo para o Lúcio Rangel, uma carta resposta ao Manuel Bandeira, uma resposta que ele não pediu, um artigo que ele escreveu sobre literatura e violão, estava defasado, mas o Lúcio publicou. Escrevi uma carta ao Manuel Bandeira contestando uns dados. O Lúcio olhou aquilo, olhou pra mim, olhou pra carta: “O que é que você está fazendo?”. “Eu vim entregar, mas está tudo aqui.” “Você pode me acompanhar?” Abro a porta e dou de cara com aquele dentuço, de hobbie… Era o Manuel Bandeira. Aquela carta me abre a porta para a Rádio MEC, do Mozart Araújo. Quero dizer, Lúcio Rangel, Manuel Bandeira, Mozart Araújo… Em seguida passo a ser colega da rádio, funcionário da Rádio MEC, ao lado do Drummond de Andrade e de todos nesse ciclo de amigos do Mário de Andrade, meu ídolo. Eu somente estou devolvendo. Não precisa ser bonzinho. Eu não sou nada bonzinho. Sou um horror! Sou um capeta! Mas estou devolvendo à vida essa oportunidade que me deram. Foi assim que fizeram comigo, nada mais. A ideologia de vida é assim. Não é missão, não. Missão deixo para os missionários. Tenho horror de missionários.

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