gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Herminio Bello de Carvalho

Herminio-940

Herminio Bello de Carvalho

parte 16/18

Quero recuperar o meu acervo para a garotada

Tacioli – Mas você falava da sua inserção no meio radiofônico junto às estrelas. Esse foi o momento?
Herminio  Esse foi o momento… Quero dizer, aquela mulher à quem eu ia pedir autógrafo, “Ô, me dá um autógrafo aqui”, que me ofereceu um retratinho, é a mulher que abre hoje o meu disco… Ela, aos 78 anos de idade, cantando maravilhosamente. É a Zezé Gonzaga! A madrinha desse lançamento ia ser a Heleninha Costa, uma cantora que eu adorava, uma amiga querida, mas morreu duas semanas antes. Então são essas perdas que me fazem ter a noção de tempo, que exigiria uma longa dissertação sobre a noção de tempo que eu tenho. O tempo que eu dispus até agora pra fazer as coisas com força, com energia, batalhando, suando muito e vencendo muitos obstáculos, e o tempo que eu disponho daqui pra frente. Mas eu que sempre tive os meus velhos, os meus gurus, os meus baobás me guiando, que era os mesmos pensadores, como Mário de Andrade, que eu não conheci ou conheci, e o Villa-Lobos, o Portinari que eu admirava, o Niemeyer, ou outros com os quais convivi, como o Drummond, o Mozart Araújo, o Luís Rangel, o Mignone, a Oneyda Alvarenga. Eram meus ídolos, meus paradigmas. Hoje eu me vejo aos 70 anos de idade com uma garotada linda, companheiros meus… Eles eram garotos mais jovens do que eu, eram bem garotos, como o Maurício Carrilho, a Luciana Rabello, o Raphael [Rabello], que teria hoje 42 anos de idade. O Raphael chegou na minha vida com 13 anos de idade, o Maurício com 17, 18, e hoje eles são oficineiros da Escola Portátil de Música. Hoje os filhos deles me chamam de “tio” e estudam nessa escola. Hoje eu tenho um parceiro com 27 anos de idade, parceiros jovens e seguidores. Mas o tempo que eles têm pela frente é enorme. São muito jovens. Eu tenho que ter… Detesto essa coisa da morbidez, “ah, vou morrer daqui a pouco”. Não é isso! Mas tenho que ter a noção certa de que meu tempo é bem menor do que o deles. Por isso o tempo é uma coisa com a qual eu tenho que ter cuidado.
Tacioli  Dá agonia?
Herminio  Dá, dá, porque eu tenho muita coisa que eu queria fazer e que eu não consegui.
Almeida – Liste algumas dessas coisas.
Herminio  Eu listo uma só. Recuperar o meu acervo para repassar pra essa garotada. Isso é uma fixação que eu tenho, uma luta permanente. Não sei se será realizado… Essa é a noção de tempo. O meu tempo é esse, que é um tempo que eu meço todo dia. E seja um amigo meu que manda um poema pra musicar e ele quer fazer aquele poema, ele quer aquela música que, às vezes, não tenho tempo porque estou ocupado, mas aí tento fazer, tento fazer… Depois que terminou esse disco, eu já fiz umas músicas. Umas quatro. Fiz com o Zé Renato, mais uma com o Vital e não-sei-o-quê, e já musiquei uma outra coisa. Aí me encomendam um texto sobre o Baden pra Bethânia ler na abertura do Prêmio TIM. Aí tenho que brigar… Eu tenho que ter um tempo pra brigar! Eu tenho que escrever carta brigando. Eu tenho que brigar pra ter idéia, eu tenho que dizer desaforo. Eu morro se não botar pra fora o que sinto. É uma coisa que eu não consigo controlar, entendeu? Eu não consigo controlar.

Tags
Herminio Bello de Carvalho
de 18