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Entrevistas de música brasileira

Herminio Bello de Carvalho

Herminio-940

Herminio Bello de Carvalho

parte 10/18

Fui expulso da Rádio MEC pelos militares

Max Eluard  Herminio, você acha o que Estado oferece em termos de política cultural, de mecanismos para se produzir cultura colabora com isso?
Herminio  Colabora, mas entenda bem… Em 73 fui expulso da Rádio MEC pelos militares. Em 90 saí da TVE expulso pelo Collor, que me colocou em disponibilidade. E quando o Collor desestruturou, acabou como Ministério da Cultura, eu vaticinei o seguinte: “Isso aí vai levar uns 20 anos para consertar”. Muitos erros que estão acontecendo atribuo aquele momento. Estou muito bravo! Desestrutura! É como você desmontar uma casa e, sem recursos, tentar reconstruí-la. Se é uma casa que tem afresco, com suas platibandas altas, é mais difícil você construir. Então, esse é o problema. Sei que existe uma euforia, mas falta uma política. Acho que a política cultural quer se esboçar mas está emperrada porque os recursos humanos foram embora. A equipe técnica da FUNARTE está aposentada. Digo da FUNARTE porque é uma coisa que eu conheço mais de perto pelos meus amigos que estão lá ainda. Alguns, já que o resto foi tudo embora. Também não existe no Brasil cursos que formem produtores, gerentes culturais com conhecimento de causa do mercado que trabalha, pelo menos não conheço. Por isso respeito muito o animador cultural do interior, que é aquele cara que quando faz o evento é um sacrifício enorme. Aí você vai ver que o cara telefonou para o artista, que foi ali, catou dinheiro pra pagar a passagem dele pagar a gasolina, um cachezinho… É o mesmo cara que, de noite, a mãe fez os docinhos e os salgadinhos pra botar no camarim do artista, entendeu? Aí o cara emprestou o carro para ir buscar a equipe. Isso existe e eu valorizo demais! Enquanto na França há a profissão do animador cultural, aqui é uma arrumação técnica.
Tacioli – Essa formação poderia ser dada pelas universidades?
Herminio  Por que não? O problema é o seguinte: o Estado se distraiu e não tomou conta dos bandidos de alto coturno, de alto gabarito, e se despreocupou com a bandidagem dita marginal. Qual é a diferença entre aquele estuprador, aquele bandido que matou a família, que chacinou ou que roubou um bombom e que está preso atrás das grades desse cara que achaca publicamente o governador, que faz um discurso moralista na Câmara? São bandidos diferentes, mas são todos bandidos! A gente não sabe o que está acontecendo. Eu fico perplexo quando ligo a televisão e vejo essas cenas horrorosas, essa coisa “severina”, no sentido de um comportamento absolutamente imoral. Isso me ofende! Ofende o menino que fui e que se orgulha muito de ter começado a trabalhar aos nove anos de idade – oficialmente aos dezesseis. Aos nove anos de idade eu tinha que tirar um urinol do Seu Corrêa debaixo da cama e despejar; eu vivia fazendo entregas, fazendo um trabalho informal. Eu ajudava em casa. Vejo isso com muita tristeza. Anteontem, lá no espetáculo que estou fazendo, o pessoal aplaudia quando, de repente, ouvi um barulhaço. “Tá, tá, tá, barará!” Quando vi eram os meninos da Escola Portátil de Música entrando, tocando música. Eu fiz um discurso: “Olha, nós somos a banda, vocês são o alto clero; nós somos a parte luminosa desse país! Por favor, não misturem alhos com bugalhos. Não somos aquelas pessoas!” É preciso ter isso em mente.

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