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Entrevistas de música brasileira

Herminio Bello de Carvalho

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Herminio Bello de Carvalho

parte 9/18

A indústria do disco tem o mesmo comportamento da bélica

Tacioli  Recentemente a exposição do Chico, que esteve em São Paulo, e vi imagens que nunca havia visto, como aquela do Pixinguinha com o Donga, com o Chico, e com a Hebe apresentando.
Herminio  Aparece até o Valfrido Silva e o Gabé, mas não os identificaram. Ninguém sabe quem foi Valfrido Silva e o Gabé, dois compositores importantíssimos.
Tacioli  De uns anos pra cá se acentuou os relançamentos em CD. Várias gravadoras, algumas assumindo isso como importante, outras aproveitando essa onda. Os seus relançamentos, como o Timoneiro, como você coloca isso…
Herminio  Primeiro vamos analisar o que aconteceu antes. O Timoneiro é, por sorte, o disco da Alaíde que foi produzido na época pelo ex-marido dela. O tape pertencia a ela. O disco do Vital é de uma gravadora que terminou, mas o cara concedeu, autorizou…
Tacioli  O master?
Herminio  O master, não, ele fez uma autorização… Não, tem um nome que se dá a isso… Recebi uma autorização… Daqui a pouco a palavra vem.
Almeida  Cedeu gentilmente.
Herminio  Não, houve 11%, não foi gentilmente. Então, dois discos me pertenciam, que foram discos patrocinados e que não havia sido lançados comercialmente. Eles me pertenciam. E tem mais esse disco que a Zélia Duncan produziu agora, novo. Então foi fácil fazer essa caixa, mas não está sendo fácil eu tentar recuperar, ou pelo menos lançar condignamente os discos que produzi pela EMI-Odeon, que foram discos e mais discos… Eles saem e não me pagam, pra começar, pelos direitos de produtor. Quero dizer, os discos saem em coleções, completos, até bem feitos, mas não vejo a cor do dinheiro… Até o Gavin, dos Titãs, está fazendo um trabalho muito bonito de recuperação disso, da memória do vinil para o CD. Não que me interessasse, mas para alguns discos que nunca foram lançados, que eles nem sabem que existem, e que sei onde estão, gostaria que me chamassem para que eu pudesse colaborar.
Almeida – Você nunca quis tomar a frente de uma série de relançamentos?
Herminio – É o seguinte: eu brigo muito! Ontem percebi que eu estava com duas brigas ao mesmo tempo. Eu estava na televisão. Eu tinha mandado uma carta violenta para a TVE de manhã, peguei o avião e vim para cá. Aí disse uns desaforos para o Arnaldo Niskier, que é o imortal que está na frente da Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro e que, de repente, sustou a autorização para sair os discos da Elizeth e do Jacob do Bandolim. Aí foi uma coisa estranha. Qual é o impedimento jurídico que faz com que um disco importante como aquele da Elizeth, do Jacob, do Zimbo e do Época de Ouro não saia? Qual é o impedimento jurídico?
Tacioli  Já foi um parto pra sair.
Herminio  Já foi um parto. Foram anos e anos pra sair. Então, são essas lutas que não vêm a público, entendeu? São lutas pequenas mas que são terríveis, quero dizer, não consigo tirar da TVE cópias dos meus programas. E quando fiz O samba é minha nobreza precisei usar um tape do Pixinguinha e eles não me deram. O tape foi feito pelo Jean-Claude Guiter, que é um amigo meu da França, pra utilizar uma imagem que havia no Saravah, do Pierre Barouh, que é amigo e sócio dele. Só que tem que o Pierre Barouh não estava em Paris, estava no Japão. “Herminio, me passa um e-mail.” Passei um e-mail pra Paris, daí ele mandou pro Japão e cinco ou seis horas depois o Pierre Barouh carinhosamente autorizou. Mais fácil, né? Um cara que veio em 68 ao Brasil para registrar Pixinguinha é um cara excepcional, não é? Reconheçamos, ele teve esse cuidado.
Almeida  Você lembra alguma dessas imagens que você produziu?
Herminio  Eu tenho a carreira inicial da Simone, a não ser o primeiro disco, os quatro discos iniciais da Simone, os últimos do Pixinguinha, o primeiro do Paulinho da Viola, o primeiro do Roberto Ribeiro, o primeiro do João de Aquino e o acervo da Copacabana que foi adquirido pela EMI-Odeon, todos os discos, dez, doze discos que produzi para a Elizeth. É uma coisa bastante forte… Elza, muita coisa, Miltinho, todos os discos da Clementina, à exceção de um feito pelo Faro. É uma coisa respeitável! Dalva está saindo…
Tacioli  Da Clementina saiu em caixa, mas…
Herminio  Saiu pela gravadora que se negou a lançar porque dizia que não era comercial…
Tacioli  Esse era um projeto especial da Petrobras.
Herminio  E já estava pago, tudo estava pago, fotolitos, o projeto… É muito barato fazer isso, mas eles não apostam em um público que existe. Existe um público que acolhe, há um nicho onde essas coisas são absorvidas e são imediatamente apreendidas…
Max Eluard  O mercado fonográfico desaprendeu a vender localizadamente? Ele não pensa em outros segmentos que possam ser trabalhados mas em menor escala?
Herminio  Salvo as exceções, que sempre existem, mas tem gravadoras independentes ótimas aí. A grande indústria do disco, uma parte considerada, não toda, tem o mesmo comportamento da indústria bélica, da indústria farmacêutica, da indústria do tabaco, da indústria do tráfico de droga. É a mesmíssima coisa. Não vejo nenhuma diferença. Atuam como gerentes de supermercados que vendem produtos. “Esse produto é descartável mas vende muito. Vai liquidar o artista daqui um ano? Foda-se o artista!”

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