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Entrevistas de música brasileira

Herminio Bello de Carvalho

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Herminio Bello de Carvalho

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Não vim aqui pra fazer gracinhas

“Missão, não!”. Foi assim, de bate-pronto, que Herminio Bello de Carvalho respondeu a uma das perguntas no Filial, bar paulistano da Vila Madalena. A interrogativa tentava elucidar como ele definia sua paixão pela música brasileira e o vigor com que vive por ela. E, numa fração de segundo, a resposta já estava esparramada sobre a mesa. Não era missão, não, essa coisa de super-heróis, de religiosos ou de homens-de-farda. Todos esses têm algo a cumprir. Uma meta. Seja salvar um gato, um planeta, umas almas ou defender fronteiras. Para Herminio, não. Não, pelo menos quando o assunto é música.

Ele é uma daquelas figuras-chave na história da música produzida no país. Homem das artes, sacumé? Para entender, basta dar uma rápida passada de olhos por sua biografia. No meio musical desde sua juventude imberbe, produziu uma centena de shows e de discos obrigatórios. Teceu letras para outro punhado de melodias criadas por gente como Villa-Lobos, Jacob do Bandolim, Paulinho da Viola, Dona Ivone Lara, Cartola, João Pernambuco e Baden Powell. Amigo íntimo de cantoras como Aracy de Almeida e Elizeth Cardoso, descobriu Clementina de Jesus, quando a expôs no Rosas de Ouro, espetáculo antológico que ainda returbinou a vida artística da vedete Araci Cortes e revelou o jovem Paulinho da Viola. Herminio tem dessas coisas…

Também criou dezenas de projetos, como o Pixinguinha, que une um artista veterano a um outro com menos estrada e circula pelo Brasil em shows gratuitos. Um outro que privilegiou a publicação de livros sobre MPB, outro que valorizou a edição de partituras e por aí afora. Empreendimentos que firmou quando dirigia a Funarte entre os anos 1970 e 1980.

Herminio é assim, meu camarada. Com 70 anos – e comemorando o lançamento da caixa Timoneiro –, mantém os ouvidos e os olhos de menino, não pára de produzir e está atento ao novo. Não aquele gratuito, de qualquer sorte, arremessado pelo mercadão. Tenta identificar e entender essas novidades. Assim fez com o rock (é parceiro de Frejat) e com o hip hop. Isso não quer dizer que vista uma camiseta do Barão Vermelho ou do Pavilhão 9, mas sabe que a música brasileira tem um montão de braços, de caminhos.

É, a conversa de uma hora e meia com o poeta, produtor e compositor carioca esbarrou nisso tudo, nessas lembranças e nas histórias que desenha diariamente. Como se tivesse que proporcionar aos outros tudo aquilo, todas as oportunidades que um dia se apresentaram a ele. A oportunidade de conhecer. Por isso, Herminio não guarda histórias na gaveta, na cachola. Publica, conta, inventa, produz, canta. A música brasileira circula. Assim, Clementina aparece. Elizeth, Aracy, Dalva e outras. Assim, Teresa Cristina, Pedro Miranda e a rapaziada nova da Lapa dão a mão a Zélia Duncan, Ed Motta, Lenine e Zé Renato. Mas, para Herminio, isso tudo não é missão, não. É só um jeito de levar a vida, dá para entender?!

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