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Entrevistas de música brasileira

Heraldo do Monte

Heraldo do Monte. Foto: Jefferson Dias

Heraldo do Monte

parte 8/18

Dolores era uma tremenda improvisadora

Tacioli – Você veio para São Paulo em 59. A bossa nova, principalmente em São Paulo a partir dos anos 60, já toma espaço. A bossa nova te interessou profissionalmente como um caminho, “Com isso aqui vou longe”?
Heraldo do Monte – Eu estava em Recife ainda quando tive contato com o Chega de Saudade, o disco do João Gilberto. Foi amor à primeira vista. Amor à primeira vista! Verdade!
Tacioli – Mas o que tanto chamou a atenção ali?
Heraldo do Monte – As harmonias que eram mais sofisticadas daquelas do samba tradicional. E a voz do João que é uma coisa… O Miles Davis falou: “Ele soa bem até lendo um jornal”. [risos] E Miles Davis sabe das coisas. A voz do João… era uma coisa toda nova quando você tem um parâmetro só de samba tradicional. Eles mexeram em tudo: a batida, a calma, a economia de instrumentos, a batida de violão, a harmonia. A harmonia bem feita.
Tacioli – E o Jobim?
Heraldo do Monte – Também faz parte. O que me encanta no Jobim é que ele é muito teórico. Ele é coração, mas você não percebe nada de errado no que ele faz teoricamente. Tem uma introdução dele, não lembro de qual música, que é engenharia de música. É uma linha que sobe e uma linha que desce. Movimento contrário. Isso e o jeito que ele compõe também. Ele procura não repetir nota. A gente não gosta de repetição. A gente nasceu numa terra em que ninguém repete nada. Em Pernambuco não se repete nenhuma letra. A gente é obrigado a não se repetir.
Tacioli – Mas esse impacto que causou em você o Chega de Saudade e o João Gilberto, teve com o Galvão?
Heraldo do Monte – O Galvão era…
Cirino – Ele não foi (impactado pela bossa nova)?
Heraldo do Monte – Não. Ele é um pré-histórico. [risos] É verdade! Ele não tomava conhecimento de nada. Ele queria dirigir o bonde dele. Verdade!
Tacioli – Mas (a bossa nova) repercutiu em Recife?
Heraldo do Monte – Muito e muito nos músicos que já curtiam o Stan Kenton de uma orquestra de jazz que tinha naquela época na Rádio Jornal do Commercio. Uma porção de gente boa naquela orquestra. Então, esse disco repercutiu nesse pessoal do bom gosto, digamos. É bom gosto, sim. Sem isso, sem aspas. Eu concordo! É bom gosto mesmo. Infelizmente hoje a gente tem muita vergonha de falar “mau gosto” para certas coisas, porque é politicamente incorreto, mas tem coisas de mau gosto e tem coisas de bom gosto, não é? Toda música que um músico pode passar um mês sem tocar, chegar lá e fazer um show legal, essa música não presta. É verdade! Uma música que presta você tem que estudar todo o dia, senão você não consegue tocá-la. Então, essa é a música de bom gosto. Pode ser até ruim, mas pelo menos… Você não pode comparar uma OSESP com uma… Nem vou dizer as coisas ruins que têm por aí, não é ético.
Max Eluard – Heraldo, todo mundo que vem pra São Paulo tem uma história de batalha. Parece-me que você chegou numa situação diferente, já tinha trabalho garantido…
Heraldo do Monte – Graças a Deus.
Max Eluard – E como foi essa chegada? Você logo se adaptou à cidade, à vida em São Paulo? Você demorou quanto tempo pra voltar para o Pernambuco depois que você veio pra cá? E como ficou sua relação com Pernambuco depois que veio morar aqui?
Heraldo do Monte – A princípio é aquele negócio da descoberta, você quer conhecer. Você é o novo. Então, você não está muito pensando… Eu só pensava na minha mulher, que eu precisava casar com ela. Passei um ano sem…
Tacioli – Você deixou a Lurdes lá? Você veio pra cá e ela ficou?
Heraldo do Monte – Isso. Depois voltei pra casar. Então, era um mundo novo. A gente gravou com Dolores Duran, com o Walter Wanderley, que estava no Michel com a gente. Um disco com “A noite do meu bem”… Era um disco de duas músicas só.

Capa do EP Dolores Duran no Michel de São Paulo. Foto: reprodução

Tacioli – Era um compacto?
Heraldo do Monte – Um compacto: de um lado era “A noite do meu bem” e do outro era “My funny Valentine”.
Tacioli – Um 78 (rotações).
Heraldo do Monte – Acho que era. Inclusive no “My funny Valentine”… Estou misturando um pouco. Eu conheci o Jim Hall aqui em São Paulo, um guitarrista de jazz muito bom. [n.e. James Stanley Hall (1930-2013), guitarrista e jazzista norte-americano que viajou com a cantora Ella Fitzgerald à América Latina entre 1960 e 1961] Meu preferido, porque dá poucas notas, sabe muita teoria e escreve para orquestra. Eu gosto desse tipo de cara. Jim Hall… Ah, sim. Ele ouviu o disco da Dolores e descobriu que “My funny Valentine” tinha um pedaço que ele não sabia. Tinha uma introdução no “My funny Valentine” que é pouco tocada pelos jazzistas. E a Dolores o gravou completo. A Dolores era uma tremenda improvisadora. Na gravação desse disco a gente fez uns cinco takes… Era “A noite do meu bem”?… Não sei como qual é o nome disso. Ela improvisava. Tinha um chorus que ela fazia… Ela fazia um negócio com as notas. Em cada um dos cinco takes ela fez diferente. Cada um mais bonito que o outro. Como se fosse um jazzista mesmo, um instrumentista. Eu adorei isso dela.
Tacioli – Tudo isso em São Paulo?
Heraldo do Monte – Em São Paulo. É a sequência do negócio do Walter Wanderley.
Cirino – E tinha mais gente e músicos de Pernambuco em São Paulo nessa época?
Heraldo do Monte – Fora o Walter Wanderley? Um tempo depois chegou o Hermeto e começou a trabalhar numa boate chamada Stardust. Eu também fui trabalhar com ele nessa boate. O Hermeto é muito gozador. Eu tô pulando etapa…
Tacioli – Tudo bem.
Heraldo do Monte – A gente continua nas boates, na noite paulista.
Tacioli – A gente vai e volta, não é cronológico.
Heraldo do Monte – Continua na noite paulista. Vou falar um pouco. Não vou falar um pouco, não! Pausinha.
Tacioli – Heraldo, você quer água, suco?
Max Eluard – Lurdes, você quer uma aguinha, um suco? Tá tudo bem?

[Chegam Eric Mantoani e Eleonora Ducerisier]

Heraldo do Monte – O Hermeto… Fui trabalhar com o Hermeto no Stardust. O Walter tinha ido para os Estados Unidos já. Deixou a Isaurinha aqui. Foi tentar a vida lá. A gente trabalhava no Stardust…Vou contar só uma coisinha da personalidade do Hermeto. O Stardust começou na Praça Roosevelt. Isso aconteceu no Largo do Arouche, no segundo Stardust, que era de um judeu chinês [ri], o Alan – o cara nasceu na China, mas era judeu – e de um baterista que eu não sei de onde era, o Hugo. Foi nesse Stardust do Largo do Arouche. Estava no intervalo. Tinha uma escadinha que a gente descia pra descansar e, em cima, estava o pessoal dançando. O Hermeto subiu primeiro; eu ainda fiquei descansando um pouco. Quando subi estava o Hugo, que era baterista, e o cantor. Ele estava com o microfone aqui e cantando um negócio, acho que era “Mack the knife”. Um negócio que era sucesso na época. Estava em Mi bemol, digamos, e o Hermeto fazendo uns contrapontinhos bem bonitinhos, em Mi bemol mesmo. Estava um clima. O cara cantando com um [?]. E eu falei: “Mas que diabos está acontecendo? Não tá legal!”. Aí o Hermeto chegou. Eu ia passando pra pegar a guitarra. “Vem cá, vem cá!” Eu fui. Aqui estava em Mi maior, e a mão dele, mas bem suavezinha. Esse é muito doido. [risos] O Hermeto na época em que não era famoso e que tocava em boate, ele era uma desgraça…
Tacioli – Ele e o Satanás juntos?
Heraldo do Monte – É verdade. Bom, a gente tocou um bocado em boate. Aí começou… Interessante…
Tacioli – Tirando o Hermeto, quem mais você lembra de Pernambuco?
Heraldo do Monte – É, não lembro mais de ninguém. Tinha um acordeonista chamado José Carlos que veio de Recife, mas a gente tocou muito pouco. Calhou muito pouco de tocar junto. Acho que somente o Hermeto, por enquanto.

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